Acossado – Clássico do cinema francês em exibição no Cine Jardins

Considerado por muitos como o marco inicial da Nouvelle Vague, movimento de vanguarda do cinema francês, o filme Acossado (À Bout de Souffle, França, 1960), dirigido por Jean-Luc Godard, estreia hoje, dia 12/04, no Cine Jardins, às 19h20. A exibição do longa faz parte do circuito “Clássicos no Jardins”,  projeto que busca trazer grandes clássicos do cinema mundial e contará também com a exibição de filmes como A Bela da Tarde, de Luís Buñuel e Blow-Up, de Michelangelo Antonioni. O filme ficará em cartaz até o dia 18/04, sempre no mesmo horário.

O Projeto Clássico no Jardins exibirá vários clássicos do cinema mundial
O Projeto “Clássicos no Jardins” exibirá vários clássicos do cinema mundial

Acossado é o filme de estreia de Godard, um dos mais inovadores e influentes diretores da Nouvelle Vague. Essa obra icônica e emblemática redefiniu a forma de fazer cinema ao romper totalmente com os dogmas incontestáveis do cinema francês e com a linguagem convencional e vigente da época. Ainda hoje, quase 60 anos após sua estreia, o filme ainda causa um certo estranhamento e incômodo a quem o assiste tamanha a ousadia e genialidade do diretor.

No filme, Jean-Paul Belmondo, dá a vida a Michel Poiccard, um criminoso, de orientação anarquista, que não segue regras e se inspira na figura de Humprey Bogart. Após roubar um carro, Michel reencontra a amiga Patricia Franchini, interpretada por Jean Senberg, que após o filme tornou-se uma das musas do cinema francês. Patricia, uma estudante norte-americana, decide abrigar o amigo em sua casa sem ter muito consciência do que está acontecendo. O desenvolvimento do filme não se dá por sua trama ou roteiro, que não é bem definida, e sim pela inovação da linguagem proposta  por Godard.

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Jean Paul Belmondo e Jean Senberg em uma das cenas mais icônicas do longa-metragem

Godard conduziu o filme sem um roteiro concluído, técnica que definiu a sua forma de fazer cinema. O diretor escrevia as cenas pela manhã, enquanto tomava café, e as entregava aos atores em seguida, para que fossem filmadas de forma espontânea e natural. O improviso do roteiro permitiu uma aproximação entre o filme e o espectador, rompendo a quarta parede e quebrando a diegese do cinema, recursos muito usados pelo teatro e até então inexplorados pela sétima arte.

A montagem de Acossado é que provavelmente há de mais subversivo no filme. Pela primeira vez no cinema a técnica de “jump cuts”, descoberta pelo próprio Godard, foi utilizada. Na edição final do longa-metragem para o cinema, o diretor percebeu que muitas cenas de seu filme estavam longas, causando uma certa lentidão no filme. Visando criar uma montagem mais dinâmica e esteticamente mais atrativa, Godard decidiu cortar alguns frames, já que estes não alterariam a compreensão final do filme, o que resultou numa transição brusca entre os planos do filme, onde um frame salta para o outro de forma dura e sem nenhum tipo de suavização ou efeito de transição.

A utilização dos jump-cuts ia contra tudo que havia sido pré-estabelecido pela indústria hollywoodiana e pelo cinema clássico francês ao romper a continuidade e fragmentar a trama. Hoje, no entanto, o recurso é muito explorado por youtubers e na área publicitária, exatamente pela sua dinâmica e rapidez.

Acossado reflete a transformação ocorrida na passagem das décadas de 1950 e 1960, a revolução cultural e sexual, os movimentos políticos e estudantis, o americanismo e o consumismo, o inconformismo e o romantismo da revolução. A Nouvelle Vague está também totalmente inserida no contexto desta mudança social e, de uma certa forma, as inovações propostas pelo movimento são um reflexo dos acontecimentos da época. 

A Nouvelle Vague

No final dos anos 50, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette e Claude Chabrol, um grupo de jovens franceses apaixonados por cinema decidiram criar um movimento cinematográfico que revolucionaria para sempre a sétima arte. A Nouvelle Vague, ou nova onda em português, nasceu da necessidade de reinventar o cinema industrial, como uma reação às superproduções hollywoodianos, encomendadas pelos grandes estúdios e que visavam o lucro acima da arte.

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Jean-Luc Godard

Antes de serem cineastas, estes jovens, que foram chamados pelo jornalista da época de “jovens turcos”, eram críticos e cinéfilos. Ainda nos anos 1950, associaram-se a prestigiada revista Cahiers du Cinema, onde começaram a escrever e apresentar críticas ao cinema moderno e dar os primeiros sinais da revolução que estaria por vir. Movidos pela paixão pelo cinema, os jovens turcos inovaram ao criar um cinema de vanguarda e autoral. Eles não queriam ser apenas meros realizadores de seus longas, como eram os diretores de filmes norte-americanos, e sim criar uma linguagem própria, com características únicas e pessoais.

O legado de Godard e de seus parceiros influenciou diretores norte-americanos como Francis Ford Coppola e Brian de Palma e permanece vivo até os dias de hoje em todas a forma de fazer cinema. No Brasil, inspirou diretores como Rogério Sganzerla, principal represente do Cinema Marginal.

Aos 87 anos, Godard é um dos diretores há mais tempo em atividade e continua produzindo. Seu último longa, Adeus à Linguagem, de 2014, mostrou o porquê do francês ser considerado um dos mais inovadores de todos os tempos.

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