Karen Benício e Matheus Metzker

A doação de órgãos no Brasil quando é efetivada ainda é um grande motivo de comemoração e diminuição de um amargo sofrimento. Isso porque pela falta de conscientização, há bem mais pessoas na fila de espera do que doadores. Assim, quando se tem uma ligação, rara, de que há um órgão compatível, os pacientes quererem eternizar aquele bondoso aviso, pois é visto como uma salvação. Por isso, a doação, na maioria dos casos, em que não se firma uma rejeição, é o fim de um processo angustiante.

Hoje (27) é o Dia Nacional da Doação de Órgãos. Nessa segunda matéria da série especial sobre o tema, vamos contar histórias de pessoas que tiveram um final feliz e, hoje, podem respirar com tranquilidade. Antes de começar a ler a segunda matéria, confira a primeira: Demora e sofrimento: o órgão que não veio.

No Brasil, no primeiro trimestre de 2019 (janeiro a março) já foram realizados segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), 6273 transplantes, entre órgãos e tecidos, sendo que o rim lidera no ranking. Já no Espírito Santo, de janeiro a agosto de 2019, segundo a Central Estadual de Transplantes foram 297 pessoas que receberam algum tipo de transplante. Um número expressivo, mas aquém do esperado, já que há uma fila de espera que abrange mais de mil pessoas no Estado.

Médicos recebem órgãos para a realização de transplantes em um hospital particular de Cariacica (Foto: Arquivo Pessoal/Gustavo Peixoto)

Para o cirurgião especializado em transplante de fígado e coordenador do Centro de Transplantes do Hospital Meridional de Cariacica, Gustavo Peixoto, o cenário do Estado não está tão positivo no que se refere a esse tipo de órgão. “O cenário do transplante de fígado não está favorável. Temos caído ano após ano. Esperamos que isso se reverta. Precisamos acompanhar o ritmo de crescimento de transplantes do Brasil”, espera o médico.

Peixoto afirma, ainda, que, no geral, todo transplantado para voltar a fazer atividades de rotina é preciso ter consciência e se cuidar, como forma de evitar à volta para a fila. “Após o transplante é necessário ter uma série de cuidados, como principalmente a ingestão correta de medicações imunossupressoras para se ter uma vida normal. Quando o paciente não realiza isso, ele pode ter um processo claro de rejeição”, alerta o especialista.

Felicidade por viver

O médico Jailson Totola viveu uma angústia por precisar de um transplante de fígado (Foto: Matheus Metzker)

Quem vê o médico Jailson Totola hoje, não imagina os percalços que ele passou durante a vida. O especialista em cirurgia geral de 62 anos tem uma trajetória renomada em ajudar pacientes, mas há três anos ele que precisou de muito auxílio no que se refere à saúde. A ajuda? Um fígado. Órgão necessário para que o médico voltasse a ter uma rotina normal.

Tudo começou bem antes, há mais de 30 anos, em 1983, época que ainda fazia residência em medicina. Em uma dessas operações cirúrgicas em um hospital, após toda a finalização do procedimento, um colega que o estava ajudando tirou a luva cirúrgica com muita força e descuido, o que gerou um erro fatal. Uma gota de sangue caiu sobre os lábios de Totola. “Lembro como se fosse hoje”.

Tal acontecimento gerou um mês mais tarde, uma hepatite diferente. Era o início do tipo C no Brasil. O médico curou ao longo do tempo dessa enfermidade e passou anos sem nenhum tipo de problema. Mas, em agosto de 2015, aquilo que estava estagnado voltou e de forma pior. O doutor descobriu um diagnóstico difícil e doloroso de câncer no fígado após notar um sangramento gengival causado pelo mesmo vírus da hepatite.

Sou cirurgião, já operei muito câncer nos outros, mas quando é em você é complicado. Você nunca aceita. A primeira sensação que você tem é de negação e se indagar ‘por que comigo?’. É uma surpresa. Ou você se deixa levar ou enfrenta. E eu resolvi enfrentar

Jailson Totola
Jailson mostra o diagnóstico de câncer de fígado que recebeu há três anos (Foto: Matheus Metzker)

Além do tumor no fígado, Jailson também tinha um grau de Cirrose preocupante, o que levou a não ter outra saída: o transplante. Por isso, no mesmo mês entrou na fila.  O médico batizou essa etapa como “fila da morte”. “É um outro drama que você passa além do diagnóstico. Eu já tinha visto muita gente morrer durante a espera porque não conseguiu. Então, todo esse drama te acompanha desde o primeiro dia que você entra nessa fila”, lembra.

Pelo alto grau de complicação, Totola ficou rapidamente em segundo lugar na fila de transplantes de fígado e, assim, recebeu, após três meses, a ligação que havia um órgão compatível aqui no Estado. Ele se lembra emocionado do dia que recebeu essa boa notícia.

Atualmente, depois de tamanha superação, Jailson deseja apenas paz e saúde para trabalhar e ficar por perto da família e amigos que o ajudaram durante aqueles meses angustiantes. “Eu acho que sou aquele cara que escapuliu e deu um drible na morte e está vivendo dignamente. Valorizo mais minha família, as pequenas coisas e o tempo. Agradeço muito mais pelo que tenho do que peço alguma coisa. Agradeço por estar vivo”, comemora o cirurgião.

Alívio

A professora aposentada Mirian da Cruz, 50, é mais um exemplo de pessoa que hoje respira aliviada. Após perceber um inchaço anormal, em 2008, ela fez exames para descobrir a causa desse problema. E veio o resultado: a aposentada estava com um grave diagnóstico nos rins devido a pressão alta que tinha e pela falta de beber água adequadamente durante o dia. A partir disso, começou a saga de seguir a espera de um doador compatível na fila de transplantes.

A professora aposentada Mirian da Cruz não perdeu as esperanças mesmo após um diagnóstico difícil nos rins (Foto: Matheus Metzker)

Toda a espera foi aliada com sessões semanais de hemodiálise, um processo de filtrar todo tipo de liquido do corpo e que chega a durar quatro horas cada sessão. “Fazer o tratamento é angustiante. Você fica preso à aquela máquina, mas, ao mesmo tempo, ela é a sobrevivência. A cada dia que eu conseguia ir e vir, era uma vitória. Se não tiver fé que sairá dessa, você fica muito debilitado. O que mata não é a doença em si, mas o psicológico”, ressalta Mirian.

A professora aposentada recebeu a boa notícia que iria para o centro cirúrgico realizar o transplante depois de quatro anos. A doação, segundo ela, veio do norte do Espírito Santo de uma adolescente doadora e que foi vítima de um acidente. O momento representou novos objetivos e olhares diferenciados na forma de viver.

Além do Jailson e da Mirian, o microempreendedor France Caetano, 25, ao olhar a cicatriz no peito lembra toda a trajetória de superação. France já nasceu sem a válvula mitral, que é fundamental para o funcionamento do coração e, por isso, precisou realizar uma cirurgia nos primeiros três dias de vida e até ficar um ano internado para se recuperar em um hospital.

Aos 5 anos, outra cirurgia precisou ser feita para uma mudança da válvula do coração devido ao crescimento do jovem. Todos esses procedimentos sempre eram realizados em São Paulo, já que dentro do território capixaba não havia estrutura ainda para a concretização e acompanhamento de operações delicadas.

France Caetano acumulou ao longo da vida muitas internações devido a problemas no coração (Foto: Matheus Metzker)

Onze anos mais tarde, quando France e a família acreditavam que tudo estava normalizado, houve mais complicações devido a uma infecção que ele adquiriu no coração. Meses internado e a angústia de todos cada vez mais aumentava, já que o estado de saúde dele piorava dia após dia.

Pela urgência que a situação de France estava, um transplante de coração se tornou a única alternativa para a sobrevivência. Por isso, aos 17 anos, precisou entrar na fila de doação de órgãos. “Fiquei na fila 1 ano e 6 meses. E um dia me informaram que tinha um coração compatível”, lembra.

Feliz, sorridente e renovado, esses adjetivos hoje definem a vida de France que teve o desejo de estudar farmácia devido às reviravoltas que sofreu com a saúde durante o passar do tempo.

Vejo a cicatriz como a marca da vitória. Eu olho para ela e vejo que venci uma batalha que muitos vão e não conseguem. Hoje, me sinto outra pessoa, como se eu tivesse outra vida. Só gratidão. Apesar de toda tempestade, eu venci. Hoje, estou bem e o coração está 100%. É uma experiência que eu levo para sempre

France Caetano

O estudante de farmácia incentiva e muito a doação. Ele afirma que o ato é nobre e deve ser sempre divulgado. “Um órgão faz a diferença. Se tivesse mais consideração de um ser humano com o outro, não teria uma situação de espera tão grande por transplantes. É muito importante ser um doador. Há muitas vidas que precisam”, conclui France.

Esperança renovada

A administradora Juliana Parlot se recorda do dia que fez um de seus transplantes: o de rim (Foto: Karen Benício)

Um rim e um pâncreas. A necessidade de dois órgãos na vida da administradora Juliana Borlot, 34, nunca foi ou ainda é capaz de a deixar abatida ou sem esperanças. “Minha fé é imensurável. Eu encaro tudo numa boa. As pessoas me falam que sou forte, mas é fé”, enfatiza.

Tudo isso começou por causa da diabetes herdada pela hereditariedade familiar. A doença começou a atacar os rins e prejudicar o funcionamento correto desses órgãos. Em outubro de 2018, após a realização de hemodiálise por 1 ano e 3 meses, uma mudança ocorreu. Um primo de Belo Horizonte, lugar também que o procedimento foi realizado, decidiu testar a compatibilidade e, dando positivo, resolveu doar para Juliana. “Tenho outra vida. Só de não depender mais da máquina, tudo melhorou”, afirma.

E isso só foi o começo. Juliana, nesse ano, precisou entrar na fila de um pâncreas em São Paulo para que a diabetes não possa prejudicar o novo rim. Mas, três meses depois, precisamente no dia 4 de agosto, o telefone tocou e uma boa notícia veio trazer ainda mais esperança para a administradora.

Viver já é um risco. Se posso me arriscar para ter mais qualidade de vida, não há motivos para não fazer um transplante. Tive que até abrir mão de engravidar para entrar na fila do pâncreas. Por isso, estamos na fila de adoção. Agora, esperamos o nosso futuro filho ou nossa futura filha

Juliana Porlot

O marido de Juliana, o servidor público Marcos Rogério Machado, 34, tem um relacionamento com ela já há 1 ano e 7 meses. Ele vivenciou parte do problema da esposa e afirma que o companheirismo é fundamental e um dos pilares do casamento nesses momentos de luta e superação. “A nossa função em uma situação dessa é com certeza dar apoio e estar sempre junto, pois sabemos que não é nada fácil. É muito complicado, mas ela é muito guerreira”, evidencia o servidor público.

Ainda, a Juliana acredita que a doação de órgãos é um ato importante e de amor. “Seja um doador. Lembre-se que uma pessoa pode salvar várias vidas. Não custa nada, não dói. Mas sim, nos torna seres mais abençoados e iluminados”, relata.

Foto de Destaque: Matheus Metzker

Posted by:Matheus Metzker

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