1968: Panorama do Pensamento no Ano das Revoluções

Os eventos que marcaram o ano de 1968 causaram reverberações duradouras no pensamento político ocidental. Foi um ano de eclosão de motins, passeatas e canções numa tentativa de derrubar as tradições e abusos institucionais do ocidente. Era ali iniciado um processo de crítica dos anacronismos e contradições presentes nas formas tradicionais de se enxergar as relações humanas. Tal crítica vinha acompanhada de um ar de anti-academicismo nos protestos e passeatas pois os intelectuais estabelecidos e influentes não ressonavam com os novos valores que a massa encontrava por si própria, seja por estudo ou por revolta com a vigência política, mais autoritária que nunca.

O alento das massas repousava nos escritos da Escola de Frankfurt, que contestam a sociedade burguesa e capitalista descrita por Karl Marx não apenas como regime sócio-econômico, mas também como instituição moral, religiosa e psicológica igualmente opressora. Também encontraram seus pensamentos projetados na realidade os contestadores franceses como Foucault, que descrevia a civilização ocidental como uma força de autoritarismo em seus valores cristãos, relações econômicas e costumes tradicionais, advogando por sua destruição através da revolução, e também a feminista Simone de Beauvoir cujos escritos foram vorazmente consumidos pelas massas durante os anos sessenta, resultando em movimentos pela igualdade entre os sexos.

Simultaneamente os estudos de psicologia também entravam em cena para desmontar antigas crenças acerca da formação familiar e sexualidade, colocadas por vezes como relações de poder perpetuadas no tempo pelos costumes vigentes. Não por acaso o descrito corpo intelectual, que fora posto espontaneamente no trono da convulsão social das massas, seria o stablishment acadêmico-teórico predominante no futuro próximo em que vivemos.

homem faz discurso em púlpito para multidão, imagem em preto e branco
Herbert Marcuse discursa para jovens radicais na Universidade Livre de Berlim

Não bastava estar escrita a crítica ferrenha ao conjunto de valores e relações que antes se tinha como habitual, aceitável e obrigatório. Além de teorizados os problemas como o racismo normalizado pela polícia (ainda havia leis de discriminação racial até o ano de 1965 nos EUA), o papel secundário da mulher nas decisões familiares e no mercado de trabalho, as imposições morais sobre a sexualidade e a união entre indivíduos, os abusos do capitalismo moderno e mais um grande acúmulo de subpautas que viriam a constituir o que se hoje entende por New Left, era necessário que se pusesse uma faísca na fogueira dos ânimos políticos da juventude, e tal ignição foi dada pelas muitas mostras coincidentes de poder abusivo institucional mundo afora.

Na França, uma multidão de estudantes secundaristas protestando pela liberdade de expressão e melhores condições de ensino sendo brutalmente espancados e mortos por policiais armados, reproduzindo contemporaneamente as cenas da Revolução Francesa em tamanha violência que Charles de Gaulle, então presidente extremamente conservador, foi obrigado a secretamente fugir da França por algumas horas até os ânimos políticos da nação se acalmarem. Esses foram os eventos que acenderam a fagulha derradeira para iniciar um verdadeiro incêndio dentro do mundo ocidental – seria ele realmente livre, como diziam os mais antigos?

Mais tarde, do outro lado do Atlântico, uma safra de americanos que não acreditavam na guerra, em meio aos conflitos globais que levavam muitos deles à morte anônima no Vietnã do Norte, reclamavam aquela geração para a liberdade, mas uma liberdade moral tão intensa que viria a ser reprimida violentamente pelo país tido como baluarte do liberalismo. Pediam o fim do conflito sem resultados, que apenas acumulava em custo de investimento bélico e em jovens cadáveres.

manifestação pela paz com cartazes
“Estou me lixando para o Tio Sam, não irei ao Vietnã”

Enquanto isso a América Latina encontrava-se em seu mais intenso momento de guerra ideológica até os dias atuais, com regimes militares autoritários surgindo sob pretexto de manter a ordem contra revolucionários armados, por vezes vencendo o embate bélico como no Brasil e no Chile onde baixaram o porrete em todos que discordavam de seus valores publicamente. Por vezes os poderes tradicionais eram derrotados e sua ordem subvertida, como em Cuba, cuja organização de cunho socialista sobrevive aos tropeços há gerações.

Especificamente no Brasil o governo militar lutava para manter o controle da nação, num desses embates assassinando o estudante Edson Luis de Lima. A morte dele apenas serviu para inflamar mais os ânimos revolucionários, acarretando a Marcha dos Cem Mil, ao que o governo respondeu com outra provocação: a criação dos cinco Atos Institucionais, aviltando a liberdade de expressão e de pensamento de seus contrários, fornecendo ao regime mais formas de opressão contra a democracia.

caixão erguido sobre multidão
Cortejo fúnebre do estudante Edson Luis de Lima Souto

O que todos esses temas tinham em comum? Simples: tudo isso aconteceu ao mesmo tempo. O ano de 1968para alguns, evoca o sentimento de nostalgia pela expressão máxima de ímpeto pela liberdade que o Ocidente já experimentou, lançando sua juventude contra suas instituições proibitivas e valores atrasados. tudo isso muito bem difundido, em preto e branco ou a cores, pela era de ouro do jornalismo televisivo. Assim era anunciado o momento dos holofotes se voltarem para os tratados filosóficos, historiográficos e sociológicos críticos da sociedade ocidental como um todo, que já não parecia mais benevolente e liberal, mas truculenta e tolhedora em suas instituições democraticamente estabelecidas. O jornalismo televisionado inadvertidamente auxiliou na criação de uma identidade coletiva mundial contra o stablishment.

Perguntava-se se os ideais nacionalistas presentes durante a Guerra Fria e todos os seus sub-conflitos como a Guerra do Vietnã eram de fato benéficos, ou se só serviam aos interesses das elites estabelecidas, enviando jovens miseráveis para morrer por seus objetivos particulares. Seriam as doutrinas cristãs e seus ditames éticos realmente elementos harmonizadores ou formas de opressão contra aqueles considerados por elas como imorais, a exemplo dos usuários de drogas, ou secundários, como as mulheres? A tirania das medidas afrontosas contra a liberdade de expressão seria realmente necessária para que os países de fora do bloco soviético não se subvertessem ao socialismo?

A partir de tais questionamentos surgiram os defensores do amor livre, tentando liberar a sexualidade e a formação familiar dos crivos judaico-cristãos, por não verem mais a necessidade de apego a tais valores. Fortaleciam-se os movimentos pelos direitos civis dos negros, as militâncias feministas, e um movimento que viria a ser conhecido como contracultura, cuja marca maior seria a contestação do estilo de vida ocidental através de um modo de vida libertário, por vezes vinculado também a causas anticapitalistas.

A polarização violenta e radical acerca do mesmo tema entre os reacionários e progressistas já havia sido prenunciada pelos assassinatos de Martin Luther King Jr., um pastor anti-racialista e favorável ao armamento civil apoiador do Partido Republicano e de Robert Kennedy, um político socialista e pacifista, membro do Partido Democrata, ambos no mesmo ano, incutindo um clima sombrio de manutenção do conservadorismo pela força e atiçando nas massas a vontade de mudança e sensação de injustiça.

um homem negro e um branco de braço dado
Respectivamente, Martin Luther King Jr. e Robert Kennedy em rara foto juntos

De acordo com Noam Chomskya luta por direitos humanos, étnicos e o protagonismo das questões de defesa do meio ambiente foram imensamente ampliados a partir do ano, além de ter sido possível, a partir do mesmo, um movimento por solidariedade mundial através de certa identificação de perfil entre as diversas forças revolucionárias mundo afora. Os valores nacionais e as doutrinas religiosas que eram empurrados desde berço aos cidadãos finalmente ficavam em segundo plano quando comparados ao olhar crítico que a rebelião da época inspirava, sendo contestados através de uma boa dose de democracia direta pelas revoltas abertas nas ruas, ocupações e piquetes.

Herbert Marcuse, quando mencionado como líder intelectual das revoluções sessentistas do Ocidente, alega justamente o contrário: aquelas revoluções e aqueles movimentos sociais não precisaram de um líder ou de alguém que os moldasse conforme a própria vontade pois eles criavam a si próprios e irrompiam autonomamente por parte da população comum, independentemente de qualquer causa partidária ou acadêmica, ou liderança que as incentivasse. O povo estava cansado de sustentar um sistema e uma democracia que não mais ostentavam qualquer dever de representação das massas com suas degradações da guerra, seu sistema de ensino atrasado, sua xenofobia, racismo e sexismo predominantes.

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