Ser humano é para poucos

Foi realizada ontem, 21, a etapa final do Evento Ecos Mostra 2017, que aconteceu no auditório da Rede Gazeta. Cinco foram as categorias premiadas: Melhor curta-metragem; melhor fotografia; melhor ilustração; melhor crônica e melhor campanha publicitária.

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As finalistas Isabella Arruda e Ingrid Nerys sendo entrevistadas para o TV FAESA.

São muitos os representantes dentre os alunos de Comunicação Social da FAESA, inclusive quatro finalistas dos cinco na categoria de crônicas. Dos quatro, duas alunas foram premiadas nas melhores colocações (1º e 2º lugares). O texto a seguir levou o prêmio de segundo lugar.

A crônica “Ser humano é para poucos”:

Talvez um pouco do que chamam de inferno esteja aqui. Em meio à selva de pedra, aos arranha-céus e aos outdoors, os humanos que ninguém vê. A dor e o caos. A prostituição e as drogas como salvação. Um dia a mais. O riso louco e sem sentido, mascarando dentes mal cuidados, um homem sem abraço. O odor e o medo de ser percebido se mistura com o de passar como invisível.

Você vale o quanto produz. Mas e se não produzir? Vira massa para o cárcere. Eles queriam se esconder em casa, mas a casa é a rua. A casa é o chão frio que o executivo pisa depressa, na ida para uma reunião inadiável. Não dá para deixar para depois a turbulência dos problemas que envolvem negócios.

A vida deles é número, é estatística. Não servem nem como mercado consumidor. Não sei se sequer são massa de manobra, a não ser quando um políticoresolve tentar comprar voto com oferta de comida.

Os restaurantes que eu frequento? Eles nunca pisaram em um. Se pisaram foi para uma entrevista de emprego, em relação a qual não foram contratados. Afinal, nem comprovante de residência tinham, quanto menos ensino fundamental completo.

Uns chamam de “vagabundos”, a maioria vê como criminosos em potencial. Alguns desabrigados foram parar na rua por terem sido abandonados antes, outros nasceram lá mesmo, outros tantos decidiram que dentre as opções que tinham, aquela era a possibilidade menos dura e cruel de aguentar a vida. Difícil de acreditar numa hipótese dessas. O que poderia parecer pior do que estar num desses colchões velhos com trapos por cima, sendo ameaçados até pela ação policial que costuma proteger a sociedade?

“Mas eles nem são cidadãos”. Ou será que são? Diz o dicionário que cidadão é “indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui de direitos civis e políticos por este garantidos e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos.”. Pensando bem, não são cidadãos. Tem até governante que prefere retirá-los de bairros nobres, para não ficar tão evidente a desigualdade. Mascarar para não encarar.

Ser “humano” virou virtude de poucos. Tem quem leve a sopa para alimentar a alma dos moradores de rua. Há quem leve uma oração ou palavra de conforto para trazer a vida por mais alguns dias. Tem gente que sai de casa, esbarra numa pessoa que sobrevive em situação de rua e nem percebe. A correria não permite. Os afazeres tiram os semelhantes do foco.

Tem quem diga que eles estão ali porque querem. Abrigos estão à disposição. A maioria destes sequer permite que um casal durma junto. A maioria deles tem rigor e muitas regras. A criatura que viveu no asfalto não está pronta para todas as imposições. O ser humano sem teto queria carinho, atenção e oportunidade.

A realidade da rua é a solidão. Mas dentro de quem não a percebe mora solidão também. Comunidades de contatos virtuais têm disso. É um deserto. Pouco do outro. Muito de si. Pressa. Produção. Dinheiro. Mas a condição humana é miserável.