Karen Benício e Matheus Metzker

O tempo passa, mas a hora não chega. Essa é a visão que pacientes cadastrados na fila de espera por um transplante de órgãos têm da vida. A angústia – nem sempre a melhor amiga – está presente para vencer a esperança. Contudo, em meio a tanto sofrimento, existem aqueles que ainda não desistiram de lutar.

Na terceira matéria da série especial sobre o tema Doação de Órgãos, você confere as histórias de resistência de Valquíria Ribeiro e Eduardo Fernandes, duas pessoas que esperam pela oportunidade de reviver. Antes de começar a ler, confira as duas primeiras matérias: “Demora e sofrimento: o órgão que não veio” e “Nova chance: a satisfação de receber um transplante”.

No Brasil, até dezembro de 2018, 32.716 pessoas foram inseridas na fila de espera. Desse total, 21.962 aguardavam pelo rim, seguido da córnea (8.574). Os dados são Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). Já no solo Espírito-santense, segundo a Central Estadual de Transplantes, 1.216 pacientes estavam inscritos para receberem um órgão até agosto de 2019, sendo que 963 precisam de rim; córneas, 218; 31, fígado; e 5 de coração.

Apesar dos números serem altos, o Estado tem desenvolvido campanhas e capacitado profissionais para aumentar as doações. Nesse ano, já foram realizadas mais de 300 cirurgias. “A Central de transplantes promove campanhas e divulga na mídia a importância e a necessidade de doações. Além disso, acompanha os hospitais e realiza outras ações que colaborem para que se tenha um aceite da família”, declara a enfermeira e coordenadora da Central Estadual de Transplantes do Espírito Santo, Maria Machado.

Enfrentamento

Participar da fila de espera é somente um detalhe dentro do completo contexto de mudanças de hábitos. Um paciente, ao constatar que o transplante é a única maneira de sobreviver, enfrenta ainda a perda da saúde e a qualidade de vida, reeducação alimentar e restrições de lazer. Por isso, ter o acompanhamento psicológico é primordial para mediar os conflitos internos e ter a conscientização da realidade.

A psicóloga Maria Silvina Fiorezi orienta que os amigos, familiares e a própria equipe médica também precisam estar presentes no processo de enfrentamento da doença.

Tanto a família quanto os amigos precisam dar apoio e auxiliar o doente para que ele esteja preparado para enfrentar a espera. É um processo que exige cuidado, amor e compreensão. O paciente precisa entender que as orientações da equipe médica são necessárias para o sucesso do transplante. O mesmo é válido para os profissionais da saúde

Maria Silvina Fiorezi

Questionada sobre as maneiras corretas de agir diante de uma pessoa que se encontra nessa situação, Silvina explica que a humanização precisa estar presente no tratamento. “É necessário enxergar a pessoa além da doença que ela porta”, afirma.

Histórias

Há 11 anos fazendo hemodiálise – procedimento realizado por uma máquina para filtrar e retirar as toxinas do sangue – e cadastrada para receber um transplante de rim, a técnica em saúde bucal Valquíria Ribeiro, 52, vê em Deus e nos animais de estimação motivos para continuar viva. Ela foi diagnosticada com insuficiência renal crônica causada pela má formação dos órgãos que não se desenvolveram juntamente com o restante do corpo.

Em 1989, sofreu as primeiras perdas. Em 2007, a segunda. Hoje, descrente, tenta alimentar a esperança de conseguir a terceira. “Nunca descuidei dos remédios ou da alimentação e foi um processo natural. Fui perdendo vitaminas, proteínas e, por fim, o órgão. Se eu não rezar, a minha vida acaba. O tratamento é sofrido e deixa marcas físicas e psicológicas”, conta emocionada.

Valquíria Ribeiro vê na fé e no animal de estimação os motivos para continuar lutando pela vida (Foto: Karen Benício)

Dependente da máquina, Valquíria lida com uma série de limitações. Dentre elas, a solidão e a dependência. Ela quase não sai de casa porque adquiriu enfraquecimento dos ossos e, consequentemente, teve a mobilidade reduzida. Também não recebe visitas porque, segundo ela a família está ocupada.

Estou debilitada e não queria chegar nesse ponto. Não posso viajar e passo a maior parte do tempo sozinha. Todo mundo tem os compromissos. A primeira coisa que gostaria de fazer, caso consiga outro transplante, é viajar

Valquíria Ribeir

Semelhante a história dela, o aposentado Eduardo Fernandes, 60, descobriu a cirrose (doença crônica no fígado) ao fazer o exame demissional de uma empresa em setembro de 2015. Não sentia dores, mas estava cada vez mais inchado e com a pressão alta. Após tentativas falhas de curar a doença com medicações, entrou na fila de espera por um transplante de fígado, onde está há 3 anos. “A cirrose tira as forças do meu organismo e faz com que eu não possa fazer simples tarefas do dia a dia, como correr ou pegar peso. É difícil ter uma vida normal, pois tudo é limitado para mim”, desabafa.

Eduardo Fernandes têm a esposa como um dos principais alicerces para lidar com a fila de espera de transplante de fígado (Foto: Matheus Metzker)

Eduardo costumava jogar futebol com os amigos nos finais de semana e, após a partida, tomar cerveja. Mas teve que readaptar os hábitos porque, segundo a médica, ele corria o risco de morrer. Hoje, procura em Deus forças para continuar vivo.

A esposa de Eduardo, Andréa Lima, acompanha e incentiva o marido nas visitas aos médicos e no dia a dia no enfrentamento da enfermidade. A dona de casa tem esperança no futuro e acredita que a ligação sobre o transplante pode acontecer em breve. “Seria ótimo e uma sensação de liberdade, já que traria a possibilidade de Eduardo voltar ao normal e executar tudo aquilo que ele tem limitações e não consegue fazer. Desde de sair da área de Vitória para poder viajar e ir para lugares de maiores distâncias ou mesmo tomar menos medicações”, espera com fé a dona de casa.

Foto de Destaque: Karen Benício

Posted by:Matheus Metzker

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