Adoção escreve novas histórias, um novo começo

Textos escritos por Daniela Aquino, Kissyla Pinheiro, Leandro Fidelis e Carolaini Felício para a disciplina de Webjornalismo, ministrada pela professora Marilene Mattos.

*Daniela Aquino

O caminho longo e por vezes angustiante não impede o desejo de casais e famílias receberem um novo membro. Saiba como é o processo na Justiça, conheça a rotina de capixabas na fila de espera e uma iniciativa para incentivar a adoção de adolescentes.

Mais do que encontrar um filho, o processo de adoção possibilita uma nova família e um novo lar, ou seja, uma nova história para a criança ou adolescente que, por algum motivo, se encontra na lista de adoção. Dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram que 8,2 mil crianças e adolescentes aguardam para serem adotados no Brasil. Desse total, 2,77% estão no Espírito Santo.

O Sistema de Informação e Gerência da Adoção e do Acolhimento do Estado (Siga/ES) revela que, das 140 crianças que participam do Projeto “Esperando por Você” (para estimular a adoção tardia), prontas para receberem um lar, 85% têm idade superior a oito anos, 49% são grupos de irmãos e 23,5% possuem alguma condição especial.

A psicóloga da 1ª Vara de Infância e Juventude de Vitória Isabella Dias Amim Perini explica que, para cada criança ser inserida na lista de espera, deve ser constatada a impossibilidade da manutenção da criança ou adolescente na família biológica, para que o Ministério Público possa destituí-la do poder familiar.

leandro fidelis
Fonte: CNJ

Fazemos um trabalho de rede para tentarmos reintegrar a criança à família de origem. Só quando entende-se que os recursos estão esgotados é que a criança pode ir para a lista de adoção”, finaliza Isabella.

Antes de se tornar um pretendente cadastrado, é preciso se habilitar. Para obter o certificado de habilitação definido pelo Art. 197 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o interessado deve procurar a Vara da Infância e Juventude do município de residência munido de documentos pessoais.

Em resumo, o candidato é submetido a uma avaliação psicossocial, um curso obrigatório para depois receber o parecer final da autoridade judiciária. Se o pedido for aceito, o seu nome é incluído nos cadastros e terá a validade de dois anos, com possibilidade de renovação.

Na lista de espera, o sistema CNA, lançado em 2008, filtra os possíveis candidatos de acordo com as características da criança ou adolescente estabelecidas, anteriormente, pelo pretendente. “O próprio sistema pode filtrar para informar qual a família possível com base no perfil, por ordem de classificação e data da sentença. Depois entramos em contato”, completa a psicóloga.

leandro fidelis 2.jpeg
Isabella Amim: a adoção é para atender o direito da criança, e não o desejo de ser mãe / Foto: Daniela Aquino

Sob uma mistura de emoções, o pretendente passa por um período chamado estágio de convivência, um momento para verificar a adaptação da criança ou adolescente à sua nova família. “Geralmente é realizado um acompanhamento até que algumas dificuldades de adaptação sejam superadas, porém, depende de cada caso”, conclui a assistente social Silésia Maria Soares.

Por fim, se a juíza perceber comportamentos, atitudes suspeitas ou dificuldade da família em se adaptar, o processo é cancelado. “Existe uma transparência, conversamos com os pais sobre a criança antes mesmo de se conhecerem. Durante o período de convivência se forem verificadas dificuldades de adaptação, ou frustração da família por não dar conta, o processo é interrompido”, ponde Isabella.

Perfil

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelam que, dentre a maioria das crianças que aguardam, com esperança, para serem adotadas, mais de 55% são meninos e 44,69%, meninas. Quando classificados por raça, cerca de 48% são pardos, 34% brancos, 17% negros e 0,18% amarelos.

leandro fidelis 3
Raça das crianças aptas à adoção no Brasil (*Fonte: CNJ)

A maior concentração de crianças e adolescentes aptos para serem adotados está localizada na Região Sudeste, num total de 3.513, sendo 2,77% no Espírito Santo, 11,26% em Minas Gerais, 7,93% no Rio de Janeiro e, com a maior centralização, 20,77% em São Paulo.

No ano passado, o CNA registrou 1.226 casos de adoções no Brasil, porém apenas 13 tinham entre 15 e 17 anos. Apesar da pequena parcela, é possível observar mudanças no cenário quando o assunto é adoção tardia.

Mudança na Lei

O projeto de Lei 5.850/16, aprovado pela Câmara dos Deputados no último dia 4 de setembro, muda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O objetivo é agilizar procedimentos relacionados à destituição de poder familiar e a adoção de crianças e adolescentes.

A proposta feita pelo deputado Augusto Coutinho (SD-PE) assegura os mesmos direitos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para os pais adotivos iguais aos dos pais biológicos, como licença-maternidade, regulamentação dos programas de apadrinhamento e estabilidade provisória após a adoção do direito de amamentação.

Amor que rompe a intolerância

Casais homossexuais resistem ao preconceito
em busca da realização de um sonho: a adoção.

*Kissyla Pinheiro

leandro fidelis 4.jpeg
Túlio Miguel e Mislayne se preparam para realizar o sonho da adoção / Foto: Kissyla Pinheiro

Quando o assunto é a adoção infantil realizada por homossexuais, o novo modelo de família passa por questionamentos diversos e não é totalmente aceito. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística (Ibope) aponta que 55% da população brasileira ainda é contra o direito à adoção homoafetiva. A ideia de que a criança necessita de referências masculinas e femininas e que a opção sexual dos pais pode influenciar o desenvolvimento social da criança são fatores que disseminam este preconceito.

Para a psicóloga Eliana Vasconcelos, muitos casais se sentem impotentes diante desse dilema e uma das dificuldades encontradas para lidar com a discriminação é tentar explicar para a criança o porquê dessa intolerância. “É necessário que a criança entenda seu histórico familiar, pois, quando passa a entender os motivos pelos quais vem sofrendo preconceito, os pais sofrem também”, afirma.

Confiança é fundamental na relação familiar. De acordo com a psicóloga, é preciso todo um preparo para lidar com os problemas de modo que não sejam transmitidos para a criança, por isso a importância do diálogo e da aproximação entre pais e filhos para evitar que o ambiente familiar seja afetado.

Para os casais que pretendem adotar uma criança, a especialista enfatiza que adotar não é um ato simples e que o casal precisa ter a certeza da decisão que está tomando, além de atender aos requisitos estabelecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pois a criança precisa crescer de forma segura.

A estudante de nutrição Mislayne Gomes, 23, junto ao parceiro, o transexual Túlio Miguel, 24, de Vila Velha, tem o desejo de adotar uma criança. Sem se importar com a idade, o casal sonha junto com esse momento. Mesmo sabendo do longo caminho que irá percorrer, eles não abrem mão do desejo de adotar e assumem a responsabilidade de junto enfrentar o preconceito para formar uma nova família.

Sempre tive a vontade de ser mãe. Sei que pela minha orientação sexual será difícil, mas não impossível, tenho ao meu lado um parceiro que desejo o mesmo que eu. Estamos nos preparando, pois queremos oferecer o melhor para o nosso filho”, diz a estudante.

Juntos há quatro anos, o casal conta que não tem preferência em relação ao sexo da criança, mas que sonha em adotar uma criança negra. A decisão da adoção intensificou ainda mais a relação dos dois.

Queremos uma criança negra com os cabelos crespos. Não vamos seguir os padrões exigidos pela sociedade. O que importa para nós é passar por cima de qualquer preconceito”, relata Túlio.

Com o apoio da família, Mislayne conta que a mãe está preparada para receber de braços abertos o futuro neto(a). Para a estudante, o auxílio da família nesses momentos delicados é essencial. “Tanto a minha família quanto a dele têm consciência do quanto será importante para nós. E isso é um motivo a mais para não desistirmos”, diz.

Amor

“O preconceito distorce e cega as pessoas sobre o verdadeiro sentido de adotar”, afirma o estudante José Agnano Rodrigues Santiago, amigo de Mislayne e Túlio. Ele é homessexual e também tem o desejo de adotar uma criança, porém está insatisfeito com o preconceito e já pensou em desistir. “A decisão que elas tomaram foi um incentivo na minha vida. A sociedade ainda é muito preconceituosa. É preciso quebrar os paradigmas e ir atrás dos sonhos”, desabafa.

Para o futuro filho do casal, o que não irá faltar será amor e alegria. “Adotar é mais do que escolher uma criança. É se envolver, oferecer amor e carinho. Iremos amar o nosso filho intensamente e fazer de tudo para protegê-lo de qualquer tipo de discriminação”, conclui Mislayne.

*Conheça também a história do Daniel, destaque no Teleton 2017!

Candidatos abrem mão de perfil idealizado

Curso ministrado pela Justiça estimula quem está na fila de adoção a ampliar as características dos filhos pretendidos no cadastro da Justiça

*Leandro Fidelis

Há um ano no cadastro de pretendentes, Vanda (*nome fictício) quer um filho capixaba de até três anos, independente do sexo. Já a amiga Karina (*outro nome fictício) ampliou o perfil para aumentar as chances de ser mãe. A criança pode ter até cinco anos, ser mineira ou baiana.

“Muitas pessoas alteram o perfil da criança, ampliam a faixa etária e os Estados após passarem pelo curso ministrado por assistentes sociais e psicólogos nas comarcas. Ele é muito esclarecedor e ajuda a romper mitos”, diz Lorena Costa, assistente social da Central de Apoio Multidisciplinar do Fórum de Venda Nova do Imigrante, na região serrana do Espírito Santo.

Os candidatos a pais adotivos preenchem uma ficha básica onde informam o perfil da criança ou adolescente desejado com base na faixa etária, no sexo, no Estado de origem, raça ou saúde do menor.

Vanda é administradora, tem 33 anos, e casada há oito. Não fez questão da raça do filho adotivo. Nos próximos dias, ficou de ir ao Fórum de Venda Nova ampliar o estado de origem da criança pretendida. Pelo menos para a vizinha Bahia.

Desde nova eu já tinha essa ideia de adotar uma criança, isso sempre foi crescendo comigo. Tive sorte que encontrei um companheiro que compartilhou do mesmo sonho que eu. Mas ainda não desisti de ter um filho biológico”, afirma Vanda.

Karina tem 42 anos, é contadora, e casada há 12. Nos últimos oito anos, foram várias tentativas de engravidar- incluindo a inseminação artificial, mas sem sucesso. Entrou na fila de pretendentes da adoção há pouco mais de um ano. “Só não queria com problema de saúde, mas já penso em alterar o perfil para uma criança mais velha que três anos. Tanto faz a etnia”, diz Karina.

leandro fidelis 5.jpeg
Vanda (*nome fictício) lamenta a longa espera para ter um filho adotivo. (*Foto: Leandro Fidelis)

Fila

Vanda já reservou um quarto da confortável casa onde vive, na zona rural do município, para receber um filho. Ela lamenta a pouca “oferta” na comarca onde reside. “Sempre sei de crianças para adoção com frequência nos municípios vizinhos, mas nunca aqui.”

A assistente social Lorena Costa explica que, conforme a legislação vigente, só é permitido aos candidatos se cadastrarem no município onde residem. Casais ou famílias só terão chance de adotar, por meio da “fila municipal”, se o perfil dos menores for condizente com as informações preenchidas no cadastro. “Não havendo disponibilidade no município, os candidatos entram automaticamente na fila estadual.”

No entanto, grande parte das crianças acolhidas em instituições ou unidades de acolhimento não está apta para adoção. De acordo com Lorena, na maioria dos casos ocorre tentativa de mudanças positivas na família dos menores em situação de risco para reaver a guarda deles. Só quando esgotadas todas as possibilidades, inicia-se o estágio de aproximação, convivência e a Justiça delibera sobre a guarda provisória.

Antes do Estatuto da Criança e do Adolescente, a visão era conseguir uma criança para uma família. Após sua criação, essa lógica se inverteu: uma família para uma criança”, diz Lorena.

E a espera dos candidatos no Espírito Santo é uma conta que não fecha. Até o último dia 5 de outubro, havia na Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) 121 crianças e adolescentes prontos para adoção no Estado, contra 913 pretendentes com habilitação válida em todo o território capixaba. Os dados são do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJ-ES).

 

Amor sem idade: a importância da adoção tardia

No Brasil, centenas de crianças esperam por um lar, mas elas não se enquadram nos perfis “ideais” taxados pela sociedade

*Carolaini Felício

Um lar, amor, carinho e uma família. É o desejo de centenas de crianças que aguardam ansiosamente na fila de adoção em todo o país. No Espírito Santo, das 140 crianças acolhidas para adoção, 86% têm mais de oito anos de idade, sendo que 49% destas fazem parte dos grupos de irmãos e 23% possuem alguma necessidade especial.

E com a intenção de desmistificar as ideias ligadas à adoção tardia, a Comissão Estadual Judiciária da Adoção do Espírito Santo (Ceja/TJES) realiza a campanha “Esperando por você”. Vídeos mostrando o dia a dia das crianças/adolescentes aptos para a adoção viralizaram ao ponto de a campanha virar tema do programa “Profissão Repórter” (TV Globo).

Segundo o psicólogo Helerson Elias Silva, da Ceja/ES, ainda hoje a sociedade acredita que, adotar uma criança mais velha ou um adolescente pode trazer problemas.

“Ainda persiste na sociedade algumas ideias de que a adoção destas crianças/adolescentes seria difícil, que elas não se adaptariam ou que elas trariam muitos males com elas. Nos vídeos procuramos mostrar que se tratam de crianças/adolescentes como quaisquer outros, com sonhos, desejos, conquistas como tantos outros e estão esperando por uma família para lhes dar amor e cuidado”, relata Helerson.

Após o sucesso da campanha das 19 crianças ou grupo de irmãos que participaram dos vídeos, seis já estão convivendo ou em processo de aproximação com a família.

Lar de amor

A jovem Vitória (*nome fictício), 17, fundou a Casa Lar onde mora com os irmãos e outras crianças. Chegou com apenas três anos e não quis ir embora. Vitória quase foi adotada quatro vezes, sendo a quarta vez por um casal da Itália. Porém, não quis ir, decidiu ficar com os irmãos e as assistentes sociais.

O caso de Vitória é considerado raro, já que a maioria dos jovens acolhidos esperam por uma família. Mas a jovem considera a Casa Lar “Instituto Vida”, em Jacaraípe (Serra) sua verdadeira família.

leandro fidelis 6.jpeg
Sala da equipe técnica com atendimento psicológico. (*Foto: Divulgação)

Eu fui a primeira a chegar ao abrigo. Eu e meus dois irmãos fundamos a casa. Quando cheguei, senti que essa era minha família e, por isso, não quis sair. Também me separaram de minha irmã, então eu quis voltar pra Casa Lar”, disse Vitória.

Além disso, conta que teve muitos problemas de comportamento e, talvez por isso, não tenha conseguido ser adotada. Já que os padrinhos afetivos — com quem ela queria ficar — desistiram.

A jovem está prestes a completar 18 anos e por isso deverá seguir o próprio caminho ao sair do abrigo, mas já conta com o apoio do Instituto Vida para se profissionalizar com cursos oferecidos, além de pessoas que oferecem moradia.

O acaso

A cabeleireira transexual Larissa Lorran, 46, hoje mãe de Bruna, 08, e Hendryck, 06, de Vitória, nunca sonhou em ter filhos. Há três anos, uma prima da cabeleireira sem condições de criar os filhos decidiu entregá-los para a adoção. Foi quando Larissa resolveu apadrinhar as crianças até conseguir a guarda delas.

“De início não passava pela minha cabeça ser mãe, mas considero que tudo aconteceu no momento certo. Foi Deus. Eu não poderia deixar aquelas crianças desamparadas e quando consegui a guarda foi um dos dias mais felizes da minha vida. Só tenho a agradecer a Deus e a minha prima por terem me dado eles,” diz Larissa.

leandro fidelis 7.jpeg
Larissa entre Hendryck e Bruna: primos que se tornaram filhos. (*Foto: Carolaini Felício)

Perguntada sobre a idade das crianças, a cabeleireira diz que isso jamais seria empecilho, pois o que importa é estar de coração aberto para o amor. Além disso, diz que a sociedade precisa entender que dificuldades são normais, independentemente da idade da criança.

É preciso deixar o preconceito de lado e estar pronto pra amar. Não importa a idade”, afirma a cabeleireira.

Larissa hoje vive para seus filhos, para onde vai lá estão Bruna e Hendryck. As crianças sabem da sua origem, além de entenderem a orientação sexual da mãe e como ela se sente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: