Mobilidade compartilhada

Sobre duas rodas, a vontade de conhecer a cidade. Esse é o programa de todo final de semana do paulista Yuri Ferreira Nogueira, de 18 anos. Morador de Vitória há sete meses, ele anda de bicicleta pra conhecer a capital e se exercitar.
“Moro em Bairro República, e se não fosse a bicicleta, talvez até hoje eu não teria conhecido pontos turísticos, como o Pier de Iemanjá e a Praça dos Namorados”. Já o administrador de sistemas Matheus Pinheiro Bonela, de 22, usa a bike todos os dias para fazer o percurso entre a casa dele, na Praia do Canto, e o trabalho, em Jardim Camburi.

Yuri Ferreira Nogueira

Yuri Ferreira Nogueira, ao lado de uma das estações.

Matheus Pinheiro Bonela

Matheus Pinheiro Bonela usa as bikes para ir ao trabalho todos os dias.

Além do amor pelos pedais, Yuri e Matheus têm em comum o fato de serem usuários do aplicativo Bike Vitória. O serviço, realizado pela Prefeitura de Vitória em parceria com as cooperativas Unimed Vitória e Sicoob, existe há pouco mais de um ano e já faz parte da rotina de muitos capixabas. O Bike Vitória oferece hoje 230 bicicletas para adultos e crianças.

As magrelas verdinhas estão disponíveis em 20 estações estrategicamente espalhadas pela capital. Bonela diz que gosta do serviço pela praticidade, que não poderia ser maior. Todo dia ele pega a bike na estação perto de casa e deixa na estação de Jardim Camburi. O jovem faz parte dos 72% de usuários que usam as bicicletas em dias de semana, de acordo com dados da prefeitura e da Unimed.

E o bolso deles agradece. Se fosse para o trabalho de ônibus, Bonela gastaria cerca de R$ 140 por mês. Com o aplicativo, o aluguel mensal sai a R$ 10,80. Preço acessível é um dos motivos que faz o uso do Bike Vitória ser cada vez maior. De acordo com dados da prefeitura e da Unimed, as bicicletas do aplicativo já rodaram 335.669,4 quilômetros em 124.322 viagens – correspondente a oito voltas de bicicleta pelo mundo. Além disso, o uso das bicicletas fez com que cerca de 107 toneladas de carbono deixassem de ser emitidas no ar, valor que corresponde à poluição anual de 29 carros.

Numa das estações da orla de Camburi, estava o estudante Tiago Carari Secchin, de 18 anos, pegando uma magrela para passear por ruas de Vitória.

Por eu vir de Castelo e ser difícil transportar uma bicicleta, o aplicativo ajuda muito. Seria um gasto muito grande trazer a minha bicicleta, e o preço do Bike Vitória compensa bastante”, diz Secchin.

Ele diz que costuma pedalar pela manhã e ao final da tarde, nas terças e quintas-feiras, e também nos finais de semana. Dados da prefeitura apontam que boa parte dos usuários (21,15%) alugam as bicicletas entre 16h-18h, principalmente às quintas e sextas-feiras, nas estações ao longo da Praia de Camburi.

Tiago Carari Secchin

Tiago Carari Secchin usa as bicicletas compartilhadas para lazer e prática de exercícios na Praia de Camburi.

O Bike Vitória já tem mais de 59 mil pessoas cadastradas, sendo 51,28% homens e 48,25% mulheres. O estudante Estevão de Paula Lopes, 19, assina o plano anual e usa as bikes todo dia para ir à faculdade. “É prático porque eu posso ir a um lugar de ônibus e voltar de bicicleta, então eu sempre tenho um meio de transporte disponível”.

Estevão de Paula Lopes

O estudante Estevão de Paula Lopes afirma que a bicicleta é um meio de transporte muito mais eficaz.

Ao estilo europeu

O cardiologista José Aid Soares, da Unimed Vitória, coordenador da Unimed Coração, conta que médicos da cooperativa e representantes da Prefeitura de Vitória viajaram para a Europa afim de estudar a cultura local que prioriza o uso das bicicletas como meio de transporte. A intenção era avaliar a possibilidade de trazer o modelo para a capital capixaba.

“Constatamos que as pessoas hoje preferem andar de bicicleta e que a incidência de doenças cardiovasculares, derrames, hipertensão, infartos, obesidade na Europa caiu bastante, pela forma que escolheram se locomover. A atividade física é o melhor jeito de promover longevidade”, contou Soares.

José Aid Soares

“A atividade física é o melhor jeito de promover longevidade”, conta o médico José Aid Soares.

O médico enfatiza que é mais interessante promover saúde e trabalhar na prevenção de doenças no que no tratamento – motivo que fez a Unimed decidir patrocinar o serviço. Segundo a última pesquisa da Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), a comunidade europeia tem destinado recursos e implantado programas que visam o aumento do uso da bicicleta enquanto meio de transporte e, principalmente, programas que incluem a bicicleta em serviços de uso compartilhado. Na capital da Holanda, Amsterdã, por exemplo, 55% dos deslocamentos para trabalhar são feitos de bicicleta.

O secretário de Trânsito, Transportes e Infraestrutura de Vitória, Tyago Hoffmann, disse que a ideia de trazer o Bike Vitória pra capital veio a partir da análise do sucesso do serviço em outros estados, como Rio de Janeiro. As estações foram instaladas em pontos estratégicos, pensando na malha cicloviária da cidade, pra garantir a segurança dos ciclistas, e na localização de pontos turísticos, faculdades, grandes empresas e pólos comerciais. Hoffmann contou que a média de deslocamento dos usuários é de três quilômetros.

E lá em terras estrangeiras quem também usa a bicicleta como principal meio de transporte é o publicitário Ramon Luz, que hoje faz intercâmbio na Alemanha. Ele conta que os alemães enxergam o uso intensivo de carros como um problema, por conta da poluição, da obstrução do trânsito, da grande ocupação de espaços – e veem a bicicleta como uma solução mais prática e viável.

A essência da cooperação

O Bike Vitória é a essência da ideia de cooperativismo. A Unimed Vitória e o Sicoob, junto da prefeitura, viram no projeto a oportunidade de mostrar o valor do cooperativismo na sociedade, compartilhando bens, serviços e produtos, fazendo um uso mais consciente”.

A fala é de Nailson Dalla Bernadina, diretor executivo do Sicoob no Espírito Santo. Ele reitera que o serviço de compartilhamento de bicicletas é uma ideia que norteia o modelo de sociedade que se preza hoje e no futuro, trabalhando e priorizando a saúde, a mobilidade urbana, o lazer, e o meio ambiente.

“O plano anual sai a 17 centavos por dia, cerca de cinco reais por mês”, conta Dalla Bernadina. “Para quem usa as bicicletas com regularidade, vale muito a pena, principalmente em um cenário de crise e recessão econômica. Ao trocar o volante pelo guidom, faz-se uma economia de gasolina, estacionamento, manutenção e limpeza do veículo que a bicicleta não necessita”, salienta.

Nailson Dalla Bernadina

O diretor executivo do Sicoob ES, Nailson Dalla Bernadina, reforça que o serviço das bicicletas compartilhadas é a essência da ideia de cooperação.

Expansão

O Bike Vitória cresceu. No mês de outubro, o projeto Bike Kids, que conta com bicicletas com rodinhas para crianças, foi inaugurado e já possui trinta bicicletas distribuídas em três estações – duas na orla da Praia de Camburi e uma na Praça dos Namorados. E vem novidade por aí: segundo a prefeitura, até o fim do ano mais 10 estações serão inauguradas na capital, passando de 20 para 30. Para quem mora em Vila Velha, também tem novidade: a Unimed e o Sicoob já estão cogitando viabilizar o serviço para a cidade canela-verde em breve.

 

Nathália Oliveira
Comunicação Social – Jornalismo