Narrativa documentário “O dilema das redes”

Daiane Obolari

Hoje, é fácil não ver o que essas ferramentas criaram. É fácil se encontrar com pessoas que não via há muito tempo, facilitou o acesso ao ensino, isso é ótimo. Entretanto, não se tinha noção dos efeitos colaterais que poderiam ser gerados. Esses ‘softwares’ ganham vida própria e são usados de formas diferentes do que era esperado para elas. Nesse meio, não existe um único vilão. Então, qual é o problema? É impossível apontar apenas um simples.

Atualmente, enfrentamos muitos desses efeitos colaterais, como: a saúde mental ‘versus’ as redes sociais, as ‘fake news’, ciberataques, vício, depressão infantil e cirurgia plástica para se parecer com os filtros são apenas alguns exemplos.

Cena do documentário “O dilema das Redes” (Imagem: Reprodução/Netflix)

As pessoas criaram uma bolha social nas redes a qual não saem mais. A humanidade saiu da era da informação para a era da desinformação. O Google estava mais preocupado com o design dos aplicativos do que no impacto causado, como o vício, explica Tristan Harris, ex-especialista em ética de design do Google e co-fundador do ‘Center for Humane Technology’. Algumas pessoas (designs) decidiam por dois bilhões de pessoas simplesmente por dizerem como as notificações iriam aparecer para elas em suas telas.

As propagandas foram a forma encontrada pelas empresas para monetizar os aplicativos. Empresas com poucos funcionários, poucos gastos e computadores gigantes que arrecadam fortunas. As empresas que querem dar visibilidade ao seu produto pagam para que eles sejam mostrados para nós. O inventor da rolagem infinita e também co-fundador do Center for Humane Technology, Aza Raskin, afirma: “os anunciantes são os verdadeiros clientes e nós somos o produto vendido”. Tristan completa:

Se você não está pagando pelo produto, então você é o produto.

Tristan Harris

Muitas pessoas pensam que o Google é somente uma ferramenta de pesquisa e que o Facebook é somente um lugar para ver fotos dos amigos, mas o que elas não percebem é que essas empresas estão competindo pela sua atenção. A garantia que os aplicativos dão para as empresas é que se você lançar uma propaganda, ela será um sucesso. Eles vendem certeza e fazem grandes previsões que começam com uma necessidade, a de dados.

Tudo que as pessoas fazem online está sendo monitorado e gravado: qualquer simples ação, quais imagens você para e observa e por quanto tempo as observa. Sabem quando as pessoas estão deprimidas, felizes, sua personalidade. Eles possuem mais informação sobre nós do que se imaginou na história humana.

As empresas possuem três metas principais: engajamento, manter as pessoas conectadas; crescimento, que você convide mais pessoas para aquela rede; e propaganda, ganhar o máximo de dinheiro possível.

Assim, foi criado um mundo onde a conexão online se tornou primordial e uma geração foi totalmente manipulada. As táticas de crescimento, como marcar amigos em fotos, foi uma ideia que deu muito certo para o engajamento. Quando você recebe a notificação que um amigo te marcou em uma foto, te induz a abrir o aplicativo e ver a foto na qual você vai curtir, comentar e compartilhar, gerando muito lucro para as empresas.

Estamos num ambiente de tecnologia viciante. As redes têm os próprios objetivos e os próprios meios de obtê-los.

Só há duas indústrias que chamam seus consumidores de usuários. A de drogas ilegais e de softwares.

Edward Tufte

Um dos criadores e ex-presidente do Pinterest, Tim Kendall, afirma que quando chegava em casa do trabalho não conseguia deixar o celular, mesmo sabendo o que está por trás. Ele não foi capaz de controlar o uso, o que é preocupante.

Não fomos feitos para vivenciar a análise de outras pessoas sobre a nossa vida a cada cinco minutos. Vivemos ao redor de uma falsa percepção da realidade. Sinais de curtidas de curto prazo não significam nada, o que torna um círculo vicioso e que faz as pessoas se perguntarem: qual o próximo passo que elas precisam tomar para obter aquela aprovação momentânea?

(Imagem: Freepik)

Uma geração inteira mais deprimida e ansiosa foi criada, sem interações de relacionamento. Esses sistemas não foram desenvolvidos por psicólogos e não possuem proteção para as crianças. As redes começaram cada vez mais a penetrar no campo cerebral e no senso de autoestima e identidade dos mais jovens. Estudos nos Estados Unidos apontaram um aumento muito expressivo entre 2011 e 2013 no número de casos de jovens americanas com depressão e ansiedade. O número de suicídios de meninas entre 15 e 19 anos aumentou 70% entre 2009 e 2017 e nas de 10 a 14 anos aumentou de 151%. Foi justamente no mesmo período que as redes sociais começaram a tomar grandes proporções.

A Wikipédia pode dar a cada pessoa uma definição diferente de acordo com suas preferências pessoais e ela vai receber por isso. Apesar de duas pessoas estarem próximas, podem receber conteúdos completamente diferentes. Isso resulta na falsa sensação de que todos concordam com você, pois no seu ‘feed’ é composto somente por conteúdos semelhantes com o que você simpatiza.

Democracia

(Imagem: Freepik)

Outro ponto que está em risco é a democracia por conta da polarização pessoal e política: causado por algoritmos, porém extremamente eficientes para manter as pessoas online. Se um movimento no Facebook começar a ganhar muita força, o algoritmo dele irá recomendar esse conteúdo para muito mais pessoas. Em breve, isso fará as pessoas acreditarem em várias mentiras. Um estudo do MIT aponta que notícias falsas no twitter se espalham seis vezes mais rápido que as verdadeiras. Poucas pessoas procuram realmente cruzar as informações e averiguar se é verdadeira. ‘Fake news’ sobre a covid-19 e teorias da conspiração têm ganhado cada vez mais força por conta dessa disseminação veloz. As plataformas tornaram possível transmitir narrativas manipuladoras com uma facilidade enorme e sem muito investimento.

Outro caso presenciado é a manipulação das eleições em vários países, assim como no Brasil, na campanha movida pelas redes sociais em 2018 por Jair Bolsonaro, que acabou conseguindo se eleger. A inteligência artificial não tem como resolver o problema das ‘fake news’, o Google não tem uma ferramenta que possibilita dizer o que é mentira e o que é verdade. Se não concordarmos com o que realmente é verdade, não conseguiremos resolver mais nenhum de nossos problemas.

Mas, então, onde está a ameaça existencial em só mexer no celular? Não se trata da tecnologia sendo a ameaça, é a capacidade da tecnologia de despertar o pior da sociedade e isso ser a verdadeira ameaça.

A preocupação dos especialistas a curto prazo é uma guerra civil. Para os próximos 20 anos, provavelmente, a destruição da civilização por meio da pura ignorância como: falhar em desacelerar o aquecimento global, degradar as democracias mundiais, arruinar a economia global e provavelmente fazer com que a humanidade não sobreviva.

A tecnologia possui uma parte boa como vimos no início do texto. Nãohá problema as empresas ganharem dinheiro, o problema é a falta de regras. Faltam muitas leis sobre privacidade digital que precisam ser estipuladas. É mais lucrativo para as empresas ficarmos presos no celular, ao invés de realmente viver e aproveitar nossas vidas.

Podemos exigir que esses produtos sejam produzidos de forma humana, mas como tornar o mundo melhor? As críticas levam ao aperfeiçoamento e a mudança é necessária, porém nem todos reconhecem que isso é o problema e não vai mudar até que tenha uma enorme pressão pública.

Dicas

Contudo, existem algumas práticas que podemos aderir ao cotidiano que nos possibilita sair um pouco do domínio dos algoritmos. São elas:

  • desativar as notificações, deixando somente as mais importantes e necessárias
  • definir o tempo que quer utilizar os aplicativos por dia
  • não mexer no celular antes de dormir
  • não pegar o celular logo ao acordar
  • antes de compartilhar qualquer informação, verificar estritamente a fonte dela
  • não clicar em recomendações de qualquer aplicativo. Se o assunto interessar, ir por vontade própria e pesquisá-lo.

Edição: Daiane Obolari

Imagem do destaque: Portal Mundo.

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