Matheus Metzker e Sabrina Heilbuth

O Espírito Santo, dentro do Brasil, não é o Estado preferido dos imigrantes como novo destino de vida, já que as grandes capitais do País acumulam um maior número de estrangeiros que o território capixaba. Apesar disso, é possível ver uma parcela significativa de variadas nacionalidades se fixando na região da Grande Vitória.

Nesta segunda reportagem multimídia da série especial “Imigrantes no ES”, descubra a história da recepção da imigrante canadense Jessica Clements no Estado: como ela foi tratada e as respectivas percepções em relação à população capixaba quando o assunto é acolhimento. Antes, vale a pena conferir a reportagem que abre a série especial: “Um novo lugar para chamar de casa”.

Espírito Santo é um dos Estados escolhidos por imigrantes no Brasil (Mapa: Governo do Espírito Santo)

Para o sociólogo Jaime Doxsey, 76 anos, alguns fatores contribuem para a permanência do imigrante no lugar em que escolheu para viver.

Depende muito do local, da religião e das reações da população. Permanece o imigrante à medida em que se adapta, encontra sobrevivência e algum nível de aceitação

Jaime Doxsey

A aceitação, nesse processo de entrada de novas pessoas, se faz principalmente no acolhimento, um ato que se assemelha a estender uma mão, ou seja, notar que o outrem precisa de algum tipo de ajuda. Assim, a acolhida é o que pode lançar as primeiras impressões, sejam elas positivas ou não, nos olhares de um imigrante adentrando a um país com aspectos culturais bem diferentes do local de origem.

É possível ver o acolhimento brasileiro por meio de dados. Isso porque um levantamento feito pela consultoria Gallup em 2018 e divulgado pela Organização Internacional para as Migrações (OIM), foi comparado o grau de aceitação a estrangeiros em 139 países. A receptividade foi medida em uma escala de 0 a 9. O Brasil garantiu 6,38 – uma pontuação maior que a média global, que foi 5,29.

Além disso, os 53,6% dos brasileiros participantes da pesquisa viram com positividade as três situações analisadas pelo levantamento: imigrantes vivendo no país, imigrante se tornando vizinho e imigrante casando com um dos seus parentes. No mundo, o percentual não passou de 37%. Mas, segundo a Gallup, os países com menos proporção de imigrantes geralmente apresentaram maior aceitação a eles. É o caso do Brasil, em que os estrangeiros representam menos de 1% da população.

Comércio

Todo o acolhimento pode começar já no tratamento de comerciantes com os estrangeiros. Uma forma de mostrar que ele será bem atendido, que terá todo suporte necessário em uma compra e encontrará pessoas aptas a responder dúvidas, fornecer indicações ou até dicas de lugares para serem visitados.

A Associação das Paneleiras de Goiabeiras, localizada em Vitória, é um dos lugares que mais recebem pessoas de fora do Espírito Santo. No local, são confeccionadas panelas de barro para a produção de pratos gastronômicos, geralmente de frutos do mar, como a moqueca capixaba.  Por todo valor cultural e ser tombada nacionalmente como patrimônio imaterial, a Panela de Barro é um dos mais fortes símbolos do Espírito Santo.

As tradicionais Panelas de Barro na Associação das Paneleiras de Goiabeiras (Foto: Matheus Metzker)

A presidente da Associação das Paneleiras de Goiabeiras, Berenice Corrêa, 61 anos, explica que o galpão das Paneleiras sempre está na rota de visitação de imigrantes, sejam eles turistas ou novos moradores do Estado. “Receber imigrantes no galpão para a gente é maravilhoso. A mesma atenção e educação com que tratamos os brasileiros, acontece com os imigrantes. Eles saem do galpão sempre satisfeitos e conhecendo sobre esse bem capixaba e o nosso trabalho”, conta a paneleira.

Aprendizados

Não apenas o comércio precisa cooperar no acolhimento, mas, também, as pessoas no próprio dia a dia durante o contato com algum imigrante. A pedagoga canadense Jessica Clements, 25 anos, mora há 5 anos na capital capixaba e conheceu pessoas que ajudaram muito bem nesse processo.

Jessica veio ao Brasil pelo amor. Ela encontrou o brasileiro Maikeu Locatelli, 30 anos, em um intercâmbio na Inglaterra, em 2013, e desde a época começou um relacionamento sério até virar casamento. A pedagoga decidiu viver no Brasil e se fixar na capital capixaba, estado do Maikeu, que nasceu na pequena cidade de Rio Bananal.

A canadense Jessica e o marido brasileiro Maikeu aproveitando a neve no Canadá (Arquivo Pessoal)

Nos primeiros meses, o casal dividiu um apartamento com uma amiga de Maikeu, a Larissa, e, em seguida, a Natália se juntou ao trio. Tal vivência em grupo de quatro amigos foi um momento fundamental de desenvolvimento de Jessica no novo país. “Fui bem acolhida pelas pessoas e recebi ajuda até me adaptar”, diz a imigrante canadense.

Em toda essa fase de adaptação, a primeira barreira sentida foi a língua. Jessica tinha medo, por vezes, de falar devido ao medo de errar. Mas a pedagoga conta que, por já dominar dois idiomas (inglês e francês), soube superar tal questão com as vivências do dia a dia e, por isso, o português se tornou cada vez mais fácil.

Já como segundo empecilho, segundo Jessica, está o olhar dos capixabas diante do diferente. “Os capixabas têm a mente um pouco fechada e não estão tão acostumados a conviver com pessoas de fora. Se eu vou a uma loja e as pessoas percebem que sou canadense, eles me tratam de forma diferente, não como se fosse igual”, relata.

Jessica Clements segurando um produto típico do Canadá (Foto: Sabrina Heilbuth)

Apesar de algumas dificuldades no Estado, a canadense vê o Espírito Santo como um lugar agradável pelas variadas praias e belezas naturais. Além disso, para ela, morar fora do país de origem é um contínuo aprendizado.

Eu acho que todo mundo deveria passar essa experiência de morar fora, seja por seis meses ou um ano. Você cresce de uma forma que qualquer trabalho ou qualquer outra coisa não vai te trazer. É um crescimento pessoal tão grande que você encontra a sua identidade

Jessica Clements

Jessica não se arrepende de ter vindo ao Brasil. Mesmo assim, pretende voltar ao Canadá, lugar no qual está perto da família e amigos. Hoje, ao relembrar do passado, ela nota quais são as características necessárias para se tornar um imigrante.

Uma verdadeira amizade

A estudante de jornalismo Natália Vicente, 33 anos, relata que a vontade dela de recepcionar e mostrar a essência do Brasil e do Espírito Santo foi com a intenção de ajudar a Jessica a entender toda as particularidades que não eram sabidas pela imigrante.

Ela acredita que, em um convívio social, é preciso ter respeito e compreensão, especialmente quando se trata de laços culturais. E na amizade com a canadense isso não faltou.

Mesmo a Jessica se deparando com uma realidade diferente, ela se mostrou interessada em entender o que acontecia. Ajudamos nesse processo de entendimento e, com isso, ela teve a noção de como é o Estado de verdade. É uma experiência e troca linda

Natália Vicente

A estudante tem ainda a convicção de que o amor é capaz de facilitar todo tipo de aproximação. “A linguagem do amor é universal e une as pessoas independente de onde elas estejam, da cor, gênero ou como elas são”, conclui Natália.

Natália Vicente segurando fotos com a amiga Jessica. Recordações alegres de uma amizade que nasceu pelo acaso (Foto: Matheus Metzker)

“IMIGRANTES NO ES”

FOTOGRAFIA DE DESTAQUE

Sabrina Heilbuth

FOTOGRAFIA DA ARTE

Zanete Dadalto

EDIÇÃO DE ARTE E FOTOGRAFIA

Luisa Nassur / LACOS

CONTEÚDO AUDIOVISUAL

Acácio Rezende

Isabella Arruda

Mylena Valim

EDIÇÃO DE VÍDEO

Sabrina Heilbuth

ORIENTAÇÃO

Valmir Matiazzi

FINALIZAÇÃO

Matheus Metzker

Publicado por:Matheus Metzker

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