1968: A Moda é parte da Revolução!

estilista veste meias coloridas com cabelo em corte geométrico

Mary Quant e as meias coloridas

Para muitos, o ano que transformou definitivamente a história. Para a moda, também um pouco de controvérsia: precisão geométrica por um lado e romantismo e delicadeza por outro. Isso tudo sem contar o recém lançamento da mini saia pela designer inglesa Mary Quant, que passou a ser item também inserido na revolução, associada ao uso de meias calças coloridas.

1968 foi também o ano em que os jovens tentavam buscar a liberdade de expressão por meio do seu estilo, até porque as manifestações que aconteciam no icônico ano, chamadas de contracultura, eram levadas a cabo pelo movimento estudantil. Assim, a moda passou a representar não só estética, mas também visão política e fez com que a data marcasse o vestuário com quebra de valores e até com uma certa agressividade.

estilo dos jovens de os mutantes

Os Mutantes e Caetano Veloso

No Brasil, era buscada uma aparência proletária ao invés do luxo, a exemplo do que fez a banda Os Mutantes indo de encontro ao estilo marcado pela ostentação da Jovem Guarda. Foram então adotadas as calças jeans (que não eram usadas pela elite) e batas básicas.

A simplicidade no estilo tomou conta. “Essa questão da contracultura, de apropriar os costumes dos operários e do proletariado também ficou evidente no que as pessoas vestiam. Apareceram os jeans desbotados, as peças com aspecto surrado ou usado. E ao mesmo tempo desse desprendimento material trazido, a Moda foi elemento de comunicação“, relata o designer Arthur Del Nery.

Por outro lado, começavam a chegar as boutiques de luxo no Brasil, que traziam influências retrô e moda étnica. E com a reverberação do movimento hippie, que pregava o abandono do conforto e o predomínio do desapego e de elementos da natureza, as roupas eram comumente adquiridas em brechós.

Então houve popularização de brechós, de peças vintage, dessa ideia de “faça você mesmo” e até a troca de roupas, porque era uma forma de rejeitar o capitalismo se expressando por meio do vestuário. Por exemplo, tingimentos naturais (tie dye) eram bem comuns entre os hippies, e esta técnica trazia a psicodelia que era da estética do movimento Hippie, com várias cores, fazendo amarrações de tecido, que originavam aquelas imagens tipo caleidoscópio e usavam técnicas artesanais.

E o que é interessante também é que houve, super forte nessa época, um estilo que veio das massas e dos jovens. E as marcas pegaram carona nisso e não o contrário, como era comum que acontecesse. Depois essas marcas fazem uma vibe meio Boho ou hippie chic, quando na verdade é um movimento que veio da rua”, completa o designer.

mulheres nos anos 60 com muita elegância

Boina, vestidos curtos e muita elegância

Eram muitos jeans bordados, bocas de sino, estampas étnicas ou animal print e saias compridas, além das mais curtas por influência externa. Os cabelos eram em geral longos e largados ou curtos geométricos. Nos acessórios a boina fez sucesso atribuindo um ar francês e não ficaram de fora os óculos grandes e os maxicolares.

Além de tantos elementos, ainda houve espaço para a influência oriental. “Dentro desse contexto, a moda incorpora as influências orientais, por exemplo, porque houve disseminação das religiões e filosofias do Oriente por aqui, como o Budismo e o Hinduísmo. Isso trouxe para a moda o uso das batas indianas, das saias de cigana, dos florais, etc”, menciona Arthur.

O modo de vestir abandonou um pouco a carga de gênero determinado, como forma de desprendimento ao capitalismo e às imposições sociais, talvez até em decorrência do surgimento da pílula anticoncepcional, possibilitando a liberdade sexual feminina. A mulher passou a ser mais livre em diversos aspectos, não dependendo mais do marido, como fez outrora. Passou a se apresentar de forma mais intelectual e elegante, usando terninhos, por exemplo.

No Brasil houve ainda a Zuzu Angel, que foi a primeira mulher estilista do país, e fez muito sucesso nessa época. Em 67 lançou uma coleção com vestidos fluidos, que libertava as mulheres do sutiã, em atenção aos movimentos feministas que existiam na época”, acrescenta o designer mineiro Arthur.

E como resumir um ano tão intenso? “Duas principais vertentes dessa época foram: primeiro a moda hippie, com o simbolismo da paz, em que os baby boomers, crianças nascidas no período pós Segunda Guerra, sabem os efeitos devastadores dela e querem ser diferentes dos pais, não querendo participar disso; e teve também o outro lado mais clássico, com cabelos curtinhos geométricos, mini saias, olhos bem maquiados, roupas coloridas, meio Beatles, preponderantemente na Inglaterra”, declara Mila Vieira, formada em Moda e atualmente estudante de Publicidade e Propaganda na FAESA.

E lá fora?

idosa estilosa sentada em poltrona. ambiente vermelho

Diana já idosa, em contraste à foto que ilustra a capa da matéria

No âmbito internacional, uma mulher em especial mudou a forma como o mundo Fashion era enxergado: ela foi Diana Vreeland. Como primeira editora de moda da história, esteve em 1968 trabalhando para a revista Vogue. Acompanhou de perto a difusão do comportamento juvenil e a ascensão do Rock. No panorama de urgência por liberdade, tudo interessou à grande Diana, nascida em Paris por mãe americana e pai inglês. Ela então introduziu o topo da moda aos Estados Unidos, contribuindo para que o mercado americano se tornasse o maior consumidor fashion do mundo.

Dentre os ícones da época, é possível e necessário citar o argelino Yves Saint Laurent, importante estilista da Alta Costura, que em 1968 resolveu se inspirar no artista da Pop Art, Andy Warhol. Yves foi então responsável pela criação do smoking feminino, pelas botas de cano alto até a coxa e pelas jaquetas de couro.  A importância deste homem foi tão notória que hoje existem dois museus que o imortalizam, um com seu nome, em Paris e outro na capital do Marrocos, onde o estilista passou boa parte de seus dias.

Outro estilista de destaque na época foi Pierre Cardin. “O prêt-à-porter, iniciativa que inseriu na moda a produção em larga escala, tendo começado a massificar e a democratizar as criações, deu mais acesso às pessoas. Em 68 isso estava acontecendo bem forte. Há uma certa controvérsia por não se saber ao certo se teria sido Yves Saint Laurent ou Pierre Cardin o precursor dessa ideia”, comentou Arthur.

três modelos em vestidos geométricos

Coleção geométrica da Saint Laurent

Outra mulher e estilista que ganhou destaque foi a americana Anne Klein, que desenvolveu um estilo mais esportivo, também voltado para o público jovem. A proposta era mesclar blazers com vestidos, por exemplo, e também promover o uso de vestidos colantes e capus, isso tudo sem perder a elegância.

Da lição que fica para os dias de hoje está, sem dúvidas, o legado de influências que continua a ser reutilizado e reinventado para o comportamento da sociedade atual. As maiores criações vêm, muitas das vezes, de transgressões com padrões anteriores. E o mundo da Moda não está afastado disso, pelo contrário, é retrato fiel de tudo.