A mídia e a exposição da mulher que não envelhece

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A necessidade de mostrar uma mulher “perfeita” aos olhos do Photoshop

O sensacionalismo não é novidade. O machismo? Também não. Convivemos diariamente com preconceitos, mistificações, banalizações e esteriótipos. Assim caminha a humanidade. Mas é preciso falar mais sobre isso, uma vez que se há publicações chamando atenção para o óbvio ou buscando tornar normal o que não é, sejamos honestos: tem público para isso.

“Fulana, aos 50, com corpinho de 20”, que parece uma gafe para os mais atentos, em vez de lembrar uma matéria a ser publicada em jornais ou revistas comprometidos com a sociedade, é exatamente o tipo de reportagem que se vê todos os dias. Qual a razão disso?

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Exemplos de manchetes que expõem a mulher

A mulher é ensinada desde cedo a pensar como uma princesa, andar como uma princesa, sentar como uma princesa, falar como uma princesa… ser uma princesa. Em uma declaração da atriz Taís Araújo, fica claro este pensamento: “Com a Maria Antônia – sua filha – eu me pego pensando o tempo inteiro em como nós mulheres somos criadas para agradar. O quanto nos silenciam e o quanto nos desqualificam o tempo inteiro”.

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Novos exemplos de meninas que fogem às expectativas surgem até na Disney

A respeito deste assunto, surgem muitas dúvidas sobre o que nortearia um jornalista a publicar matérias que objetificam mulheres e a expõem sem qualquer necessidade. Para compreendermos melhor a situação, conversamos com a Mestre em Comunicação e Semiótica Emília Manente, professora do curso de Jornalismo da FAESA.

Com as redes sociais acho que é diferente do meu tempo, que ainda tínhamos a mania de ler revistas, ler jornais. Com as redes sociais você quer ler 140 caracteres ou ver a foto do Facebook ou do Instagram. Você não quer mais saber de profundidade”, revela a professora.

Mas a questão não se restringe apenas a esta superficialidade, chegando a atingir pontos como o vazio existencial. Emília acrescenta: “Estamos tão carentes, tão vazios de perspectiva, de afeto, de vida própria, que nos preocupamos com a vida dos outros”.

E o aspecto ainda mais preocupante beira as consequências ocasionadas na vida das mulheres que se tornam alvos de uma verdadeira paranoia midiática: “Uma Vera Fischer não pode ficar ‘enrugada’, porque é símbolo da beleza, como se a beleza fosse eterna. Não existe isso. É uma loucura na cabeça da mulher. A mulher entra nessa paranoia e acaba ficando doente“, adverte a professora.

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O processo de envelhecimento chega para todos e pode ser melhor aceito

Diante disso, devemos parar para analisar o teor dos discursos que acometem apenas as mulheres. Cabe a reflexão proposta pela docente: “Por que uma mulher que tem 50 e namora com  rapaz de 30 é manchete? Por que um presidente de quase 80 casado com uma mulher de 30 não é manchete? Sexismo puro. É achar que a mulher tem obrigação de ter corpão aos 40, 50, 60… aos 80! É cientificamente impossível!”

Pior ainda é a situação de mulheres da periferia. Segundo Emília, uma “celebridade” não poderia em momento algum ser comparada a uma mulher periférica, que tem filhos e é submetida a uma tripla jornada de trabalho. A professora explica que esta talvez nem durante a juventude apresente um “corpão” e que muitas vezes parecerão mais envelhecidas que alguém da classe média com muito mais idade. “Então é uma questão de classe, de gênero, de raça. Me incomoda sobremaneira porque é desumano fazer esse tipo de comparação”.

Chegando a este ponto da discussão, cabe a reflexão e a mudança de postura. Talvez o boicote ao consumo destes veículos seja medida justa e adequada, já que se apropriam do corpo da mulher para vender o que deve ser o padrão de beleza e também o padrão de felicidade.

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Não é preciso ter corpo de capa de revista para frequentar a praia

Em momento algum devemos nos sentir diminuídas. Ideias como “só gente magra deve ir à praia”, “corpo bonito é corpo sarado”, “restrinja sua vida a uma dieta de 900 kcal diárias”. Talvez estas exigências façam algum sentido para pessoas que vivam de suas imagens, como no caso de modelos. Mas o tempo passa para todo mundo e mais vale uma vida recheada de pequenos prazeres, como a de poder comer uma barra de chocolate depois do almoço, caso dê vontade.

Aberto o debate, a proposta é que possamos cada vez mais nos assumir como somos: mulheres reais. Se estamos cansadas, temos olheiras. Se envelhecemos, temos rugas. Cuidados estéticos existem e podem estar a serviço de melhorias da auto-estima, mas o importante é não permitir que a expectativa alheia se imponha sobre a nossa imagem. Podemos e devemos dizer “comigo não”.

 

 

 

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