Tony SilvaNeto

“Entre quatro paredes” é o termo usado pelas pessoas quando querem se referir aos mistérios do relacionamento familiar dentro de casa. É justamente no lar que a paz pode desaparecer. É a Escravidão Mental e da Alienação Parental. Dramas familiares que, em muitos casos, acontecem silenciosamente e fazem de reféns os indivíduos, nas “teias do medo”, da repressão e da ameaça. Violências não físicas, porém danosas para os diversos aspectos do ser humano. Às vezes, geram sequelas pelo resto da vida. Há pessoas que nunca ouviram falar em “violência psicológica”, enquanto outras, preferem negar. Contudo ela está presente na atual sociedade.

Há pessoas que não relatam o fato ou, quando falam, são desconsideradas. Vizinhos dizem que não sabem, amigos “fecham os olhos” e, até mesmo, os pais se omitem. O princípio popular de “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, pode se transformar em “quem não escuta cuidado, escuta coitado”, ou seja, uma relação perigosa pode acabar em tragédia.

O medo é o “bicho-papão” que faz as vítimas se calarem. A angústia, a ansiedade, os problemas psicossomáticos e os transtornos mentais podem ser heranças no íntimo do ser humano. A Escravidão Mental e a Alienação Parental são os temas da reportagem.

Escravidão Mental

Em um relacionamento de quase 19 anos, uma profissional de saúde, que prefere não ser identificada, viveu um dos momentos mais tenebrosos da vida, quando chegou, inclusive, a perder a própria liberdade. A convivência até os 7 primeiros anos do casamento, apesar dos ciúmes do companheiro, foi boa. Após o período, a vítima se viu em uma situação semelhante ao cárcere privado, ao ser possibilitada a sair, apenas, para trabalhar e frequentar a igreja.

O casamento complicou, segundo ela, após o companheiro tornar-se viciado em drogas e álcool, revelando-se uma pessoa cada vez mais agressiva e possessiva. Ela conta que, sob efeito alcoólico, a transformação era grande e precisava, inclusive, se trancar no quarto com as filhas, pois tinha medo de sofrer agressão.

Independentemente do marido estar sob efeito do álcool ou drogas, as agressões verbais e o ciúme obsessivo eram constantes (Foto: Giphy.com/Emma Darvick)

Não dá para contar as inúmeras vezes em que ele me ligava de madrugada querendo saber onde eu estava, mesmo tendo ciência de que, naquele momento, eu trabalhava

Vítima de relacionamento abusivo

Após as cenas de ciúme doentio, começaram as ameaças. Ela conta que era ameaçada caso o largasse ou fosse embora para a casa dos pais. Os filhos do casal e a família também seriam vítimas, caso ela saísse do local onde moravam juntos.

Ele me dizia que se o largasse, me mataria juntamente com as crianças e, se fosse embora para a casa dos meus pais, colocaria fogo na casa com todos dentro. Era horrível

Vítima de relacionamento abusivo

A profissional tornou-se prisioneira dentro da própria casa. Não podia ter amigos. Não tinha, sequer, liberdade para atender o telefone fixo, que era motivo para o marido achar que estava fazendo algo de errado. “Eu não podia ter amizades. Por várias vezes, no auge da loucura, tive que dormir na mesma cama e com um revólver carregado debaixo do travesseiro dele”, revela.

Prisioneira do lar, não tinha, sequer, liberdade para atender ao telefone (Foto: reprodução/Pexels)

Durante a declaração, ela compartilhou outros aspectos do drama pessoal que viveu junto ao marido, em um desabafo:

Por duas vezes fui estuprada. Nessas duas ocasiões, ele tinha bebido muito e usado bastante droga. Por mais que eu lutasse para que aquilo não acontecesse, ele era mais forte e eu não conseguia evitar. Vivendo todo esse inferno na minha casa, eu não podia ou melhor, eu não tinha coragem de contar isso a ninguém

Vítima de relacionamento abusivo

A situação em que o casamento chegou só teve fim quando o companheiro foi preso. Conforme ela, um mal necessário. Ela saiu para morar com os pais e foi neste momento que a família soube de tudo que a vítima passava. Assim, ela adquiriu a independência e a liberdade que nunca havia possuído.

Após todos os fatos ocorridos, alcançou um final feliz. Ela conseguiu dar a volta por cima. “Hoje, minha vida é outra. Falo com quem eu quero, tenho amizades com quem eu quero, tenho liberdade para ir e vir. Tomo minhas decisões sem precisar da aprovação de ninguém. Voltei a estudar. Não quero outra vida”, comemora a profissional.

Nunca julgue uma pessoa que passa por uma situação dessas. Só sabe o que é isso quem vive o problema

Vítima de relacionamento abusivo

Legislação

Quais são as alternativas para libertar uma pessoa da “escravidão mental”? A questão legal é o recurso necessário para devolver o controle sobre si mesmo. O fundamental é o respeito e, na ausência, os limites ficam tênues entre a “briga de casal” e o crime.

O artigo Art. 7º, II, da Lei 11.340, de 07 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha) apresenta: “a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.

Quais são as alternativas para libertar uma pessoa da “escravidão mental”? (Foto: kimono/ Pexels )

O mesmo dispositivo legal determina: “a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.

Alienação Parental

A Alienação Parental não está apenas ligada à falta de lucidez quanto às consequências para o próximo e para a criança envolvida. Contudo, o termo também se refere a pessoas que somente pensam em si próprias. O fato acontece dentro do contexto familiar e, progressivamente, ganhou proteção no Brasil após aprovação de legislação que coíbe tal atitude.

Segundo o Art. 2º da Lei 12.318 de 26 de agosto de 2010 é considerado ato de alienação parental: “a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este”.

Na dor, se recusam a enxergar o sofrimento alheio e mergulham na vingança (Foto: PublicDomainPictures/Pexels)

O fato citado pode ser exemplificado pela situação em que uma das partes não aceita amigavelmente o término da relação e, de forma proposital, desqualifica a imagem do ex-cônjuge para os filhos, utilizando-se destes para castigar psicologicamente o ex-parceiro.

Um funcionário público que não quis se identificar, relatou o ocorrido em sua vida pessoal: “Minha ex-esposa dizia, desde o começo de nossa separação, ao meu filho que eu não o amava, . Ele ficava chateado e não acreditava nela”, conta o funcionário.

Ele chegou a ser internado com depressão antes de se separar. “Eu pensava que minha família estava destruída e sofria muito com isso, pois não foi o que planejei para minha vida. Eu era covarde para me matar. Então, me enchi de remédio para dormir”, afirmou o servidor.

Questionado sobre o medo, ele nos respondeu. “Eu só queria viver longe dela porque ela me fazia mal e me induzia a perder a paz. Meu medo sempre foi meu filho sofrer com minha presença perto dela, mas, também, dele sofrer com minha ausência parcial. Eu tinha que escolher uma coisa ou outra”, contou-nos.

Denunciar a justiça é uma saída nestas situações, perguntamos porque não fez. “O amor de pai é muito importante, mas o amor de mãe é superior. Eu não queria magoar a mãe dele, pois ele se sentiria infeliz”, disse.

Os anos passam e as pessoas envolvidas em situações semelhantes a essas continuam sendo subjugadas e ficam em silêncio. Como sair de uma trama deste tipo? Ele responde. “Eu não sai. Filho é para o resto da vida. Ele sempre vai estar em meu coração e em minha mente, mesmo que ele, hoje, me machuque muito não entendendo os meus motivos e sofrimentos”.

Foto de destaque: Sonnenstrahl/Pexels

Edição: Diogo Cavalcanti

Publicado por:Diogo Cavalcanti

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