Diogo Cavalcanti

Pelos mais diversos cantos do Espírito Santo, animais são encontrados sem rumo nas ruas. Vítimas do descaso social. Olhar, lamentar e nada fazer. São as reações de grande parte dos espectadores. Contudo, não é a atitude das cuidadoras. Pessoas com pouco tempo no relógio, porém com bastante coragem e altivez.

A professora de Educação Física e catsitter Daniella Muruce tem os gatos como a principal paixão. O veganismo, inclusive, adveio dessa boa relação. Por trabalhar em uma região do município de Serra na qual os casos de abandono e situação precária são constantes, ela utilizou, em 2012, a oportunidade de palestra oferecida por uma pedagoga e inseriu o tema como forma de conscientização às crianças em escolas. Há oito anos, divulga nas redes sociais o projeto Proanimaes, a partir do qual realiza, gratuitamente, ações em entidades de ensino, eventos e centros comunitários.

A atuação de particulares em conexão com a causa animal tem crescido, principalmente, em virtude dos ambientes digitais, cada vez mais inseridos no cotidiano dos cidadãos. Com poucos cliques, são acessadas inúmeras campanhas de ajuda a desfavorecidos. A impotência causada pelo olhar de um cachorro abandonado e a impossibilidade aparente de defesa, despertam, em muitos, atos de colaboração. São os mais diversos motivos que levam alguém a predispor parte do tempo para ajudá-los.

Daniella salienta que as palestras substanciam a missão das crianças na proteção animal (foto: arquivo pessoal)

A vendedora e mantenedora voluntária de um abrigo de cães e gatos, Bárbara Lopes, afirma ter começado na causa ao salvar, quando criança, um cachorro de ser levado pela carrocinha. Hoje cuida de 34 cães e 75 gatos no abrigo Miaudote. O número cresceu vertiginosamente com a enchente que assolou o Estado em 2013. Pessoas, por terem acesso ao endereço pessoal divulgado por reportagem, abandonaram pets no local: dos, então, 35 animais, a quantia subiu para 100.

As dificuldades de uma cuidadora são inúmeras. O angariar de recursos depende do bom coração de terceiros. Vale ressaltar que os animais podem precisar de tratamento cirúrgico, cuidados específicos com alimentação e medicação.

Apesar das dificuldades, o amor dado é garantido. Fora a possibilidade de consecução de um novo lar para eles mediante adoção

Bárbara Lopes, voluntária em prol dos animais
Bárbara garante que os animais são mais fiéis que os humanos (foto: arquivo pessoal)

A psicóloga cognitivo-comportamental Ester Gouveia salienta a conexão das relações com a história e lado psicológico de cada um. Para ela, o animal na vida de uma pessoa pode ter várias causas. Há aquelas que não sentem a gratidão no ser humano e veem no pet, a garantia de receberem de volta o amor ofertado. Por serem carentes e sedentos de atenção, os animais conseguem ser fiéis e, a qualquer momento, semeam amor por onde passam.

Ester alerta que, por melhor que possa ser a intenção, sempre é bom atentar quanto a possibilidade de patologia nesses atos. Em casos mais graves, desenvolve-se o Transtorno de Acumulação de Animais (Síndrome de Noé). Pessoas, por vezes, deixam de suprir as necessidades básicas para garantirem o sustento dos resgatados.

Quando a cuidadora propicia a chance de adoção e mantém a saúde dos animais, bem como a própria, a chance de quadro patológico é menor. Entramos na alternativa de amor compartilhado e com muita responsabilidade

Ester Gouveia, psicóloga

Aprisionado pelo egoísmo

O estímulo à adoção em detrimento da comercialização de animais é um dos principais pleitos defendidos pelas comunidades protetoras dos pets. A ideia de tratá-los como mercadoria enquanto tantos lutam pela sobrevivência em ruas e abrigos, escancara a lógica do convencimento. Contudo, inflados pela solidão e imediatismo, adotantes por vezes se arrependem da atitude e devolvem os animais ao local de origem. Muitos deles, com sinais de desleixo e violência. É o caso de Zeus, um cachorro Sem Raça Definida (SRD), salvo de afogamento.

A vendedora, protetora animal e responsável pelo resgate, Bárbara Lopes, conta que ele era muito requisitado nas redes sociais quando pequeno. Ela, juntamente com a amiga e também protetora Ana Paula Bonelli, produziu no município de Serra fotos do, então, filhote, com vistas a ampliar o interesse de adotantes em potencial e construir melhor imagem para o cãozinho. A família, para cuja casa ele se destinou, recebeu-o, no primeiro momento, com bastante alegria. Porém, após cerca de um ano, Zeus voltou com sinais de maus-tratos. Após dois anos, quase ninguém se interessa pelo cão adulto, que vive à espera de um novo lar no abrigo de onde saíra.

A palestrante, protetora e professora de Educação Física Daniella Muruce pontua que o conceito de guarda responsável não pode faltar ao ministrar falas para crianças em escolas. O guardião, pessoa que recebe o animal, deve acolher o pet com compromisso. A consciência do tempo médio de vida do animal, bem como dos cuidados em relação à castração, alimentação, vacinação, entre outros, devem ser levados em conta no momento da adoção.

As adoções aumentaram na pandemia, mas o abandono também. A falta de dinheiro, a ignorância quanto o lidar com a possibilidade de coronavírus em pets e mudança de domicílio implementaram os casos.

Daniella Muruce, protetora de animais

O médico veterinário Henrique Cavalcanti Pereira orienta que o lar recebedor do animal deve ser preparado, bem como a consciência do futuro guardião. Animais criados sozinhos, muitas vezes vítimas de violência, podem desenvolver comportamento agressivo, fator que pode frustrar a ideal experiência com o pet. O estágio de adaptação deve ser respeitado, assim como o fato dos animais serem psicossociais, isto é, trazem consigo sentimentos e o prazer de viverem em grupo com as pessoas.

Com o isolamento social, as pessoas têm procurado mais animais para adoção. O mercado de produtos pet foi bastante aquecido nessa época.

Henrique Cavalcanti Pereira, veterinário

Os antigos guardiões de Zeus não tomaram os cuidados citados, mas Bárbara garante que, apesar dele uivar todas as noites com saudade daqueles que o abandonaram, ele tem o que precisa no abrigo. Enquanto uma família de bom coração e possibilidades não o acolhe, ele amarga a espera entre todos os outros de passado sofrido e futuro sonhador.

Serviço:

Para adotar Zeus e conhecer o abrigo Miaudote:

Bárbara Lopes – 27 99231-8088

https://www.instagram.com/miaudoteabrigo/

Para conhecer o Projeto Proanimaes – (Daniella Muruce):

https://www.instagram.com/proanimaes/

https://www.facebook.com/dani.muruce

Foto destaque: reprodução/Facebook

Edição: Diogo Cavalcanti

Publicado por:Diogo Cavalcanti

Um comentário sobre ldquo;Quem ama, cuida

  1. Adorei a matéria, pois mostra claramente a situação dos animais abandonados que esperam por uma família. Só se deve adotar um animal se realmente estiver preparado
    para cuidar, proteger e amar verdadeiramente.

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