Por dentro de uma ocupação

Texto desenvolvido por João Vitor Gomes para o Jornal Tendências Nº 108, de Junho/Julho de 2017. Imagem de capa – Zanete Dadalto

Cento e cinquenta famílias vivem há dois meses no Edifício Getúlio Vargas, antiga sede do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória. A comunidade é formada por crianças, adultos e idosos sem-teto que reivindicam um espaço para chamar de lar. O prédio está abandonado há 10 anos e foi batizado pelos novos habitantes com o nome de Maria Clara, uma homenagem à Maria Clara da Silva, 82 anos, líder histórica do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia no Espírito Santo.

Os moradores do prédio vieram de uma outra ocupação realizada no terreno conhecido como Fazendinha, no bairro Grande Vitória, em Vitória. Membros do Movimento de Luta por Moradia intitulado “Ocupação Chico Prego” buscam reconhecimento das autoridades sobre as condições em que se encontram. Sem emprego, despejados do aluguel e com filhos para criar, famílias inteiras recorreram à ocupação como uma alternativa para não morar nas ruas. No local, as famílias enfrentam todos os dias condições precárias de habitação.

Desde a última semana de junho, o cenário se agravou. Em meio a uma disputa judicial travada contra a União Federal para manter a ocupação, os representantes e organizadores do movimento foram notificados de que a reintegração de posse do prédio foi marcada para o final de julho. Tiago de Almeida, 30 anos, estudante de direito e um dos coordenadores no Estado do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), diz que o clima, entre os habitantes, é de medo e apreensão. “As famílias estão ansiosas e com muito medo por não saberem o que irá acontecer”, relata Tiago.

Tiago conta, também, que há uma preocupação constante com a reintegração de posse por não saberem o destino dos moradores. “Todos estão sem um lugar para ficar. Nós sabíamos que teria a reintegração, mas não esperávamos que fosse logo. Não temos para onde ir. Temos a esperança de que algo de bom aconteça nas próximas semanas”.

Histórias

Mileide Caldeira, 26 anos, natural do bairro Resistência, em Vitória, é uma das moradoras da ocupação. Mãe de três crianças, a jovem revela ser ex-usuária de crack e conta que passou a morar no prédio em busca de mudança. “Abandonei meus dois filhos. Fui presa, espancada e me entreguei ao vício. Passei por várias situações que me levaram a praticamente desistir da minha vida”, relata. Após a última gravidez, a ex-dependente química se viu instigada a formar uma família e reaver a relação com os outros dois filhos, criados, até então, pela avó.

Eu decidi cuidar do meu bebê que ia nascer. Quero ver ele crescer e amamentar pela primeira vez. Meus outros filhos não me chamavam de mãe. Hoje, já estão começando a chamar”, comemora, com orgulho, Mileide, que está longe do vício há 11 meses.

Para outros, o desemprego é o principal desafio. Esse é o caso de Maria Margarete Rodrigues e o marido Antônio Carlos de Jesus. O casal conta que tiveram que abandonar a casa alugada onde moravam devido à falta de emprego. “Não tenho condições de pagar aluguel. Como não tenho moradia para ficar, decidi me juntar à ocupação”, diz Margarete. Para o casal, a esperança é conseguir proporcionar um teto para a filha pequena. “Eu quero conseguir o nosso lar. Assim, podemos viver em paz”, desabafa Margarete.

Uma noite na Ocupação

Acompanhei durante uma noite o trabalho religioso desenvolvido por um senhor chamado Juvenal. Ele é pastor e habitante do Edifício Getúlio Vargas, antiga sede do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários (IAPI), no Centro de Vitória. Ele e cerca de 150 famílias integrantes do movimento de reivindicação por moradia “Ocupação Chico Prego” se instalaram há dois meses no prédio após serem retirados de outros espaços que ocupavam.

O casal me conta que possui renda. O pastor faz bicos de pedreiro e a esposa tricota tapetes para vender. Eles seguem juntos com os integrantes do movimento desde o primeiro local ocupado, o terreno particular conhecido como Fazendinha, no bairro Grande Vitória, em Vitória, para praticar a atividade religiosa. No dia em que estive no prédio no Centro de Vitória, o pastor havia marcado um culto no espaço em que mora, uma das salas do terceiro andar do edifício. Para chamar os moradores para a celebração, Juvenal vai de andar em andar batendo na porta dos ocupantes e convidando-os a ir até a casa dele.

Segui o pastor na atividade durante todo o percurso. No caminho, encontrei várias famílias em situações diferenciadas. Alguns cômodos habitados, geralmente, por um casal e cerca de três crianças. Havia poucas mobílias. Ao conversar com os moradores, percebi que o principal problema que enfrentam é a dificuldade de conseguir emprego. A história se repete em várias famílias: o homem foi dispensado do serviço e por morarem de aluguel e não terem condições de manter as parcelas em dia foram despejados e tiveram que buscar algum outro lugar para morar.

O corredor do prédio, que sofre com vazamentos de esgoto, passa por limpeza a todo momento. O cheiro forte de dejetos se confunde com os produtos de limpeza utilizados pelos moradores para manter o espaço em ordem. Em alguns andares encontro indicativos de atividades econômicas: no sétimo andar observo um escrito na porta que diz: “Fábio eletricista”. Já no sexto andar, vejo uma barbearia em funcionamento no corredor com espelho e tabela de preços.

Após passar por quatro andares, Juvenal e eu voltamos ao terceiro andar. O pastor então vai para dentro da casa e começa a preparar o espaço para o culto religioso: retira a fruteira e a panela de macarrão de uma mesa e põe em cima dela a bíblia que utiliza nas celebrações. Em seguida, busca uma caixa de som, um microfone e um DVD rosa. Começa a ligar os equipamentos. Toca um disco de música gospel. Alguns moradores começam a chegar e a celebração tem início.

Permaneço no culto até o final e ouço as orações feitas pelos moradores. As falas, além de exaltar a devoção por Deus e Jesus Cristo, são carregadas de pedidos de ajuda e de afirmações de que conseguirão sair da situação difícil em que se encontram. Os fiéis se revezam no comando da celebração. Alguns fazem pregações, um sermão religioso com leitura de versículos da bíblia Cristã, e outros entoam cânticos religiosos.

No final da cerimônia, um indício de incêndio dispersa os fiéis da celebração, que descem as escadas correndo em direção à rua. Após serem informados por outros moradores que a fumaça era proveniente de uma queima proposital de fios, eles retornam ao prédio e seguem para as respectivas casas.

Vejo, ao final da visita, que os moradores do prédio, mesmo passando por situações complicadas e vivendo em um ambiente não propício para habitação, conseguiram transformar o espaço em uma grande comunidade. O prédio, antes abandonado e em condições precárias, é mantido limpo e organizado pelos habitantes. A convivência entre os moradores é extremamente harmoniosa e há respeito. Percebo que para o espaço se tornar um edifício residencial de fato não é preciso muito: basta uma boa reforma e condições melhores de habitação para os moradores dentro das residências.

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