A pandemia oculta: o impacto da COVID-19 na saúde mental

Gabriela Grillo e Vinícius Antunes

O isolamento social, a incerteza do futuro, o medo de contrair e transmitir o vírus e as mudanças radicais no estilo de vida são alguns dos principais impactos trazidos pela pandemia do novo coronavírus em todo o mundo. As pessoas precisaram se adaptar a uma nova realidade praticamente de um dia para o outro e, essa necessidade de ações drásticas e imediatas, refletiu e continua refletindo diretamente no estado psicológico de cada uma delas. Um misto de pensamentos e emoções passou a fazer parte do cotidiano, o que tem gerado cada vez mais estresse e ansiedade.


Dados inéditos fornecidos pelo Google ao Estadão apontam alta de 98%, em relação aos últimos dez anos, nas buscas sobre o tema transtornos mentais em 2020. “Como lidar com a ansiedade” foi a pergunta recorde de interesse da última década. Em relação a 2019, o crescimento foi de 33%. De acordo com o Google Trends, somente nos seis primeiros meses deste ano, a busca por atendimento psicológico no Google foi três vezes maior que a de 2015. Na semana de 29 de março a 4 de abril de 2020 – quando a maioria dos estados brasileiros já havia decretado quarentena – as pesquisas por esse tema chegaram a 88%.

Imagem: Divulgação/Jornal do Campus

Para a psicóloga Mariana Lanza, 32 anos, a pandemia é uma situação atípica para a geração atual e tem afetado diretamente o emocional dos indivíduos, dificultando a autonomia e a liberdade, trazendo a tona sentimentos e emoções como solidão, tristeza, medo, angústia e ansiedade. A profissional conta que a demanda por atendimento aumentou muito neste período e que as principais queixas são as dificuldades para lidar com as atividades em casa – organização, limpeza, alimentação, filhos e trabalho em home office –; conflitos familiares e conjugais devido à convivência 24 horas por dia; desemprego; incerteza de como serão os próximos meses; a revolta por aqueles que não estão cumprindo as normas de isolamento social; e crises de ansiedade e de choros constantes, devido ao esgotamento emocional.

O agravamento de transtornos mentais na pandemia

Pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em maio deste ano, revela que 89,2% dos especialistas entrevistados destacaram o agravamento de quadros psiquiátricos nos pacientes devido à pandemia. Outros 69,3% relataram ter atendido pacientes que já haviam recebido alta médica, mas que tiveram recaída dos sintomas. A psicóloga explica que isso acontece porque, além de ter hábitos que não estão contemplados na rotina, é muito difícil para grande parte das pessoas ter que lidar com o novo e se reinventar para sobreviver.

O técnico em fibra óptica Gabriel Amorim, 22, é um dos milhares de brasileiros que vem sofrendo com o agravamento dos transtornos mentais na pandemia. “Comecei a desenvolver depressão e ansiedade em 2017. Foram anos muito difíceis e quando achei que tudo estava controlado, pois, já me sentia melhor há alguns meses, veio a pandemia e agravou tudo de novo”, conta. Gabriel revela, ainda, que acabou desenvolvendo ataques de pânico durante a quarentena que o fizeram parar no hospital.

Senti falta de ar, boca seca, taquicardia, mãos formigando, pensamentos de morte e muito desespero

Gabriel Amorim, técnico em fibra óptica

Uma pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) analisa as mudanças nos sintomas de ansiedade, estresse e depressão entre os brasileiros na pandemia. Segundo os estudos divulgados até o momento, fatores como desemprego, endividamento e exposição extrema a notícias foram associados aos sintomas das doenças mentais. “Durante os primeiros meses da quarentena, eu estava desempregado, o que aumentou minha ociosidade e me trouxe turbilhões de pensamentos e preocupações. Além disso, os meios de comunicação traziam manchetes com números crescentes de óbitos de uma nova doença ainda sem muitas informações. Esses dois fatores, sem dúvida nenhuma, foram os principais gatilhos para que eu voltasse a sofrer com crises de depressão e ansiedade”, aponta o técnico em fibra óptica.

Aulas a distância e a COVID-19

O modelo de ensino à distância mexeu com o psicológico dos estudantes (Imagem: Ake1150sb/FreePik)

O isolamento social modificou o modo como as instituições de ensino aplicam os conteúdos. O denominado ‘EAD’, ensino a distância, também afetou o psicológico dos estudantes. A FAESA Centro Universitário possui atendimento psicológico e psíquico para os alunos, chamado de Atendimento Pleno. Em 2019, foram 40 alunos atendidos durante todo o ano. Até outubro de 2020 já são 55 estudantes recebendo o apoio psicológico da faculdade, um aumento de 37,5% em relação a 2019.

A pedagoga e coordenadora do Atendimento Pleno, Claudia Gonçalves de Freitas, 36, comenta que no início da pandemia foram feitas intervenções em algumas turmas com a finalidade de conversar com os alunos sobre as consequências do isolamento. “A gente fez uma conversa com os alunos sobre esse momento que estávamos vivendo, as incertezas, a sensação de não aprender e de que a vida parou. O isolamento traz esses sintomas de depressão e ansiedade”, diz Claudia.

Os alunos apontavam que não conseguiam aprender, pois diante desse contexto é muito difícil se concentrar

Claudia Gonçalves de Freitas, coordenadora do Atendimento Pleno

A estudante de Jornalismo Maria Clara Leitão, 23, relatou a sensação com as aulas via internet e de que maneira o psicológico foi afetado. “A pandemia só fez com que as crises, as cobranças impostas ‘a mim mesma’ e o medo do ‘incerto do futuro’ tornassem as cobranças por antecipação cada vez mais frequentes e intensas. Sinto que com as aulas online, os professores, mesmo não tendo culpa, aproveitaram para demandar mais da atenção e tempo disponível dos alunos”, desabafa a estudante.

Claudia alerta que o número de alunos atendidos pelo Acolhimento Pleno pode aumentar ainda em 2020, pois, historicamente, a demanda por essa ajuda cresce no final do ano motivada pelo encerramento do semestre e de ciclos. “Aquelas pessoas que não estão bem em relação a esses fechamentos acabam desenvolvendo alguns sintomas que afetam o psicológico”, afirma a pedagoga.

Home office

A COVID-19 também alterou o modo como as pessoas trabalham. Muitas empresas aderiram ao teletrabalho, também conhecido como home office, para não ficarem completamente paradas durante o período de restrições de funcionamento. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho de 2020, 8,4 milhões de brasileiros estavam trabalhando remotamente, esse número representa 10,3% da população ocupada do Brasil no mesmo período.

O teletrabalho virou rotina na vida dos trabalhadores durante a pandemia (Imagem: Tirachardz/FreePik)

A customer experience Robertha Jureves, 21, está em teletrabalho desde março e relatou que a principal diferença que sentiu nesse modo de trabalho foi a estrutura. Para ela a conexão com a internet e a demora em receber algum suporte são as principais dificuldades. O caos da pandemia, o cansaço e saturação do trabalho fizeram com que Robertha pensasse em recorrer à ajuda psicológica.

No senado tramita o projeto de lei n° 3512, de 2020, de responsabilidade do senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que define as obrigações dos empregadores a respeito do regime de teletrabalho. O projeto planeja que a empresa seja obrigada a fornecer e manter equipamentos e infraestrutura necessária e adequada ao empregado, reguardando a segurança e o conforto do trabalhador. Os equipamentos poderão ser fornecidos em regime de empréstimo e o empregador também terá que bancar as despesas do funcionário relacionadas à prestação do trabalho.

Desemprego

Na penúltima semana de setembro o número de desempregado no Brasil chegou a 14.013 milhões, segundo o IBGE. Os dados ainda revelam que de março a setembro cerca de 4,1 milhões de brasileiros ficaram desempregados, fazendo com que a taxa subisse de 10,5% para 14,4%.

O executivo de contas João Gabriel Almeida da Silva, 21, chegou a perder o emprego por causa da pandemia do novo coronavírus e só conseguiu dar de comer para a filha devido ao seguro desemprego. “Fiquei seis meses em uma empresa de carteira digital. É uma empresa muito boa que batalhei muito para entrar lá. No decorrer da pandemia, a empresa não conseguiu segurar o orçamento e 1,2 mil trabalhadores foram desligados. Pelo fato de ter uma filha, tenho uma responsabilidade gigantesca e foi algo que me cobrou muito”, afirma.

Foram 150 dias dentro de casa e João comenta que até tentou distrair a cabeça com algumas atividades, como música e desenhar, porém, acredita que, mesmo assim, houve sequelas psicológicas. “Não tem como negar que a sequela ficou. Desde ansiedade a um pouco de depressão pelo fato de estar tudo incerto”, relata o executivo de contas.

Agora consegui minha recolocação, mas foi um período complicado

João Gabriel Almeida da Silva

Quatro dicas para cuidar da saúde mental

É importante manter a saúde mental para enfrentar os problemas do cotidiano (Imagem: Valeria Aksakova/FreePik)

É inegável que o atual momento exija cuidados redobrados com a saúde mental. A psicóloga Mariana Lanza destaca que, apesar de o ser humano nunca estar preparado para as adversidades da vida, é fundamental manter a mente saudável para que se consiga enfrentá-las da melhor forma possível. “É preciso conhecer, entender e aprender a lidar com as nossas emoções, sentimentos e comportamentos para que sejamos mais resilientes e, assim, levarmos a vida e os desconhecidos que ela nos impõe com mais saúde e leveza”, completa.

Pensando nisso, a psicóloga separou quatro dicas para cuidar da saúde mental na pandemia. Confira:

  1. Cuidado com o excesso de informações: escolha apenas um horário do dia para se atualizar das notícias. Tenha cuidado com as fake news e verifique a veracidade das informações.
  2. Use a tecnologia a favor: manter contato com amigos e familiares por videochamadas ajuda a aliviar a tensão e a saudade. Relembre bons momentos e dê boas risadas.
  3. Pratique atividades que te faça bem: faça coisas que goste e se sinta bem, como, por exemplo, assistir filmes e séries, ouvir música, ler.
  4. Atenção especial para o sono: se organize para dormir e acordar todos os dias na mesma hora. Lembre-se de descansar pelo menos de 7 a 8 horas por noite.

Como está a sua saúde mental nessa pandemia da COVID-19? Vamos fazer um texto com novos relatos sobre esse assunto. Por isso, responda o questionário abaixo:

>>> Esse conteúdo jornalístico faz parte de uma série de produções feitas por estudantes do 8º período de Jornalismo da FAESA Centro Universitário. As produções tiveram a orientação da professora Marilene Mattos dentro da disciplina de Webjornalismo.

Imagem em destaque: Engin Akyurt/Pixabay

Edição: Vinícius Antunes

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