Violência: se divulgar aumenta?

Texto desenvolvido pelo aluno Leandro Fidelis para a disciplina de WebJornalismo ministrada pela professora Marilene Mattos.

Profissionais de imprensa e psicóloga analisam o impacto gerado pela divulgação da violência na mídia

É quase um consenso entre os jornalistas evitar publicar notícias sobre suicídios e sequestros. No livro Mídia e Violência, das autoras Silvia Ramos e Anabela Paiva, elas dedicam um capítulo para analisar alguns casos da imprensa nacional. Mas, de uma forma geral, a divulgação da violência pode contribuir para aumentá-la?

No caso do suicídio, segundo as jornalistas, são muitas as evidências de que este tipo de noticiário pode influenciar pessoas a atentarem contra a própria vida. Já no caso dos sequestros, as autoras ilustram o posicionamento da “Folha de São Paulo” nesse tipo de cobertura. O jornal prefere noticiar os casos apenas depois de concluídos para não atrapalhar as negociações com os sequestradores e comprometer a integridade física das vítimas.

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Rafael de Sá é editor de Polícia em A Tribuna.

O editor de Polícia do Jornal A Tribuna, Rafael Moura de Sá, acredita na contribuição da imprensa para solucionar crimes. Segundo ele, a veiculação de notícias de roubos de carro, por exemplo, ajuda as comunidades a ficarem mais atentas e cobrarem providências para que haja redução desses índices de criminalidade.

Se a violência aumentasse com a sua divulgação, o Espírito Santo não teria registrado redução do número de assassinatos, conforme divulgado recentemente pela Secretaria de Segurança Pública”, observa Rafael.

Alguns cuidados são fundamentais para não criar um clima de pânico. Segundo o editor, um exemplo foi a cobertura da greve da Polícia Militar, em fevereiro deste ano. “Nós tomamos um cuidado especial para não mostrar, por exemplo, lugares mais vulneráveis, onde comerciantes eram alvos de intensos ataques e que poderiam se transformar em vítimas. Neste caso, a divulgação contribui, sim, para o aumento da criminalidade.”

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Glacieri Carrareto

Para a repórter policial do Jornal A Gazeta, Glacieri Carrareto, divulgar não aumenta a violência.

A criminalidade está presente no dia-a-dia do capixaba. Escondê-la embaixo do tapete não irá diminui-la. É exatamente ao contrário, é preciso expor a violência para que possam ser cobradas atitudes de prevenção e intervenções por parte do Estado”, afirma.

Na sua rotina, as notícias mais comuns são sobre roubos. Mas, segundo a jornalista, os assuntos de destaque no noticiário vão depender do interesse público e das circunstâncias como o crime ocorreu. Neste caso, um roubo pode pesar mais que um homicídio, por exemplo. “Na maioria das vezes, os editores não fazem orientações específicas sobre as abordagens, mas podem intervir dependendo do caso”, acrescenta Glacieri.

Banalização

O aumento da violência a partir da repercussão na mídia depende da forma como as informações chegam ao público. É o que avalia a psicóloga Rúbia Souza.

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A psicóloga Rúbia Souza acredita que o aumento da violência a partir da repercussão na mídia depende da forma como as informações chegam ao público.

“Infelizmente, o crime é algo comum no Brasil. É importante que a mídia não utilize do sensacionalismo para transmitir as informações, porque dessa maneira as pessoas vivem com medo da sociedade e do que pode acontecer com elas e a questão da violência fica cada vez mais intensa. É necessário as pessoas receberem as notícias de forma realista, imparciais e sem omissão. Muitas vezes, uma notícia divulgada de forma errônea faz com que a população interprete de forma equivocada também”, diz Rúbia.

De acordo com a psicóloga, as redes sociais contribuem para ampliar a percepção sobre a violência. “Quanto mais transmitida, mais banalizada fica a violência. O jornalismo policial não está errado em transmitir as informações, porque está refletindo a realidade do país. Se a mídia não divulga as informações sobre a violência, a população vai achar que não existe a violência no país.”

Humanização

O editor de Polícia de A Tribuna, Rafael de Sá, defende que a cobertura policial deveria passar por modificações. “Deveria ter mais crítica, mais avaliação de dados e voltar a abraçar mais as comunidades, porque a violência está em todos os cantos. Se isso acontece, a comunidade passa a confiar mais na imprensa, que muitas vezes fica só no jornalismo declaratório. Isso não é legal”, diz.

Segundo o jornalista, a busca pela audiência é necessária para manter os “veículos de pé”, mas é importante um olhar mais humano nas reportagens.

Muitas vezes ficamos condicionados, fazemos um produto pré-moldado, e até o próprio repórter não tem muita humanidade. Então, é preciso rever alguns conceitos e, principalmente, saber avaliar os dados e colocar contra a parede aqueles que estão no poder.”

A repórter de A Gazeta Glacieri Carrareto engrossa o coro. “Quem escreve é tão ser humano quanto quem lê ou quanto os personagens daquele enredo. Há algumas notícias que me fazem escrever um texto às lágrimas. A isenção deve ser uma busca constante, mas a notícia policial não deve ser banalizada. Se ela se torna mais um lead qualquer na edição, ela se perde em meio à crueldade do mundo”, diz citando o caso da menina Fabyane, de dois anos, estuprada e morta pelo padrasto. “Nós repórteres de polícia costumamos construir uma casquinha para nos protegermos das tristezas diárias, mas tem casos que a gente acaba levando pra casa⁠⁠⁠⁠.”