Livros que todos jornalistas devem ler

Uma das principais dicas para o sucesso de jornalista é ler bastante. Ler com frequência influencia diretamente na forma que o profissional escreve e se comunica. Já falamos sobre isso em outra matéria. E assim como em muitas outras áreas de conhecimento existem aqueles livros que é de leitura obrigatória para todos aqueles que desejam ser grandes jornalistas.

Pensando nisso, selecionamos alguns livros que não podem faltar na biblioteca pessoal de jornalistas. Confira nossas dicas e aproveite as férias para aprimorar os seus conhecimentos e voltar com tudo no próximo período.

Truman Capote – A Sangue Frio

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Publicado inicialmente em capítulos pela revista The New Yorker e lançando como livro em 1966, “A Sangue Frio” é considerado como o marco inicial do movimento New Journalism, ou “jornalismo literário“, como ficou mais conhecido no Brasi. Essa nova forma de fazer jornalismo inovou ao misturar elementos de literatura ao texto jornalístico.

O livro é uma longa reportagem sobre dois jovens, Richard Hitckcock e Perry Smith, que em 1959 assassinaram quatro membro de uma mesma família em Holcomb, uma pequena e pacata cidade dos Estados Unidos, que na época tinha apenas 270 habitantes. Para escrever “A Sangue Frio”, Truman Capote fez uma longa e extensa investigação e adentrou totalmente no universo dos assassinos e dos moradores do lugarejo.

O jornalista soube do crime através de uma pequena nota em um jornal e decidou ir à cidade para averiguar o caso. Ele entrevistou familiares e amigos das vítimas e dos assassinos, recolheu documentos oficiais, leu e apurou cartas e diários, acompanhou o dia a dia dos moradores do local e, por fim, assistiu ao julgamento e a execução dos jovens, que aconteceu em 1965.

“A Sangue Frio” chama atenção pela forma detalhada e minuciosa usada pelo autor para descrever o crime e a vida na cidade após o acontecimento. A obra-prima de Truman Capote, que na época já era uma figura conhecida e influente nos EUA, chocou também por um outro motivo, durante a investigação o autor teve um relacionamento com Perry Smith, um dos jovens assassinos.

A investigação feita por Truman Capote, assim como as suas experiências pessoas, em Holcomb foram base para o filme Capote, de 2005. Com Philip Seymour Hoffman no papel principal, o longa foi um enorme sucesso de crítica e de público, sendo considerado por muitos um das melhores produções do ano. O fascinante e fiel desempenho de Hofman garantiu a ele o Oscar de Melhor Ator.

A importância de A Sangue Frio para o jornalismo é tão grande que o livro é indicado frequentemente por profissionais da área. Ele foi inclusive umas das indicações dos professores Valmir Matiazzi e Mirella Bravo na coluna “Quem Indica”. 

Tom Wolfe – Décadas Púrpuras

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Assim como Truman Capote, o também norte-americano Tom Wolfe é um dos pioneiros do jornalismo literário. O escritor, que faleceu em maio deste ano aos 88 anos de idade, deixou um enorme legado e obras de grande relevância para o jornalismo. Muitos de seus textos e reportagens podem ser lidos em “Décadas Púrpuras”, livro publicado em 1982 e que reune diversos trabalhos do jornalista feitos entre os anos de 1964 1981.

“Décadas Púrpuras” pode ser entendido como um fiél e eloquente panorama da Nova York nas décadas de 60 e 70. Os textos presentes no livro incluem relatos e entrevistas instigantes com os mais variados grupos e subculturas, como boêmios, intelectuais, artistas, celebridades, magnatas e políticos, que viviam em NY durante uma época de enorme efervescência cultural e mudanças sociais.

Uma verdadeira aula de New Journalism, Décadas Púrpuras evidencia bem o pensamento de Wolfe sobre a sua profissão. Para ele, o jornalismo é uma forma de arte e o relato jornalístico deve trazer elementos de literatura e de ficção para produzir melhor efeito e impacto.

Gay Talese – Fama e Anonimato

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Outro representante do New Journalism, “Fama e Anonimato”, de Gay Talese, é mais um livro fundamental para todos que desejam seguir a carreira de jornalista. Referência entre jornalistas e escritores de todo o mundo, a obra, publicada em 1970, reune séries de reportagens escritas por Talese abordando temas banais e considerados por muitos como inúteis ou irrelavantes.

Em “Fama e Anonimato”, informações aparentemente sem importância são transformadas em grandes reportagens capazes de retratar de forma sutil a realidade da sociedade de Nova York durante a década de 1960. Seja narrando fatos curisosos sobre a cidade, acompanhando os feitos de algum anônimo ou mesmo dando detalhes da vida pessoal de alguma celebridade, Talese contrói reportagens muito bem elaboradas e estruturadas, que mesclam o jornalismo tradicional e a literatura.

Guy Talese mostra em “Fama e Anonimato” mostra o quão importante é a visão diferenciada de um repórter. É preciso saber olhar, abrir a cabeça, despir-se de todos os preconceitos para escrever. Como é bem evidenciado na obra de jornalista, qualquer assunto pode ser transformado em uma peça jornalistica e uma boa reportagem, basta saber enxergar além do óbvio.

Eliane Brum – O Olho da Rua

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No Brasil, Eliane Brum é sinônimo de jornalismo literário. Em “O Olho da Rua – Uma repórter em busca da literatura da vida real”, a jornalista apresenta histórias de diverentes realidades do país, sempre colocando o seu ponto de vista e mostrando sua experiência como repórter. Lançado em 2008, O livro é uma coletânea de reportagens produzidas em vários lugares do Brasil entre os anos de 2000 e 2008. Em 2017, o livro ganhou uma segunda edição, com relatos mais recentes e inéditos da autora.

Assim como os nomes norte-americanos do jornalismo literário, Eliane Brum mescla o jornalismo com elementos narrativos e ficcionais e acompanha de forma muito próxima os fatos por ela investigados. Mais que uma obra de jornalismo, “O Olho da Rua” é um registro pontual sobre o país, retratando de forma emocionante e impactante “os diferentes Brasis que existem dentro do Brasil“. As histórias abordam temas sociais e poucos falados pela mídia brasileira, mostrando todo o descaso e abandono com uma parte esquecida do país.

A forma detalhada com que Eliane descreve a vida das pessoas em suas reportagens aproxima o leitor da realidade ao qual estas pessoas estão inseridas, o que permite também um sentimento de empatia e identificação. Os personagens das reportagens deixam de ser estranhos e passam a fazer parte de quem lê o livro.

Além das reportagens, “O Olho da Rua” apresenta também os seus bastidores e como foi todo o trajeto de Eliane enquanto as escrevia. Em cada uma das matérias presentes no livro, Eliane Brum revela a história por trás delas, mostrando os seus dilemas pessoais, as suas dificuldades e descobertas e também uma análise de sua jornada como jornalista.

Eliane Brum é uma das autoras preferidas da professora Emilia Manente, sendo indicada a todos os seus alunos. O vídeo abaixo foi produzido por alunos de Jornalismo da Faesa para disciplina de Técnicas de Apuração, Entrevista e Pesquisa, lecionada por Emília.

 

Fernando Morais – Chatô, O Rei do Brasil

81ysujR0xtL.jpgDono de um império de jornais impressos, revistas estações de rádio e de televisão, Assis Chateaubriand, ou Chatô, foi um dos nomes mais fortes na comunicação do Brasil entre as décadas de 1930 e 1960. Ligado tanto ao cenário político quanto a mídia nacional, Chateaubriand ainda hoje é uma figura polêmica e que desperta diferentes opniões, sendo considerado por uns como um grande oportunista e por outros um gênio e empreendedor.

Escrita pelo jornalista Fernando Morais e lançado em 1994, “Chatô, o Rei do Brasil“, acompanha a tragétoria do “imperador da mídia brasileira“. De forma brilhante, Morais constrói a biografia de Chateaubriand revelando diferentes visões e aspectos de sua história e o porquê de tanta polêmica em volta de sua imagem. As pesquisas e assuntos abordados pelo autor servem também como registro histórico para entender melhor a realiadade do Brasil no início do século XX, quando a mídia ainda não tinha uma força tão grande como hoje.

“Chatô, o Rei do Brasil” é um grande trabalho jornalístico e biográfico que retrata de forma imparcial e equilibrada um personagem complexo e de múltiplas camadas. Morais consegue mostrar na biografia de Chatô que todos os lados devem ser ouvidos e investigados, principalmente quando o assunto divide opiniões.

Carl Bernstein e Bob Woodward – Todos os Homens do Presidente

Todos os Homens do Presidente Carl Bernstein e Bob WoodwardO caso Watergate é um dos maiores escândalos políticos da historia dos EUA e um marco no jornalismo investigativo. Em 1972, o presidente republicano Richard Nixon tentava a reeleição, mas, durante sua campanha eleitoral, foram descobertos esquemas de corrupção e espionagem para Nixon continuar no poder.

Os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post, foram os nomes por trás da polêmica descoberta. Durante a investigação, a dupla ainda descobriu fitas gravadas por Nixon confessando que sabia das operações e tentando atrapalhar o trabalho dos jornalistas. Após a divulgação do caso, o então presidente, que havia sido reeleito, não aguentou a pressão e renuniciou o cargo.

A investigação foi transformada em livros pelos próprios jornalistas que estiveram a frente dela. “Todos os Homens do Presidente” é repleto de fatos importantes do contexto político da época e apresenta todo o processo investigativo de Bernstein e Woodward. O livro apresenta todos os registros da investigação e a tragetória do jornalistas para resolver e descobrir o caso. Leitura fundamental para todos aqueles que se interessam por política e jornalismo investigativo.

Em 1976, “Todos os Homens do Presidente” foi transformado em filme pelo diretor Alan J. Pakula e estrelado por Dustin Hoffman e Robert Redford nos papeis de Carl Bernstein e Bob Woodward respectivamente. O longa recebeu diversas indicações ao Oscar, incluindo de Melhor Filme e Melhor Diretor, e ganhando a estatueta dourada como Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante, além do prêmios nas categorias técnicas.

Zuenir Ventura – 1968: O Ano que Não Terminou

download.pngZuenir Ventura é um dos jornalistas mais influentes do Brasil. Com uma longa bibiliografia, o escritor utiliza elementos do jornalismo literário para escrever sobre temas políticos e sociais do país. Sua principal obra, “1968 – O Ano que Não Terminou”, é um panorama sobre os acontecimentos que marcaram o país no ano de 1968 e como eles ainda influenciam o modo de pensar e agir do brasileiro.

O livro foi publicado em 1988, apenas 3 anos após o fim da ditadura militar. Hoje, 30 anos após a sua publicação e 50 anos após os eventos narrados ele permance atual.

Zuenir Ventura faz  em “1968” um apanhado geral do que aconteceu naquele ano, desde o ínicio, quando as manifestações populares e os movimentos estudantis eclodiram, até o final, quando o AI-5 foi imposto e a liberdade de expressão violada. O livro apresenta ainda recortes da vida cultural do país trazendo depoimentos de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque e Zé Celso.

De forma lírica e expressiva, a obra aproxima o leitor a um dos períodos mais cruéis da história do Brasil. A narrativa de Ventura assemelha-se mais a um romance que um texto jornalístico, mas ainda sim é visível no livro todo o trabalho do autor como jornalista. Muito dos acontecimentos descrito por Ventura foram também vividos por ele. O autor fez parte da juventude contestadora que lutou contra a repressão durante o período de ditadura militar.

1968 é importante também por retratar as dificuldades de exercer o ofício de jornalista num período de censura e controle dos meios de comunicação. Os desafios enfretados por Zuenir Ventura são descritos com muito precisão e veracidade ao longo da narrativa. É dever do jornalista conhecer a história do país, principalmente quando ela tem relação e afeta a sua profissão. No vídeo abaixo, Zuenir Ventura fala um pouco do período ditatorial e como isso repercutiu no jornalismo e em toda a sociedade brasileira.

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