Censura ou incompreensão?

No dia 08 de Outubro, o Fantástico exibiu uma matéria sobre casos recentes de ódio e intolerância que têm se espalhado pelo Brasil. A matéria deu ênfase principalmente a diversidade religiosa do Brasil e a polêmica causada pela exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, por conta da censura que sofreu no Rio de Janeiro e o cancelamento do evento em Porto Alegre.

O prefeito Marcelo Crivella vetou a exposição, sem consulta pública, alegando conter quadros impróprios por fazer referências a símbolos religiosos, pedofilia e zoofilia. 

Mesmo com o aviso de que na apresentação haveria nudez, há um vídeo de uma criança, acompanhada de sua mãe – que é cenógrafa – tocando no pé do artista Wagner Schwartz, apresentado nu, fato que gerou uma ampla discussão nas redes sociais.

Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira

A exposição tem como objetivo mostrar a diversidade cultural no Brasil. Obras que vão desde o século XX até os dias atuais, não sendo retratadas de maneira cronológica, procurando desconstruir  hierarquias e mostrar a diversidade no modelo artístico sob aspectos da variedade e da diferença.

São mais de 270 obras,  criadas por 85 artistas, e a exposição foi apoiada pelo Ministério da Cultura e patrocinada pelo Banco Santander, realizado pelo Santander Cultural e Governo Federal e produzido pela Rainmaker Projetos e Produções.

Obras mais polêmicas

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Cena de interior II, 1994, Adriana Varejão
Cena de Interior II (1994) é uma obra que já tem mais de 20 anos, o óleo sobre a tela de Adriana Varejão era uma das peças que abriria a exposição e foi alvo de ataques virtuais. A peça é retratada como um drama erótico e sua “intensidade histórica, conceitual e estética é exemplar da força da imagem que é possível encontrar nessa exposição”, diz o catálogo da mostra.

Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, 1996, Fernando Baril
Essa obra causou revolta por ter a imagem de Jesus Cristo descrita com vários braços, fazendo referência à Shiva – deus do hinduísmo, também conhecido como “o destruidor e regenerador” – e gerando polêmicas como a de blasfêmia. Podemos ver no retrato que Jesus está com vários braços para “segurar” tudo aquilo que é típico do ser humano.

Last Resort, 2016, Felipe Scandelari
A obra traz uma madonna – senhora – segurando um chimpanzé e itens iconográficos que remetem desde o século XVI – caveira – até os dias atuais, com a representação da  galinha pintadinha.

Adriano bafônica e Luiz França She-há, 2013, Bia Leite
“Bia talvez seja uma das poucas artistas brasileiras a enfrentar com desenvoltura e coragem esse tema tabu, que é a homossexualidade na infância e o portentoso sofrimento que crianças atravessam na fase escolar e no início da adolescência. A artista produziu essas pinturas a partir da combinação de fotografias das crianças retiradas do Tumblr www.criancaviada.tumblr.com, onde são postadas fotografias da infância dos próprios usuários LGBT com comentários”, explica o catálogo da exposição.

Lei

A Constituição Federal da República do Brasil, de 1988, em seu artigo 5, inciso IX, diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” culminado com o inciso VI, “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”, ou seja, confere direitos aos cidadãos brasileiros de terem suas crenças e suas liberdades artísticas sem serem censurados. Apesar disso, sabemos que na prática não é assim.

MRW I'm reading a book and my kids out side say cool, a black widow and then start screaming - Imgur

Espírito Santo

No dia 23 de outubro, um Projeto de Lei foi aprovado na Assembleia Legislativa do Espírito Santo e o governador tem 30 dias para sancionar ou vetar essa lei.

A lei proíbe pornografia e nudez em exposições artísticas e culturais em espaços públicos no Espírito Santo. O texto foi feito pelo deputado Euclério Sampaio (PDT) e a justificativa dada por ele para a aprovação da lei foi  “a promoção do bem-estar das famílias”, a fim de evitar “constrangimentos” à população. Ele diz em seu texto que: “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a nudez humana”.

jaja, cada vez que veo a mi hermano jugar algun juego o busar algo en internet - ImgurCaso a lei seja sancionada pelo Paulo Hartung, a pessoa que descumprir terá que pagar uma multa de R$ 3.186, podendo ser duplicada em caso de reincidência. Algumas fontes próximas ao Governador sugerem que ele deve vetar essa lei.

O único deputado contrário foi o Sérgio Mageski. As deputadas Janete de Sá (PMN) e Luzia Toledo (PMDB) acrescentaram duas emendas ao projeto: uma excluiu das proibições obras de grandes artistas renomados e fotos de indígenas e a outra incluiu a necessidade de restringir a participação de pessoas com mais de 18 anos nesses dois casos.

Opinião

Diante das imagens das obras, conclui-se que o povo brasileiro ainda tem muito preconceito em relação à comunidade LGBTQ+ e, apesar do Estado ser laico – ou seja, não ter uma religião oficial – as pessoas ainda não aceitam a diversidade religiosa. Tratam como assuntos sem importância e não fazem questão alguma em aprender sobre a cultura alheia.

A comunidade LGBTQ+ ainda é deixada de lado e grande parte da população fecha os olhos e acha um absurdo artistas retratarem realidades diferentes, realidades duras, muitas vezes de violência.

When I finally find another female Imgurian and she asks if it would be ok to swap nudes - ImgurA nudez também é retratada como tabu. Artistas como Michelangelo, Botticelli e Caravaggio pintam anjos nus, Tarsila do Amaral pinta pessoas comuns nuas, há uma história por trás de cada obra.

Em relação ao estado do Espírito Santo, há uma preocupação em valorizar artistas já conhecidos e desvalorizar artistas locais e pouco conhecidos. Cada um faz o que quer e vê o que quer, quem não gosta desse tipo de arte é só não ir. Mas houve um extremismo em relação a isso, visto que querem proibir todos de apreciarem essa arte.

Entrevista

O Faesa Digital entrevistou o professor Emílio Fernandes Rocha, que é formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em Artes Plásticas desde 1995 e é mestre em Ciências da Arte pela Universidade Federal Fluminense (UFF) desde 2005.

Faesa Digital – Você, enquanto artista e professor, o que acha que está acontecendo uma criminalização da nudez na arte?
Emílio –
 Eu acho que está acontecendo um grande equívoco. As pessoas estão misturando pornografia com arte, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Começou com o Queermuseu, onde tinha algumas imagens com conteúdo de cunho sexual, mas a questão é que a arte tem uma liberdade para se expressar, e as pessoas veem aquilo que elas querem, ninguém é obrigado a ir ver, está dentro de quatro paredes. Lá no Queermuseu, por exemplo, não havia um aviso de que teria essas imagens, mas eu acho que as pessoas estão deturpando muito o que está acontecendo. E não parou ali.

Você acha que houve pornografia ou algum tipo de abuso no evento da menina filmada tocando no corpo do artista?
Nesse casso, havia um aviso de que havia nudez lá dentro, então entra quem quer. As pessoas não são obrigadas a entrar. Em momento algum houve qualquer tipo de pornografia ou algum tipo de coisa erótica. Simplesmente a criança tocou a mão e o pé do cara, porque a obra era de interferência no corpo dele. Ele faz referência à obra de Ligia Clark, de 1970, ‘Os bichos’, onde existe uma interatividade com a obra. No caso, o corpo dele era o objeto.

Você acha que a mãe expôs essa criança ao levá-la ao Queermuseu?
Saiu uma matéria na ‘Veja’ dizendo o seguinte: ‘quem está errado é quem expõe essa criança nas redes’. Quando você filma a criança e expõe, aí sim você está colocando ela em risco, porque enquanto ela está ali dentro, não há problema algum. Em momento algum houve qualquer abuso ali. E, como eu disse, as pessoas têm que escolher o que elas querem ver

A polêmica levantada foi em relação ao convite que o artista nu fez à criança em tocar no seu corpo, você acha que teve um cunho sexual ou foi má interpretação das pessoas que estavam em volta?
Eu não vi ele chamando a criança para tocar em seu corpo, eu acho que isso não aconteceu, inclusive. Ele ficava imóvel e as pessoas tocavam no corpo dele. Eu acho que esse convite não existiu. Mas é uma obra interativa.

Você enquanto pai, levaria sua filha para essa exposição?
Eu não levaria minha filha. É uma questão de opção. Eu acho que, expor minha filha a isso, ela poderia encarar isso como algo normal, eu poderia estar causando uma erotização precoce, poderia deixar ela exposta a uma pessoa má intencionada que poderia não saber separar uma coisa da outra. O erro não está na expressão, mas na escolha.

O deputado estadual Euclério Sampaio, criou uma lei e foi aprovada pela Assembleia, proibindo a nudez em exposições artísticas. O que você acha disso?Trazendo para o Espírito Santo, o Euclério Sampaio diz: ‘as obras consideradas pornográficas seriam um incentivo à pedofilia e ao estupro, e que os artistas que expõe a nudez como nos museus de São Paulo e Porto Alegre deveriam ser presos’. Eu acho a posição dele completamente equivocada, não sabe o que está falando. Está existindo um exagero e as pessoas não estão sabendo separar o que é arte e o que é pornografia. E, volto a repetir, é uma questão de escolha, não de expressão. As pessoas vêem aquilo que elas querem.

Você acha que houve uma interferência da mídia na opinião das pessoas ou elas procuraram saber e estavam lá realmente para protestar contra aquela arte?
As pessoas estão se mobilizando. E quando você vê as pessoas protestando contra, as pessoas que são a favor vão se posicionar também. É lógico que as redes sociais ajudam muito no serviço, você vai criando uma bola de neve e tomam uma proporção maior. É bom que isso seja discutido, porque isso toma uma dimensão que é inadmissível, é uma coisa que tem que ser conversado, não imposto. Você não pode impor uma censura em um país democrático, onde a liberdade de expressão é algo que deva existir realmente e deva saber medir as coisas. Existe o Ministério Público, a polícia, para analisar se há algo de errado ou não. Se tem algo errado, denuncia, e estes vão apurar.

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