Diogo Cavalcanti

Lixo para alguns, subsistência para outros. Quando caminhões despejam os resíduos da cidade no vazadouro de Itaoca, no Rio de Janeiro, centenas se aglomeram como formigas em busca de açúcar. Contudo, em vez de insetos, humanos. Famílias fazem do lixão a principal forma de sustento. Tudo é recolocado no ciclo de consumo: desde latas de refrigerante para venda, a roupas para se cobrirem. Porém, o que mais choca é a corrida pelo alimento. Homens e mulheres, jovens e idosos, humanos e detritos. Nela, todos se misturam. Com enxadas escavam o lixo vorazmente, como mineradores de pedreiras férteis em busca de ouro.

Esse é o cenário tratado em “Boca de Lixo”, Documentário de Eduardo Coutinho: um dos maiores documentaristas do mundo e, seguramente, o maior do País. Segundo William de Oliveira, Professor do Centro Universitário FAESA, Coutinho dava vozes, produzia o documentário participativo, já que se envolvia com a equipe na produção, não se importando em integrar diretamente a cena, em fazer parte dela.

Eduardo Coutinho (ao centro) participa ativamente do documentário (Foto: reprodução)

Lançado em 1994, a produção retrata parte da vida de catadores que sobrevivem do lixo. À margem da sociedade, constroem laços em um ambiente que é esquecido até pelos produtores de conteúdo. Estudo das Organizações das Nações Unidas (ONU) entitulado Solid Waste Management destaca que, por ano, 11,2 bilhões de lixo sólido são coletados em todo mundo. Afinal, o que há em um lixão além de lixo? Histórias.

Coutinho nos deixou um legado de excelentes documentários e sabia que o bom filme estava em todo lugar. Não tinha medo de mudar de lugares, de rumos e sabia muito bem o que fazia

William de Oliveira

No início, a equipe foi repelida pelos presentes. Mãos nos rostos, gestos proibitivos, recusas. Aos poucos, Coutinho conseguiu a aceitação desejada após lhes mostrar fotos tiradas, em preto e branco, pela produção, dos próprios catadores. Foi o início de boas conversas.

Com as mãos sujas, a catadora folheia registros fotográficos e de textos encontrados no lixo (Foto: reprodução)

Cinco pessoas concederam entrevistas com maior destaque. Os diálogos tinham início no lixão e fim na casa de cada entrevistado. Com isso, foi possível conhecer o viés humano dos participantes. Advindos de locais desinteressantes para a maior parte da sociedade, demonstraram impressões sobre a vida, bem como o que os fizeram chegar até lá.

Alguns, inclusive, afirmaram preferir ser catadores do que trabalhar em casa de família. Lúcia, ex cortadora de cana, deixa as filhas com uma amiga para poder trabalhar. “A gente precisa daquela lixeira, pois achamos roupas boas, calçados bons. O que não serve para o rico, serve para o pobre. E para nós aquilo é útil”, declara a catadora.

O Brasil tem por volta de 3 mil lixões segundo relatório da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Por lei, todos os lixões do Brasil deveriam ter sido fechados até 2014, prazo dado pela Política Nacional dos Resíduos Sólidos.

Outro personagem destacado foi Enock, um simpático e ativo idoso. Ele destaca a vasta experiência que adquiriu em outros estados, ora no Amapá, ora no Rio Grande do Sul. Atuou, aliás, na construção de cidades, como operário. Somente nesse vazadouro, trabalha há 4 anos. Apesar da aparência desgastada, conta que não consegue ficar muito tempo longe da atividade. “A gente sente falta. Tem que vir nem que seja Domingo, mas tem que vir”, revela Enock.

Enock concede entrevista, compartilha experiências e não consegue ficar longe da atividade de catador (Foto: reprodução)

O documentário expõe que, embora haja alimentos em decomposição, seringas a céu aberto, há um clima de cooperação entre os catadores: uma comunidade. Ao revés do que o Estado concede, conseguem sorrir, demonstrar garra, tirar o sustento, enfim, pensar no futuro. Uma vida com cujas condições seria, para muitos, praticamente, impossível viver. Mas é o que lhes resta. Esquecidos pelo Governo, pelas promessas, pela legislação. Nascidos na pobreza, têm a certeza de que nela permanecerão, contudo, dignamente. Aliás, consumir sobras não constitui crime.

Ao final, Coutinho apresenta o documentário para os catadores (Foto: Reprodução)

Ao final, como de costume em suas obras, Coutinho apresenta, em um televisor preto e branco posicionado em cima de uma kombi, o resultado: o documentário pronto para as testemunhas do descaso, para os grandes atores da trama que, maravilhados, apreciam as imagens. Com que olhar enxergaram a película? O que sentiram ao se perceberem analisados? Documentário altamente recomendado.

Publicado por:Diogo Cavalcanti

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