Pedro Pimenta

O escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco define o belo como algo que é considerado universalmente bom. Entretanto, o autor também explica em seu livro “A História da Beleza” que o conceito do belo e da própria beleza foram modificados com o passar do tempo. Um exemplo claro é a concepção de beleza renascentista, época em que as mulheres acima do peso eram vistas como privilegiadas, em uma posição de poder e nobreza.

Essa concepção contrasta com a atual que, mesmo com a existência de movimentos que reforçam a subjetividade da beleza, o padrão moderno de algo belo está nas modelos magras e altas, como as presentes nos desfiles da “Victoria’s Secrets”.

Durante a história, diversos parâmetros foram usados para definir beleza. No renascimento a fartura e a riqueza eram sinônimos de perfeição. Já na Grécia Antiga e na Idade Média, a religião era o parâmetro central. Para os gregos, os corpos considerados esbeltos eram os que possuíam uma simetria perfeita, padrão que se assemelhasse aos deuses (Apolo, Afrodite, Poseidon). Uma curiosidade é que foi dessa concepção que surgiu o termo “Deus Grego”.

No medievalismo, o professor de filosofia Ricardo Silva explica que a ideia de perfeição era oposta à grega. O cristianismo pregava a castidade ao contrário do culto ao corpo humano que a antiguidade reverenciava.

Na Idade Média era pecado mostrar o corpo, tanto do homem quanto da mulher. Era preciso manter a aparência dos santos. A beleza era medida pelas virtudes religiosas

Ricardo Silva

Quem também pregava a ideia de virtudes religiosas como sinônimo de beleza era o teólogo e filósofo Agostinho de Hipona, popularmente conhecido como Santo Agostinho. Para Santo Agostinho, os principais sentidos humanos, visão e audição, são capazes de presenciar a beleza. Contudo, a manifestação do que é belo só existe por meio da verdade e da bondade, o que liga aos valores cristãos. Ele afirma também que o físico existe, mas as maiores manifestações de beleza, são por meio dos bons atos, dos valores e virtudes cristãos.

O filósofo e teólogo Santo Agostinho afirma que o significado da beleza vale mais que ela em si (Foto: Reprodução/Internet)

Psicologia

A história mostra a evolução do conceito de belo, mas a beleza é subjetiva a cada um. O que uma pessoa pode considerar uma face, algo próximo da perfeição, outro pode acreditar ser o mais desinteressante dos rostos. De acordo com a psicóloga Ivilisi Soares Azevedo, a beleza é construída socialmente, em grupos, lugares e em tempos diferentes.

O belo varia de pessoa para pessoa. Tudo isso depende do grupo em que ela está inserida

Ivilisi Soares Azevedo

Mesmo em concordância em relação aos padrões de beleza variarem com o tempo e a geografia, a psicologia discorda da filosofia sobre a real definição do belo. A psicóloga afirma que a psicologia vê a beleza na forma em que nós nos relacionamos com o mundo e na forma em que nós nos relacionamos com nós mesmos.

Isso acaba que não tem relação com formas e arranjos. Então, a psicologia vê a relação do belo entre o que eu penso, eu sinto e eu me coloco diante do mundo e como eu estou nesse mundo

Ivilisi Soares Azevedo

Beleza no cotidiano

Um dos contos mais antigos que se é contado para as crianças é o da “Bela e a Fera”. Uma jovem que se apaixona por uma fera monstruosa, o que revela que o belo não é apenas uma concha protetora exposta socialmente. Essa ideia, de beleza ser mais que a aparência, tem se propagado na contemporaneidade.

Foto de capa do filme “Bela e a Fera” (Foto: Reprodução/Mubis)

A universitária Victória Singui mudou a percepção do belo com o tempo. Enquanto antes, pensava que a aparência e o visual eram as únicas coisas que importavam. Agora, tem como noção que a beleza é um conjunto de sensações que vão desde o palpável e o visível, até sensações e sentimentos.

Acho que, para mim, a beleza está muito mais ligada ao sentir do que ao ver. Claro que tudo o que atrai nosso olhar chama atenção. Mas sem o sentimento, nada é tão ‘belo’ como deveria ser

Victória Singui

A visão de Victória se aproxima a ideia de beleza que Platão pregava. Para o filósofo, há dois mundos: o mundo físico e o mundo das idéias. O físico era o que todos nós presenciamos diariamente. O das idéias é definido como o ideal, como o perfeito e verdadeira. Para Platão o belo é isso: a verdade, as sensações, não só o carnal, mas, também, no vocabulário da estudante, os sentimentos.

Já o discípulo de Platão pregava uma ideia diferente, sendo matemático. Aristóteles afirmava que o  belo era um efeito colateral da simetria. Ele afirmava que a beleza é apenas externa e só existe graças a uma simetria aritmética. A universitária Daniela Esperandio conta que segue ideia de Aristóteles e tem uma visão mais objetiva de beleza.

Beleza para mim é o que está na parte externa. Então, a aparência de uma pessoa, de uma obra de arte, algo externo do que a gente vê, é beleza para mim

Daniela Esperandio

Opinião

Já este que vos escreve, transita entre as diferentes ideias apresentadas durante o texto. Como o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau pregava: “O ser humano é um fruto de seu meio”. Assim, a concepção de beleza consegue variar entre os tipos de pessoas e sociedades.

Outros pensadores que levo em consideração são David Hume e Immanuel Kant. Eles afirmam que o gosto é subjetivo. Kant faz esse comentário direto no livro “A Crítica do Julgamento” e afirma que o belo não está relacionado a figura em si, mas ao nosso juízo sobre algo. Ou seja, o belo não está no externo, mas na nossa interpretação de algo. A beleza não está no que vemos, mas na forma em que enxergamos.

Então, acaba que a conclusão que tenho ao final do texto é: que não existe um padrão e uma concepção. Há apenas elementos sociais que nos fazem enxergar algo como belo e atraente. Assim, transformam o belo em uma concepção social.

Edição: Andressa Alves/ Núcleo de Jornalismo

Foto do destaque: Reprodução/ Nova Escola

Publicado por:Andressa Alves

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