1968: Um ano escuro para o Jornalismo

O ano de 1968 foi bastante conturbado. O mundo vivia o auge da Guerra Fria, havia uma disputa entre o Ocidente – capitalista – e o Oriente – socialista. O conflito armado não chegou de fato na Rússia e nos Estados Unidos, porém o Brasil passou por verdadeiros anos de chumbo, já que houve um Golpe de Estado e os militares assumiram o controle do país.

Para a área da comunicação não foi diferente. Muitos jornalistas, publicitários, artistas plásticos e músicos tiveram seus trabalhos vetados pelo governo da época, especialmente depois do Ato Institucional 5 (AI-5) ser instaurado.

O que foi o AI-5?

O período do Governo Militar (1964-85) foi marcado por muita repressão a qualquer tipo de manifestação social, cultural e política. A Constituição da época foi rasgada e a partir daí os militares passaram a governar o país com os atos institucionais – que nada mais eram que normas editadas por Comandantes Chefes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e também pelo Presidente da República da época, que também era militar, tudo isso com o respaldo do Conselho de Segurança Nacional.

O mais famoso foi o AI-5, que restringiu direitos individuais, que antes eram os pilares da democracia constitucional: liberdade, igualdade, legalidade, ampla defesa, proporcionalidade da lei e do contraditório.

Foram suspensos os direitos políticos, tais como o direito de voto nas eleições sindicais, proibição de atividades ou manifestação sobre assuntos de natureza política. A liberdade passou a ser vigiada, houve proibição de frequentar determinados lugares, além da intervenção direta do governo federal nos estados e municípios. O Presidente da República podia demitir, aposentar ou remover funcionários públicos, empregados de autarquias ou sociedades de economia mista.

Além disso, o governo suspendeu a garantia do habeas corpus nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.

Jornalismo em 1968

Relatos de jornalistas da época – tais como Clóvis Rossi e Augusto Nunes – ambos do Estado de São Paulo -, Pery Cotta – um dos editores do Correio da Manhã-, Alberto Dines – editor-chefe do Jornal do Brasil – relataram que o pior momento para ser jornalista durante o período da ditadura foi no ano de 1968, logo após o então Presidente da República, Costa e Silva, instaurar o Ato Institucional número 5.

Em entrevista para o Centro de Cultura e Memória do Jornalismo, o jornalista Alberto Dines relata que, antes do AI-5, não houveram muitas modificações na rotina dos jornalistas do Jornal do Brasil.

Cobria-se tudo, publicava-se tudo, tudo que chegava nós publicávamos. As grandes alterações aconteceram a partir de 1968.”

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Augusto Nunes

Augusto Nunes, que trabalhava junto com o Clóvis Rossi no Estado de São Paulo, disse em entrevista que chegou um ponto dele desanimar do jornalismo. Tudo que ele escrevia era censurado, e chegou um momento que ele passou a escrever receitas.

O problema da censura é que ela te emascula, ela acaba fazendo o afogamento na origem. Você cansa de escrever sabendo que vão cortar. Você escreve uma vez, escreve outra, quando vem a terceira matéria com aquele lápis vermelho, é difícil você escrever, porque vira uma coisa teimosa… Não é que você pratique a autocensura, você se rende, não há o que fazer. E aí você começa a publicar receita, essas coisas”

O jornalista Clóvis Rossi disse que, até 1968, as noticias eram divulgadas com certa prudência, nas entrelinhas, mas que após este ano, tudo era muito controlado e fiscalizado.

Eu me lembro bem que, na noite do AI-5, nós fechamos o jornal com a notícia do novo Ato Institucional e fomos reunir os repórteres e amigos, fomos para um boteco, […] num ambiente de ‘o mundo acabou, não tem futuro, não tem horizonte, o que vai fazer, o que não vai fazer’, enfim, todas as vias de futuro tinham sido fechadas”.

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Pery Cotta

Pery Cotta, era editor de política do jornal Correio da Manhã, se recusou de escrever algo relacionado à política da época por conta do AI-5, e foi demitido 5 dias após a implantação do ato institucional.

 Quando a ditadura invade o jornal, quando o regime militar toma conta do jornal, [ele] mata a alma do jornal. É o fim do jornal, acho que foi aí, um fim anunciado, porque eles cortaram publicidade, jogaram bomba em agência do jornal, da principal agência do jornal, […] fizeram todo o cerceamento possível, estrangular financeiramente e comercialmente o jornal. Felizmente depois do AI-5 eu passei só cinco dias na redação do jornal porque me neguei a continuar escrevendo sobre política, pedi que me mandassem para outra área. Não me mandaram, disseram que eu teria que continuar escrevendo sobre política e no quinto dia me demitiram”.

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Jornal O Globo, edição do dia 14/10/1968

Cada jornal era censurado de forma diferente. Alguns eram fiscalizados por policiais federais, que se localizavam dentro das redações, estes eram mais fáceis de burlar, visto que alguns possibilitavam a negociação. Outros eram fiscalizados por órgãos do governo. A proximidade física com os agentes ajudava os repórteres a perceber os critérios usados no corte de matérias e o modo de atuação dos censores. Por conta disso, cada jornal possuía uma forma de driblar os fiscais.

Alberto Dines contou que uma vez obedeceu às ordens dos militares de forma bastante estrita. “Eu disse [aos colegas de redação]: ‘a gente vai cumprir estritamente, eles não querem manchete, fazemos um jornal sem manchete… Vamos fazer um negócio: tira a manchete, vamos dar aí três ou quatro blocos, corpo o maior possível, contar essa história toda, sem manchete, e essa história, ela vai servir de manchete. Nós estamos cumprindo estritamente às ordens da censura, estamos fazendo um jornal em que o Allende não está na manchete’. Não esqueci dos telefonemas que eu recebi e do impacto que causou e a edição não sobrou nada, porque foi muito impactante para o leitor um jornal sem manchete”, disse Dines.

Vladimir Herzog

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Vladimir Herzog

Vladimir Herzog, apesar de ter morrido em 1975, ele foi uma das vítimas mais conhecidas da Ditadura Militar. Natural da Iugoslávia, ele veio para São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial, junto com sua família judaica.

Herzog era formado em Filosofia, mas exercia a profissão de jornalista. Trabalhou em grandes jornais, como, por exemplo, O Estado de São Paulo. Na década de 70, assumiu a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura. Ele fazia parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB), atuando ativamente no movimento de resistência contra a Ditadura Militar.

Apesar do então Presidente de 1974, Ernesto Geisel, anunciar que a censura diminuiria e os crimes de tortura seriam investigados, o governo passava por duas infelicidades: a crise do petróleo e a derrota nas urnas. Com informações de que haviam comunistas infiltrados no governo de São Paulo, o  Centro de Informações do Exército (CIE), por meio de agentes, convocaram o jornalista para prestar depoimento sobre sua participação no PCB. Herzog compareceu espontaneamente ao DOI-CODI no dia seguinte, onde ficou preso com mais dois jornalistas. Os soldados torturaram Vladimir e seus colegas com choques elétricos. Depois disso, seus companheiros foram separados e Herzog não foi mais visto.

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Vladimir morto na cela

No dia seguinte, o  Serviço Nacional de Informações recebeu uma mensagem dizendo que Vladimir tinha suicidado. Atualmente sabemos que não foi esse o motivo de sua morte, já que ele não estava de cinto – meio que teria usado para tirar a própria vida -, seus pés estavam flexionados no chão e haviam marcas em seu pescoço, indicando que ele teria sido estrangulado. Muitas mortes naquela época eram divulgadas como suicídio, por isso as pessoas falaram que Herzog teria sido mais uma vítima “suicidada” pela ditadura.

Na cultura judaica os suicidas eram enterrados separadamente. Porém, quando os Chevra kadisha foram examinar seu corpo, notaram as marcas de tortura. Eles concluíram que Herzog tinha sido assassinado, por isso o sepultaram no centro do Cemitério Israelita do Butantã, contrariando o laudo da Polícia Civil. As notícias de sua morte espalharam, driblando a censura vigente.

Somente em 24 de setembro de 2012 o registro de morte de Vladimir foi retificado, colocando como causa da morte “decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – SP (Doi-Codi)”

Todas as entrevistas foram feitas pelos jornalistas Carla Siqueira e Caio Barretto Briso para o Centro de Cultura e Memória do Jornalismo no ano de 2008.

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