personagens femininas conquistam leitores

Ana Paula Brito Vieira e Pedro Ramos

Não é de hoje que o feminismo tem movido campanhas junto à população sobre diversos assuntos e a literatura é apenas um desses assuntos. Várias mulheres nunca se sentiram bem representadas nas histórias, os livros que gostavam carregavam protagonistas masculinos e abriam pouco espaço para a força feminina. Contudo a situação tem mudado e, de pouco a pouco, foram surgindo histórias com fortes personagens femininas que conquistaram leitores, como as sagas Harry Potter e Percy Jackson, que, apesar dos principais artistas serem homens, as personagens femininas roubam a cena com inteligência e independência sempre salvando os mocinhos.

A literatura, então, cada vez mais ganha novos olhares e apresenta mulheres que se destacam, conquistam leitores e servem de inspiração para jovens. Histórias como Mulan, uma personagem asiática, deixam várias jovens se sentindo representadas. É o caso da estudante Letícia Akemi Nakahati Vieira, 15 anos. A jovem tem como a personagem predileta a guerreira Mulan e relata que quando criança não via representações asiáticas nas histórias e sentia falta disso.

Letícia Akemi viu em Mulan representatividade e força feminina (Foto: Arquivo Pessoal)

Era uma história de uma mulher forte. Ela teve de lutar contra todo um sistema para finalmente encontrar o seu lugar. Só que ela precisou salvar um país inteiro para ter seu reconhecimento merecido. Mulan representou para mim algo que é inexplicável. E eu me emociono todas as vezes que vejo o filme

Letícia Akemi Nakahati Vieira

Letícia é descendente de japoneses e, mesmo sendo apaixonada por princesas, não se via sendo uma. Quando encontrou a história sobre a jovem guerreira chinesa que arrisca a própria vida por amor à família e à pátria, ela finalmente entendeu sobre si mesma e o que poderia alcançar. Ela conta que ao ver uma mulher ser segregada somente pelo gênero, mesmo após ter salvo todo um exército, fez com que percebesse que a história era muito mais que a história de uma guerreira que salvava a China.

Ainda que as personagens femininas estejam ganhando seu lugar na literatura, a estudante e estagiária de psicologia Mikaely Regina dos Santos Salvador, 21, diz que muitas pessoas acreditam que mulheres não são capazes de serem personagens principais das histórias, pois não são fortes ou porque acham que não são corajosas. “As mulheres são muitos mais do que os estereótipos criados. Os livros precisam aprender a representam a mulher real e não estereotipada. Falar sobre a luta da mulher em uma sociedade machista é de suma importância”, afirma Mikaely.

Mikaely Regina gosta de ler obras em que ela consegue se identificar com a personagem (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo a estudante, é possível notar que há escritores como Sarah J. Mass, Rick Riordan, Stephanie Garber, Alwyn Hamilton, Mary Pearson e vários outros que colocam a mulher como figura principal do livro, mostrando que a mulher é forte, lutadora e que consegue ultrapassar os limites que a sociedade impõe lutando pelo que deseja. Mikaely acredita que cada vez mais as personagens femininas vão ter destaque em livros, filmes e séries, mostrando uma forma da luta feminina que não existia antes.

Trono de Vidro

Uma das sagas de livros mais famosas atualmente é Trono de Vidro, composta por 8 livros e, a cada livro que passa, a personagem principal vai mostrando que é cada vez mais forte, tem personalidade e sabe quem ela é. Não só isso, mas ela também mostra que tem fraquezas e limitações como qualquer pessoa.

Mikaely relata que já leu livros em que a personagem feminina começa como uma grande personagem principal e com o tempo a escritora vai tirando o brilho dela. “Existem autores que tiram a personalidade e acaba fazendo com que a personagem acabe sumindo do livro totalmente. Já em Trono de Vidro a protagonista nunca perde o foco. Ela vai crescendo cada vez mais, mostrando sua personalidade, seus valores, seus desejos e a escritora acaba deixando cada vez mais nítido o quão importante essa personagem é”, relata.

A saga conta a história de Celaena Sardothien que está em uma batalha pela sobrevivência e ao longo do livros inicia uma jornada para desvendar a origem do mal que está assombrando o mundo dela antes que ele destrua tudo (Foto: Enjoy Books)

Apesar de se sentirem representadas, as jovens temem pelo preconceito e discriminação sobre a mulher na literatura. Para Letícia varia muito o contexto e o público alvo para qual é feita as obras. De acordo com a estudante, obras com público visto como majoritariamente masculino permanecem muito retrógradas em comparação as do público feminino.

Um exemplo bem claro, para a estudante, são mangás e animes. Embora possuam também um público feminino muito alto, como forma de atrair, utilizam de personagens muito sexualizadas e sem personalidade. Na opinião de Letícia esse tipo de ideia ajuda na propagação de um padrão específico e torna esse tipo de obra cada vez menos atrativa para mulheres.

Mikaely, por exemplo, procura livros em que consegue ver uma personagem feminina forte, mas que possui suas limitações, mostrando que é possível lutar suas batalhas, conseguir alcançar seus sonhos, objetivos e metas, mas, também, mostrando que tem defeitos, comete erros e que está tudo bem. Ela relata que gosta de ler livros em que é possível se ver na personagem e se encontrar nela a cada página e, assim, consegue entender o que a protagonista está sentindo e vivendo naquele momento.

A estudante Isabela Wilvock crê que há espaço para que o protagonismo seja dado a personagens femininas (Foto: Arquivo Pessoal)

Por outro lado, a estudante de jornalismo Isabela Wilvock, 20 anos, é uma leitora ativa e relata que atualmente as personagens femininas estão melhor representadas em diversas sagas, mas a imagem delas, na maioria das vezes, está atrelada ao homem e que sente falta de uma independência nas ações, sendo representadas de fato como mulheres fortes e independentes. A futura jornalista diz sentir que há destaque, mas que isso acontece principalmente em obras de autores independentes. Isabela observa que em grandes empresas ainda há a discriminação. “É só olhar grande parte das sagas. Se o livro não for romance, vai ser muito difícil ver um protagonismo de mulheres fortes e independentes”. As plataformas digitais estão com um papel importante. Em algumas redes, as pessoas conseguem levantar tags e assim chamam a atenção das editoras. Além disso, os leitores estão discutindo o que agradou ou não nos livros, abrindo debates. Isabela desabafa que a mentalidade da sociedade e das editoras melhorou bastante e irão aceitar os livros com essa temática feminina.

Sinto que o feminismo é essencial em todos os livros. As mulheres tem que ter mais exemplos na literatura. Personagens fortes inspiram muito, a representatividade ajuda mais ainda

Isabela Wilvock, estudante de Jornalismo

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