TDI: O transtorno do indivíduo com várias personalidades

“Tem muita gente que olha para quem tem o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) que olharia para a Paula e diria: ‘isso tudo é teatro!’. É possível, eu não posso provar cientificamente que não é, mas eu não acho que é só para chamar a atenção, porque na verdade, não é divertido ter TDI. Existe um tremendo sofrimento, um tremendo ódio de si mesmo, culpa e conflito.” –  Colin A. Ross, psiquiatra.

Os transtornos, termo utilizado amplamente em psicologia e psiquiatria, dizem respeito a alterações no estado normal de saúde, causando incômodo no acometido. Existe um transtorno que gera bastante interesse aos pesquisadores da área por conta de suas características peculiares, trata-se do Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI). Nela, o indivíduo carrega dentro de si múltiplas personalidades, as quais se diferem uma das outras em questões de gênero, idade, preferências etc. Para exemplificar e tornar mais entendível, o TDI é como se fosse a vivência de várias pessoas em um corpo só.

Ele está presente na vida de Paula, Encina e Kim Noble. Três mulheres sobre as quais nós iremos contar um pouco das suas histórias pessoais aqui neste texto.

De acordo com o portal Tua Saúde, a doença acontece em decorrência a algum trauma que a pessoa possuidora de TDI sofreu, principalmente na infância. Tal indivíduo teve a identidade dividida para conviver em um contexto no qual a identidade considerada como principal, não aguentaria lidar. Por exemplo: X sofria com violência na infância; Y apareceu para X e se pôs no lugar dele a fim de o proteger contra a violência. X e Y vivem no mesmo corpo. É uma ideia bastante subjetiva.

Desenho ilustrando o TDI / Fonte: Internet – Psicoativo

Informações do Manual MSD afirmam que existem duas formas de se ver tal transtorno: como possessão e como não possessão. A primeira maneira é chamada assim porque as personalidades assumem com grande força o lugar da pessoa pioneira e se mostram como as controladoras do corpo; já a segunda deixa a possibilidade do hospedeiro observar tudo o que acontece como um passageiro – a pessoa observa o que faz mas não é o agente realizador da ação.

O TDI como possessão é mais fácil de ser identificado por indivíduos de fora devido a diferença maior das personalidades, enquanto a de não possessão é um pouco mais sutil de sofrer identificação. Mas isso não exclui o fato de haver mudanças na pessoa – ela age como se não fosse ela mesma; passa a ter gostos não costumeiros; não se sente no próprio corpo.

Sintomas

Segundo o portal Médico Responde, o principal sintoma de um portador de TDI é a amnésia. Enquanto uma personalidade está na frente do corpo, tomando o controle, as outras ficam de fundo, como que se estivessem dormindo/ausentes. Porém, existe a possibilidade da personalidade dominante no momento compartilhar as experiências vividas com as outras.

Além do esquecimento, o Tua Saúde listou como sintomas os pontos seguintes:

  • Constantes alterações no comportamento;
  • Ausência de identidade;
  • Escutar vozes conversando na própria mente e ter alucinações;

Casos

Paula

Para quem tem interesse sobre o TDI, uma ótima dica é o documentário produzido pelo Discovery Home & Health que conta a história de Paula, uma mulher que possui 15 personalidades.

Paula sofreu com violência física, psicológica e sexual quando ainda era uma criança, e cresceu com a identidade dividida. Das personalidades que convivem com a mulher, têm-se crianças e até mesmo homens. A mulher afirmou ter ouvido vozes na mente antes mesmo de ser diagnosticada com TDI.

Durante a reportagem é mostrada uma cena em que ela vai ao supermercado e fica em um conflito interno sobre o que comprar, pois dependia de qual alter ego estava no comando naquele momento, e cada personalidade gostava de um certo tipo de alimento. É uma antítese que deixa o telespectador um tanto curioso.

O documentário mostrou a conversa entre Paula e o psiquiatra Colin A. Ross. No diálogo é revelado que dos 15 alter egos, 4 são masculinos, e de acordo com Paula, “a maioria deles escolheu o próprio nome”. O alter ego mais ativo é a Mariah, uma garotinha de 5 anos. Outro ponto interessante é que para a hospedeira, em questão de aparência, cada alter ego é diferente.

“A Paula não está inventando a gente. Nós existimos. Nós não estamos tentando chamar a atenção. Nós existimos.” – Melinda, um dos 15 alter ego de Paula.

O documentário também mostrou o medo de Paula em relação a dois alter egos chamados Freedom e Teddy Clair, ambos femininos. O primeiro é considerado pela mulher o mais incontrolável, voltado para um lado sexual que a mesma não se sente à vontade devido aos históricos que mancharam a própria infância. Freedom marca de sair com homens e faz compras online de produtos pornográficos, o que deixa Paula aflita.

Teddy Claire, por sua vez, é um lado mais sombrio e raivoso. Não se conforma com a situação a qual está envolvida e utiliza, por meio de um caderno, a escrita para expressar o que sente. Sempre escreve de letra maiúscula, como se estivesse gritando todo o ódio que sente daquela realidade.

Registro de uma cena do documentário "Woman with 15 personalities" da Discovery Home & Health
Registro de uma cena do documentário “Woman with 15 personalities” da Discovery Home & Health. Aqui, Paula mostra o caderno que utiliza para armazenar informações sobre as personalidades.

O caderno não é usado apenas por Teddy Claire. Paula resolveu fazer uso do objeto para expressar também as outras personalidades, em função de entendê-las. O interessante de ser visto no conteúdo é que cada uma delas têm uma caligrafia diferente. Completamente diferente.

Jonathan é um alter ego masculino de 12 anos. Ele gosta de basquete e se sente incomodado por ter presenciado uma cena entre Paula e um médico que a atendeu, o qual afirmou que ela estava apenas inventando o menino.

“Eu sei que estou em um corpo de mulher e eu não gosto disso porque a Paula gosta de usar joias. Ela usa brincos…” – disse Jonathan.

Encina

Outra história que ganhou grande destaque na internet neste ano é a de Encina, uma mulher que também possui TDI. Em uma entrevista ao MedCircle, Encina deu diversas informações sobre o caso dela com o Transtorno Dissociativo de Identidade.  Diagnosticada com TDI aos 22 anos, Encina possui onze alter egos. Cinco destes aparecem com mais frequência, enquanto muitos dos restantes são desconhecidos para a mulher. O alter que aparece mais constantemente é Minnie, uma garota de três anos.

Assim como Paula, Encina também sofreu com abusos sexuais recorrentes na infância. Segundo informações passadas por ela, os alter egos podem ser animais ou até mesmo rochas – eles existem para proteger a criança, não importando o que sejam. “A primeira coisa que eles querem fazer é ajudar, então eles tomam o controle. Dirigem o corpo”, contou.

Encina afirmou que no início tudo era muito complicado, mas que com o tempo e a aceitação, a qualidade de vida dela melhorou. Ela passou a conhecer melhor as personalidades por meio de um diário em que cada uma escreve.

“A primeira reação é a de lutar contra isso. Não tem como se livrar do TDI. Não tem como se livrar dos alter egos. Eles sempre estarão lá”, disse.

Em relação à consciência dela quando algum alter comanda o corpo, Encina falou que depende. Ela consegue ver e sentir tudo se eles deixarem, porém, se não permitirem, o resultado é a amnésia do período que tal personalidade ocupou, foi controladora.

Veja a entrevista completa neste vídeo (está apenas em inglês). Para quem estiver curioso sobre como acontece a troca de alter ego, ela ocorre no momento 41:43 do conteúdo abaixo: – Encina dá lugar para Minnie. 

Kim Noble

O site Fatos Desconhecidos listou sete pessoas que viveram com o TDI, e uma delas tem a história deveras interessante: Kim Noble. Ela é uma mulher que possui vinte personalidades, sendo que quatorze destas são artistas.

“É como um sonambulismo. Eu pinto, e depois não tenho nenhuma memória sobre isso”, disse Kim em uma entrevista concedida ao VICE.

A artista afirmou que, anteriormente, poucas personalidades pintavam, e que com o tempo, outras passaram a trabalhar com a arte. Com tantos alter ego voltados para o lado artístico, o resultado não poderia ser mais surpreendente: todas as formas de pintar e fazer arte pelas mãos de Kim são muito diferentes. Os estilos variam de personalidade para personalidade, assim como os temas:

A doença e o cinema

Filmes já utilizaram o TDI como um gancho para contar histórias. Uma bastante conhecida é a do longa Fragmentado, que tem como protagonista Kevin, um homem com vinte e três personalidades – cada uma com características distintas umas das outras. Obviamente que é utilizado do lúdico e fantasioso para o desenrolar da trama, mas a ideia da obra mostra principalmente como o transtorno age e fragmenta a mente.

O longa teve como inspiração a real história de Billy Milligan, um homem que cometera crimes e afirmara não saber do que acontecia. Ele, na verdade, foi um dos primeiros diagnosticados com TDI, e possuía vinte e quatro personalidades. De acordo com os psicólogos que analisaram o caso, quem agia na hora dos crimes eram dois dos alter ego de Milligan.

Foto de Billy Milligan, o homem de 24 personalidades / Fonte: WorldLifestyle

Tratamento

O portal Médico Responde afirmou que o tratamento para essa doença é feito com psicoterapia e remédios. Essas duas opções procuram fazer com que o paciente identifique o problema e adquira autocontrole sobre a situação, além de fazer o possível para controlar outros transtornos psiquiátricos que costumam surgir em indivíduos com TDI. Infelizmente, os resultados podem ser limitados se não houver cooperação por parte do paciente.

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