Matheus Metzker

Quase três horas de conversa. O encontro não podia ser outro: uma sala de aula na FAESA Centro Universitário. Lugar em que ela se sente confortável, pois leciona há mais de 15 anos e tem um pedaço grande da própria história atrelada a essas quatro paredes. “Conviver com vocês é um espetáculo”. Com um lenço preto e branco amarrado ao pescoço, uma das marcas, Maria Emília Pelisson Manente me deixou descobrir fatos pouco falados e entrar nas nuances mais profundas da trajetória. Trajetória que não se parece com o lenço bicolor e tradicional, mas é colorida, tem vida, reviravoltas e é muito inspiradora.

A “italiana” Emília Manente nasceu em Nova Venécia, interior do Estado, e teve a vida marcada pela superação (Fotos: Zanete Dadalto)

Emília tem a origem italiana no sangue. Nascida em uma pequena e pacata casa na zona rural de Nova Venécia, ao Norte do Espírito Santo, foi criada, juntamente com mais seis irmãos, pela costureira Helena e o pequeno agricultor Gervásio. A infância da professora foi muito humilde e marcada por extremas dificuldades. Por isso, o desafio sempre foi sair daquela situação.

Sem recordar o motivo, o pai, quando ela tinha 7 anos, decidiu vender a propriedade rural e começar uma nova vida em Vila Velha. E esse foi o “ponta pé” para que um pouco de esperança chegasse para a família Manente. “Sou muito grata ao meu pai por ter saído do interior e ter vindo para cá, pois construí uma outra história para mim”.

Deslocaram-se do interior para a cidade grande, mas engana-se quem pensa que com a mudança já houve uma ascensão. A periferia da Glória, perto de onde hoje é a escola de samba MUG, foi o local que pelas condições financeiras conseguiram se fixar. Uma moradia simplória que abrigava quase dez pessoas e que ainda sofria com alagamentos foi a realidade por muito tempo.

Por nessa época não ser nada fácil a sobrevivência, os irmãos mais velhos trabalhavam e ajudavam nas contas de casa, enquanto Emília seguia estudando. Ela recorda emocionada o passado difícil:

Eu sempre acreditava que a minha salvação dessa situação de pobreza, de não ter nem chinelo para calçar, de irmãs pegarem roupas de irmãs, era a educação

Emília Manente

Como sempre foi muito esperta, desde que chegou na cidade grande já sabia ler. Aptidão aprendida em Nova Venécia com os encontros de reza diários da família. Ela tentava decifrar os livrinhos bíblicos e conseguia muito bem essa missão. Contudo, mesmo alfabetizada, teve que fazer o primeiro ano do colegial, já que não acreditavam que alguém do interior pudesse ter o domínio da leitura tão nova.

Na escola, sempre se mostrava dedicada. Era a aluna que não gostava de faltar e amava tirar boas notas. Quase tudo, Emília era boa. Claro, menos física. De humanas convicta, essa matéria nunca entrava na cabeça. A física parecia empecilho, já o português trazia até alguns trocados. Isso porque as professoras viam nela um potencial de substituir colegas em outras escolas quando não pudessem dar aula. E, assim, aos 15 anos, começou a entrar em um mundo que hoje domina muito bem.

Sobrevivência e repressão

Na adolescência sempre foi solícita: gostava e tinha prazer em ajudar os outros. Como foi criada em berço católico, as idas à igreja eram constantes. Não só por influência familiar, mas porque era o único momento que podia discutir causas sociais. E assim surgiu o espirito de militância.

Em pleno exercício do regime militar, o único espaço social que autorizavam reuniões era dentro da igreja. Lá, fazia comparações do evangelho com a realidade. E era essa realidade que ela e os amigos tentavam mudar. Todo fim de semana, construíam casas em favelas pela Grande Vitória e subiam morros em prol da assistência. “Se Deus não existir, eu ficarei muito brava”, brincava ela com a situação.

Apesar de viver com restrições, o entendimento mesmo do que estava vivendo somente veio mais tarde na faculdade. Ao se formar com 18 anos no científico na escola Godofredo Schneider, na Prainha, em Vila Velha, queria ir mais além, não à toa que foi a única a concluir o ensino superior na família.

No primeiro ano do vestibular na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) não passou em nenhuma das opções que havia escolhido. E por incrível que pareça: Jornalismo não estava nas opções dela. Psicologia era o foco de Emília. Pelo gosto e afeto que tinha pelo próximo, via esse curso como ideal. Descobriu que na grade curricular de psicologia tinha anatomia e ficou feliz de nem ter passado.

Mais tarde, após ganhar bolsa em um cursinho, tentou, aos 20, novamente uma vaga em um lugar que segundo ela somente ricos antigamente conseguiam passar. Ainda, aliava essa luta com um trabalho de secretária em uma empresa que consumia muito do tempo dela. Mas, o cansaço de outrora valeu a pena: daquela vez deu certo. E naquele momento, por indicação de amigos que falavam o quão ela escrevia bem, Jornalismo foi a principal escolha.

Emília Manente na Redação do jornal A Tribuna. Ela atuou na editoria de política (Foto: Arquivo Pessoal)

Emília fez a graduação em cinco anos, já que, ao mesmo tempo em que estudava, trabalhava como técnica administrativa na federal e estagiava na Arquidiocese de Vitória. Formada, foi repórter da editoria de política em A Tribuna por alguns anos. Após esse período na redação, realizou freelancers em assessorias diversas, motivo que levou a se especializar, tempo depois, pela UFES, em Comunicação Organizacional.

O mestrado só veio bem mais tarde. Por razões adversas, 2003 foi o ano que conseguiu ser mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. E a partir desse ano entrou efetivamente para a sala de aula. Convidada por um antigo professor da Ufes, iniciou nas Faculdades Integradas Padre Anchieta de Guarapari (FIPAG), passou pela antiga Univila em Vila Velha e chegou ao antigo campus da FAESA, em São Pedro, Vitória. Hoje, é totalmente dedicada a lecionar na FAESA.

Lutos, filha e desafios

Apesar de grandes vitórias, não apenas lidar com a pobreza financeira foi a batalha de Emília. Perdas de familiares a destruíram por várias vezes. E isso a obrigava a recomeçar mais uma vez.

Uma das primeiras reviravoltas e choque tamanho foi logo quando entrou na faculdade. Um acidente trágico de caminhão tirou a vida do caçula da família Manente. Os olhos marejam ao lembrar da primeira experiência de luto e, segundo ela, a mais dolorida. “Até hoje não superei”, diz revelando o afeto que tinha pelo irmão.

A segunda e não menos impactante foi a perda da mãe. Helena, diagnosticada com câncer de mama em meados dos anos 1980, segundo os médicos só duraria alguns meses, mas continuou na luta pela sobrevivência por quase seis anos. A sexta filha, agora a caçula, Emília, era a responsável por acompanhar a mãe nas sessões de radioterapia e quimioterapia. E fazia isso com muita dedicação, até que começou a ser impedida, já que na época estava casada e, sem planejar, ficou grávida.

Hanna, que significa “bem-aventurada” de acordo com o vocabulário hebraico, surgiu na vida da docente no final de vida da costureira e batalhadora Helena. E ao contrário da avó ficar feliz com mais uma neta, se entristeceu já que Emília teria que parar um tempo de a acompanhar. “Acabei depois não acompanhando muito já que estava grávida. Hanna nasceu e minha mãe morreu cerca de um ano depois. Foi um nascimento e luto ao mesmo tempo”.

Perdeu também o irmão mais velho por infarto quando qualificou a dissertação de mestrado. E o falecimento mais recente do pai há seis anos por uma queda triste e fatal também faz parte das dores da docente. Como superou? Para Emília, a terapia, a fé em que as coisas passam e o mundo gira, os amigos, familiares e até alunos a ajudaram a ter um motivo para continuar.

Acredito que tem algo além. É importante que você tenha fé e que acredite. Além de tudo, acredito muito no ser humano

Emília Manente

Amores e futuro

Emília tem muito orgulho da filha Hanna. “Eduquei uma mulher feminista e que busca realizar a cada dia os sonhos” (Foto: Arquivo Pessoal)

Apesar de não ter sido o melhor momento para ter filho, Emília soube se virar e criou Hanna como podia, já que não tinha mais a mãe para trazer ensinamentos na educação e no dia a dia. Mais tarde, não foi fácil também lidar com a dor da saudade, pois Hanna fez graduação na USP em São Paulo e já emendou com um doutorado na Universidade de Chicago, nos EUA, onde ainda mora. Mas, acima de tudo, ama quem a herdeira se tornou.

Eu tenho muito orgulho da história que construí para mim e de ter educado uma mulher feminista, que corre atrás dos sonhos, que sofre pra caramba vivendo sozinha, mas que, também, quer construir a própria história

Emília Manente

A companhia principal nessas ausências da filha é o charmoso Gregório. Um cachorro maltês que Emília tem há dez anos. Amigo fiel com quem conversa, briga, mima e está entre as maiores paixões. Motivada pelo saber, pela construção de novos pensamentos e como forma de estudar, os livros e as revistas também estão presentes, trazendo calma e muita sabedoria no dia a dia.

O cão maltês Gregório tem 10 anos, é um amigo fiel e companhia para Emília (Foto: Arquivo Pessoal)

Paixões que, claro, divide com os alunos em sala de aula. Todo semestre afirma que será o último e que migrará rumo a aposentadoria, mas, felizmente, não consegue. Emília sempre tem um brilho no olhar ao falar dessa particularidade na vida, pois cultiva amizades surgidas em sala de aula que leva para o confortante coração que tem. “Olho para trás e vejo que aquela pessoa é um filho que perdi, que nasceu no lugar errado (risos). São tantos ex-alunos que encontro e é sempre uma festa. Fico contente por estarem se dando bem na profissão que escolheram e por estarem felizes. E isso com certeza é uma conquista que a sala de aula me possibilitou”.

Abraço aconchegante, mas limitado a quem conquista confiança, a professora gosta de passear com o cãozinho e sair durante o dia no tempo livre. Além disso, acupuntura, ginástica, se manter espiritualizada na igreja e encontrar com amigos do colegiado, como a amiga-irmã Zanete Dadalto e ex-alunos é a forma leve de viver.

Emília junto aos alunos no Intercom Sudeste 2018 em Belo Horizonte, Minas Gerais (Fotos: Matheus Metzker)

Sem ligar para o que o outro pensa e ter conseguido evoluir ao longo do tempo, Emília venceu, saiu da periferia e foi para o mundo descobrir a potencialidade que carregava. Cada detalhe, uma luta. Cada conquista, uma vitória. Para o futuro, há apenas a tranquilidade como caminho.

Acredito que quem sai da periferia e chega onde estou hoje é uma grande vencedora. Por isso, se eu morrer amanhã, eu posso dizer para você: estou tranquila. Sou feliz e realizada naquilo que me proponho a fazer

Emília Menente

Foto de Destaque: Matheus Metzker

Posted by:Valmir Matiazzi

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