Mulher como objeto de marketing nas boates

Propagandas como “liberado pra elas até 00h”, “open bar para as mulheres que chegarem antes do horário x” ou “mulheres pagam 15 reais e homem 20” ilustram a diferença na cobrança da entrada para homens e mulheres. A prática é comum mas foi proibida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Secretaria Nacional do Consumidor.

A orientação para que haja fiscalização nos lugares que tem essa prática surgiu depois que um estudante de direito do Distrito Federal fez uma reclamação na justiça sobre pagar mais caro no valor do ingresso de um show. A juíza Caroline Santos Lima, do Juízado Especial Cível de Brasília, negou a concessão de uma liminar mas apontou que tal conduta é ilegal. Logo após, o Ministério da Justiça entrou na polêmica e determinou que a cobrança diferenciada é um ato ilegal.

A cultura é tão forte que passamos a vida achando que estamos sendo beneficiadas até entendermos que é uma questão predatória.

Uma estratégia de marketing?

A aluna de jornalismo Ana Laura Sordi não concorda e acha que a mulher é colocada como um produto da festa. “Eu acho que quando a mulher paga menos ou não paga, quem produz essa balada vê a mulher como um produto ou um atrativo. Do tipo, vai ter mulheres aqui e elas são mais um produto que estamos ‘vendendo'”, afirma a estudante.

Na verdade, essa atividade é uma jogada de marketing sustentada por uma cultura machista. O desconto para mulheres faz com que, obviamente, tenha mais presença feminina nas baladas, colocando-as em posição de isca para atrair o público masculino. As mulheres ficam satisfeitas pois pagam menos, os homens ficam satisfeitos pois tem mais mulheres e consequentemente, o dono da festa fica feliz porque a casa está lotada.

“Open Bar” pra elas

Além disso, existe a prática da “bebida liberada para elas” que é considerada outra estratégia de marketing. Se nós, mulheres, chegarmos antes de meia noite conseguimos, além da entrada 0800, o open bar (bebidas alcoólicas também 0800). Só gosta dessa prática quem não sabe o que se esconde atrás desses “benefícios”, todos oferecidos pelos bares e casas noturnas.

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Capixabas estão muito acostumados com a diferenciação da cobrança / (Foto: G1)

A estudante Daniele Canholato acredita que seja injusto, mas também entende que a consumação de homens e mulheres pode ser diferente. “Imagino que a mulher não consuma a mesma quantidade de bebidas alcoólicas que um homem, é claro que não tira o direito dela de consumir o quanto quiser. Já o homem, se não quiser consumir ele não é obrigado, então pagar mais também é injusto. Dá pra ter um equilíbrio com base em outros quesitos que não seja a consumação de bebidas”, relata.

Letícia Broetto é aluna de Engenharia Mecânica e não tem opinião formada sobre tal prática. “Pelo lado da igualdade, sou contra. Mas como mulher, não reclamo de pagar menos”, respondeu entre risos.

Quando esses tipos de serviços fazem partes das casas noturnas, não se pensa na vulnerabilidade em que a presença feminina é colocada. Qual a razão para a bebida ser liberada até determinado horário? A resposta é que quando esse horário acaba as mulheres já estão bêbadas e vulneráveis ao assédio que, nesses lugares, acontece de forma abusiva.