Blow-Up – A artificialidade de uma geração turbulenta

Esta semana, o projeto Clássicos no Jardins exibe Blow-Up, (1966, Reino Unido/Itália) do diretor italiano Michelangelo Antonioni. O filme estreia hoje, dia 10/05, e assim como os outros exibidos no projeto a obra fica em cartaz até a próxima semana sendo exibido sempre no mesmo horário, às 16h50. Saiba mais no Facebook do cinema.

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Pôster do filme

Em dezembro de 1966, quando Blow-Up estreou nos cinemas, Michelangelo Antonioni já era um diretor de prestígio e renome. Após ter realizado filmes como “A Aventura” e “Deserto Vermelho“, que retratavam as diversas camadas da sociedade italiana, Antonioni decidiu que precisava expandir a sua obra para outros países. Buscando renovar a sua própria estética, o diretor saiu da Itália e iniciou uma série de filmes de língua inglesa e rodados em diferentes partes do mundo: Blow-Up, na Inglaterra, Zabriskie Point, nos EUA e Profissão Repórter, na África e em várias cidades europeias.

Blow-Up, o primeiro deste segmento, é o mais impactante e emblemático da trilogia, sendo talvez a maior obra-prima de Antonioni. A trama é ambientada durante o auge da louca euforia do Swinging London – termo usado para definir a eferverscência cultural e comportamental que a capital inglesa vivia na década de 1960.

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A moda da década de 1960, representada em Blow-Up

A invenção da mini-saia, a descoberta da pílula anticoncepcional, a beatlemania, a popularização do ácido lisérgico, a revolução sexual, tudo isso estava acontecendo naquele momento. Na Carnaby Street, principal ponto de encontro dos jovens de classe-média da época, as moças, esquálidas e de visual andrógino, desfilavam com seus vestidinhos estampados e suas meias coloridas e, os rapazes, elegantes e refinados, com seus ternos italianos e impecáveis sapatos de couro.

Enquanto os jovens franceses e italianos organizavam-se em movimentos estudantis inspirados em ideais marxistas e os americanos prostetavam contra a Guerra do Vietnã e contestavam o american way of life, os britânicos não aparentavam ter algum tipo de preocupação social ou política. Suas motivações eram num geral fúteis e vazias: a roupa da moda, a droga do momento, o novo filme do James Bond, entre outros delírios de consumo.

Antonioni enxergou no Swinging London a artificialidade da juventude sessentista e o nascimento de uma nova burguesia, que mesmo abandonando o conservadorismo e o moralismo da geração anterior, ainda eram produtos e faziam parte da sociedade capitalista pós-industrial.

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A superficialidade dos jovens londrinos durante os anos 60 serviu de inspiração para Antonioni criar Blow-Up

E é exatamente nesse contexto que Antonioni insere a sua obra. Thomas, vivido pelo ator inglês David Hemmings, é um fotógrafo de moda e também um grande observador do mundo que o cerca. Por meio de sua câmera, Thomas acompanha as diferentes facetas da vida londrina, fotografa lugares da cidade, situações inusitadas e casais anônimos no parque.

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A trama do filme inicia-se no momento em que Thomas revela as fotos não-autorizadas de um casal. No estúdio, ao ampliar as imagens, o fotógrafo enxerga escondido nos arbustos do parque um suposto atirador. Quem seria esse homem? Thomas inicia então uma busca incessante para descobrir quem é a pessoa escondida em suas fotos. Paralelo a isso, Jane, a mulher fotografada por Thomas, passa a persegui-lo. Vivida pela atriz Vanessa Redgrave, Jane está furiosa e procura o fotógrafo para conseguir o negativo do filme.

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No Brasil, o título foi traduzido para “Depois daquele beijo“, descaracterizando em várias aspectos a obra. Em inglês, Blow-up significa ampliar uma imagem. E é exatamente isso o que Thomas faz. Para descobrir e enxergar mais os detalhes de sua foto, ele precisa ampliá-la, mas ao mesmo tempo em que amplia ela torna-se mais granulada e desfocada, perdendo sua nitidez e qualidade. Neste ponto, o filme discute o fascínio e a obsessão pela imagem e a necessidade moderna de conhecer o que é irrelevante e descartável. Até onde podemos e precisamos saber? O que é real e o que é não é?

Dentro dos estúdios de moda, Thomas fotografa modelos extremamente magras, quase anoréxicas. Com a sua câmera, cobra das mulheres ações e feições eróticas e uma total entrega sexual enquanto movimenta-se de forma provocante. A famosa sequência com a modelo alemã Veruschka é uma das cenas mais sensuais do cinema. Ao fim da sessão fotográfica, Thomas sai realizado e cansado e Veruschka, destruída e frustrada, como se tivesse saído de uma relação sexual onde apenas o homem atingiu o prazer. Uma reflexão sobre o abusivo e misógino mundo da moda, onde modelos eram vistas como objetos sexuais e produtos descartavéis.

Durante suas investidas para descobrir quem é o atirador que apareceu em suas fotos, Thomas reencontra com Veruschka, que está completamente alterada, em uma festa. “Achei que você deveria estar em Paris“, pergunta o fotógrafo à modelo. A resposta? “Eu ESTOU em Paris“. Num primeiro momento o diálogo pode aparentar ser um alívio cômico, mas, quando inserido no contexto da trama, retrata a fugacidade e a indiferença em relação às preocupações do mundo real.

Com uma fotografia marcada por cores vibrantes e cenários excêntricos, um figurino extravagante e espalhafatoso, diálogos estranhos entre personagens extremamente caricatos e uma trilha sonora psicodélica e envolvente, o filme parece uma viagem lisérgica de jovens perdidos e descomprometidos, tentando fugir da realidade e dos padrões sociais. E de fato é. O Swinging London e o momento vivido pela juventude londrina não era muito distante disso.

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Mas, tratando de um filme de Antonioni, Blow Up não deve ser visto de forma tão rasa. O diretor enxergou no Swinging London um mundo artificial, plástico. A incensante busca de Thomas pode ser entendida como a busca dos jovens por respostas para as suas questões existenciais e por prazeres mundanos e efêmeros para vencer o tédio e preencher seus vazios, causados pelo próprio meio que viviam.

Em Blow-Up,  Antonioni conseguiu captar toda a melancolia de uma geração que ao mesmo tempo que revolucionava a sociedade com o seu comportamento subversivo e transgressor reforçava os valores que tanto contestavam. Numa tentativa frenética de criar uma identidade própria aqueles jovens alienaram-se dos acontecimentos reais do mundo ao tentar escapar dele e criar uma realidade artificial e ilusória.

Em meio a um turbilhão de ideias, Antonioni propôs um olhar diferenciado a cerca de um período de intensas mudanças sociais. A intenção do diretor não foi julgar ou enaltecer o uso de drogas e o comportamento hedonista daquela geração, mas mostrar que a completa fuga da realidade não era uma forma de se opor ao capitalismo – e sim um reflexo dele.

Um outro ponto forte do filme é a presença da banda The Yardbirds, grupo de rock que emergiu durante a invasão britânica e contava com Jeff Beck e Jimmy Page na sua formação. Em determinado momento do filme, a banda se apresenta de forma caótica e alucinante.

Cerca de 50 anos após o seu lançamento a essência do filme permanece a mesma. Extravagante, ousado e sensual, Blow-up é uma viagem de volta ao tempo em que foi realizado. Um brilhante retrato de uma época marcada por emoções profundas e sentimentos vazios.