#FaesanoIntercom – Quem é o tempo na produção da notícia?

Quem estuda jornalismo já sabe: até as notícias chegarem à rua, um processo intenso de produção acontece. Em seu trabalho de conclusão de curso, a hoje jornalista graduada pela Faesa, Natalia Garcia Lucas, escreveu um livro de crônicas sobre a relação de cada um dos profissionais envolvidos nessa produção com o tempo. E o material foi aprovado para apresentação na categoria de Jornalismo Literário do Congresso Sudeste da Intercom 2017!

Esse congresso promete para a Faesa, viu?! Pela primeira vez, temos 11 projetos de alunos que receberam aprovação. ⭐️

Para escrever as crônicas, Natalia observou de pertinho a produção de um programa muito conhecido pelos capixabas. “Analisei o Bom Dia ES durante cinco dias e acompanhei os profissionais que fazem parte da produção do programa”, ela explica. Para quem não é do Espírito Santo, Bom Dia ES é o telejornal matinal da TV Gazeta, afiliada da Rede Globo em solo capixaba.

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Durante as visitas, ela percebeu como pauta, edição, apresentação, reportagem, cinegrafia, operação de teleprompter e direção de imagem entendem e lidam com o tempo. Fora da redação, Natalia analisou ainda a relação de uma telespectadora fiel do programa com o mesmo tema.

O tempo só existe condicionado a uma alma (mente) que possa contá-lo com uma percepção de antes e depois. Sem ela o tempo não existiria”, explica Natalia.

“Nunca tinha prestado atenção às dimensões do tempo, menos ainda ao tempo do outro, que se reconfigura em cada momento de forma própria. Cheguei à conclusão de que, na verdade, o único tempo que existe é o presente temporal psicológico e, este sim, é preciso e real. O ‘agora’ e, porque não dizer, ‘agoras'”, reflete.

E esse é um conceito importante neste contexto, já que o telejornal tem um tempo cravado para acontecer e precisa estar pronto em um horário fixo. A relação dos profissionais com a pressão de não perder os prazos e as durações de cada conteúdo gerou textos interessantíssimos.

Para a jornalista, o processo de lidar com esse conceito subjetivo enquanto aluna foi emocionante. “Descrever essas experiências em um livro de crônicas foi um desafio que valeu cada esforço. Hoje, podendo participar de um evento como esse, tenho a prova real de que nossas questões de complexidade humana e social são muito relevantes”, aponta.

Com exclusividade aqui para o Faesa Digital, a Natalia liberou o capítulo 2 do livro. Dá uma olhada:   👀

O tempo da Edição

Quando cheguei à redação, ela estava sentada ali. Nem se podia dizer desde quando, mas que chegou primeiro, como de costume. Entre uma fala e outra, a ouvi dizer que havia sido às 3 horas da manhã. Já tinha lido o jornal do dia, nas versões impresso e online se atualizar logo cedo era uma forma de saber em qual tempo ela se encontrava.

Estava no tempo dos primeiros passos para finalização do Bom Dia ES, televisivo do qual é a editora, produção que começou no dia anterior. O monitor de contagem regressiva marcava 5h40min. Pra mim madrugada, para Juliana Avanza meio do dia. Estava disposta e cheia de expertises de quem já está calejada da labuta que começa antes do sol dar as caras. Era tempo de fechamento de produção.

Faltam menos de 10 minutos para o jornal entrar no ar. Com os olhos sempre atentos na tela do computador, ela controla o tempo. Na mesa onde a editora estava tinha um aparelho, uma espécie de rádio relógio gigante, que ela cronometrava o tempo das entrevistas externas manualmente. A senti receosa. Observei que se tratava de um “buraco” de 2 min, que a incomodava muito. Buraco é um dos tempos previstos para o programa que ainda não foi preenchido com algum elemento da programação. Era tempo de completar.

Não dá pra deixar assim. Tem que cobrir. O jornal tem um tempo fixo e não pode ocorrer vazio. Vi por vezes ela conferindo todas as matérias para ver se estava faltando ou sobrando tempo. Durante a checagem final, falava no ponto com os apresentadores que estava produzindo as passagens para eles.

Agora faltam 7 minutos para o programa entrar no ar ao vivo. Mas não tem tensão com relação ao passar do tempo. Ela parece o controlar de verdade. Diferente pra mim. Aqueles minutos me deixavam ansiosa, tinha impressão de ser pouco.

Pra ela, quase uma eternidade. Fazia com certa tranquilidade seu trabalho. Dizem que quem trabalha em TV acaba assim. É como se tivesse esse relógio exato na mente. Sabem medir internamente o passar de cada segundo.

Depois de 40 minutos de noticiário, inicia-se um quadro fixo do programa. A entrevista de estúdio acontece em 10 minutos aproximadamente. Naquele dia, um secretário de Estado foi o entrevistado. Sem ser muito objetivo, gastava tempo sem dar a resposta desejada. O que gerou um desconforto na editora. Na sala de controle, se podia ouvir em claro e bom som: corta ele (tire-o do ar). Era o tempo da entrevista.

A entrevista não andava. Parecia perda de tempo deixar no ar um entrevistado que não dava a informação pautada. A editora levava as mãos na cabeça várias vezes se perguntando “o que eu vou fazer agora”, insistentemente conferia o tempo restante e energicamente falava alto que a lauda 21 e 22 haviam caído.

A entrevista acabou 21 minutos depois, o que impactou na respiração aliviada da editora e ao mesmo tempo no trabalho dela. Se antes havia um buraco, agora faltava tempo. Era tempo de ajustar.

Reduziu as matérias, tirou o que era menos relevante e guardou alguns assuntos para o dia seguinte. Repetiram-se informações sobre o clima na cidade e assim terminaram mais uma edição do Bom Dia ES. Era tempo de recomeçar.

Amanhã um novo programa vai ao ar.”

Legal, né? 📝😊

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