Romaria dos Militares: fardas na Festa da Penha

Romaria dos Militares impressiona pela devoção e quebra paradigmas

No dia 06 de abril, à partir das 14 horas, militares das diversas frentes das Forças Armadas saíram da Prainha em direção ao Convento da Penha. Com eles, clérigos e civis também acompanharam o trajeto em visível emoção. Sob a temática “Virgem da Penha, Minha Alegria”, a terceira maior festa mariana do país levou multidões em procissões na Grande Vitória.

Imagem de Nossa Senhora da Penha carregada em romaria dos militares

Militares seguem pela fé/ Foto: Yuri Santos Neves

Em um contexto marcado por atribulações, violência e até baixos salários para parte do segmento, a Romaria própria da categoria militar parece lançar um contraponto de esperança. “A Festa da Penha poderá ser ocasião da gente serenar um pouco. Acho que ano passado isso ficou muito evidente com a greve. Os militares vêm para serenarem, para buscar a divindade e a proteção necessária, porque eles devem sofrer muito mais do que nós”, comenta, em entrevista coletiva, o frei e guardião do Convento, Paulo Pereira, 50.

Em relação à origem da romaria própria à categoria militar, para o frei, como os militares já participam da organização da grande festa religiosa católica, aproveitaram até da proximidade física dos batalhões com o Convento para fomentar a participação específica do segmento.

Na visão do ex-clérigo e professor de Sociologia da Faesa Vitor Nunes Rosa, 53, a participação de bombeiros, policiais e membros do Exército, Aeronáutica e Marinha, é algo muito positivo para a festividade. “Os católicos que atuam nas instituições militares estão buscando expressar a sua fé de maneira pública. Então, quando a Igreja promove uma Romaria dos militares, na verdade ela está promovendo um evento para os fiéis católicos que são militares, não havendo qualquer contradição entre a igreja tentar atrair novos adeptos e ao mesmo tempo aproximar-se de uma categoria que atua numa das instituições do Estado. Eu vejo tudo isso como algo muito positivo“.

Contraste entre equipamento de membro do clero (incenseira e manto) e de militar (coturno e farda).

Contraste marcante entre a fé e as fardas/ Foto: Yuri Santos Neves

O olhar de quem conferiu de perto

Por mais que pareça distante o ato de caminhar em oração e a ideia de trabalhar na defesa pela via das armas, os dois podem estar associados e inclusive incentivar melhores resultados. “Estamos aqui pela paz. O ato militar é para manter a paz, nunca a guerra. É com esse pensamento que nós vemos esta identificação com a atividade de Romaria que estamos realizando. É a crença e principalmente a manutenção da fé que nos faz acordar a cada dia com a esperança de um mundo melhor“, explicita o Coronel Oliveira Costa, 47, comandante do 38º Batalhão da Infantaria.

Além dos militares, suas famílias e devotos oriundos dos mais variados setores sociais estiverem presentes na Romaria, que antecedeu as apresentações artísticas que contaram com nomes de grande expressão local, como Gerson Lano, Banda Rajar, Banda Via Aérea e Casaca.

multidão no Campinho do Convento da Penha

Multidão se faz presente/ Foto: Yuri Santos Neves

Na visão dos civis presentes, a participação nas romarias significou principalmente gratidão a Deus e à Nossa Senhora da Penha. “Minha filha é militar e eu sou voluntária, então cheguei mais cedo. É sempre uma emoção e alegria poder aqui servir, seguindo o exemplo de Nossa Senhora. A participação dos militares é providência de Deus, precisamos estar em constante oração por eles”, confidenciou a aposentada Nelmar de Lourdes Lopes Covre.

Militares em Romaria e cruz católica ao fundo

O que parece contradição é, na verdade, reforço da fé/ Foto: Yuri Santos Neves

Para o ferroviário Igor França Ribeiro, 36, que participa da festa há anos, ter vindo especificamente para a Romaria dos Militares decorreu da sua disponibilidade, já que trabalha por escala e isso não permite a presença em todas as romarias. Ainda assim, ressalta que “os militares também estão muito expostos, principalmente diante de tudo que tem acontecido. Eles precisam de proteção. Então é bom participar junto e eles são muito bem vindos”.

A origem da relação da Igreja com as Forças Armadas no Brasil tem raízes profundas

Os portugueses, que colonizaram o Brasil, buscavam em suas peripécias no oceano o descobrimento de novos territórios. Desde então, diziam agir guiados pela “Santa Fé”, com interesses missionários. Assim, todo o período em que o governo português se fez presente no território do país descoberto na América do Sul sofreu forte influência do Catolicismo.

No momento da independência de Portugal, o Brasil ainda se encontrava pertencente ao legado da Igreja Católica e assim permaneceu até a proclamação da República. Isso fica evidente na primeira Constituição do país ainda imperial, que demonstrava que a política estava enraizada na religião: o catolicismo era então religião oficial e Deus deveria ser compreendido segundo a fé católica. Apesar disso, quem regulava a admissão de eclesiásticos era o Estado.

Com o passar do tempo, a Igreja católica no Brasil acabou se distanciando, neste período, do catolicismo de Roma, tamanha a ligação da instituição com o poder político. Foi então estabelecida no Brasil uma liberdade religiosa pela metade, em que apesar de serem admitidas outras profissões de fé, a religião católica continuou sendo a religião adotada pelo Império. Aliado a isso, outros cultos religiosos só poderiam ser manifestados de forma doméstica.

Abalos de luta por poder entre a esfera política e a Igreja acabaram por ferir a união entre os dois e a culminar com a laicidade do Estado. Apesar disso, até os dias atuais a religião católica representa a escolha da maioria da população, sendo que mais de 60% do povo brasileiro se diz católico, o que corresponde à maior nação católica do mundo.

Forças Armadas em procissão junto à imagem de Nossa Senhora da Penha

Homens fardados também têm fé/ Foto: Yuri Santos Neves

Nesse sentido, observa-se que, apesar de laico, o Estado brasileiro, por motivos históricos, é predominantemente preenchido pelo catolicismo. E, diante de uma aproximação tão grande à política ao longo dos anos, não seria possível esperar uma completa segregação entre as instituições. Em relação aos militares e às Forças Armadas, braço direito do Estado, não poderiam estar de fora nesta conclusão: há ligação, ainda que implícita, entre eles e a Igreja. E há também espaço para que os militares sigam em Romaria pela manifestação de sua fé.