Audiovisual busca representatividade negra

Ana Caroline Sá

Dados divulgados, em 2020, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 54% da população brasileira é negra.  No entanto, os dados se contrapõem a representatividade desse número no audiovisual do País. Conforme os dados da Agência Nacional de Cinema (ANCINE) até o ano de 2016, 2,1% dos filmes lançados no Brasil eram dirigidos por homens negros, enquanto as mulheres negras nem sequer apareciam nas pesquisas.

A pesquisa da ANCINE sobre “Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016” apontam que negros e negras ocupam menos de 20% dos papéis de atores nas obras cinematográficas. Os personagens quando aparecem continuam a ocupar a sub-representação nas telas e quando se fala em roteirização e direção a situação ainda é mais agravante, principalmente, para as mulheres negras.

Para Adriano Monteiro, diretor e roteirista de “O Guri”, único filme capixaba representante no Encontro de Cinema Negro Brasil, África, Caribe e Outras Diásporas, ser um cineasta negro no Brasil ainda é uma das coisas mais desafiadoras no mercado de produções midiáticas. “Embora nossas produções estejam em constante projeção no audiovisual e ganhando notoriedade, a indústria cultural é majoritariamente branca”.

Victor é um menino de 12 anos que sonha em vencer um campeonato de bolinha de gude do seu bairro (Foto: Divulgação)

A barreira do estereótipo e associação de pessoas negras a posições de inferioridade na sociedade é um dos maiores desafios. Monteiro ressalta que o ativismo, tanto na sociedade como na produção cultural, é de extrema importância para debater temas como, por exemplo, o feminismo, o racismo e as desigualdades sociais. Assim, essas temáticas tornam-se pautas nos roteiros e desdobrem-se em produções com protagonistas negros.

Aline Borel (Foto: Arquivo pessoal

A publicitária Aline Borel, afirma que há bastante espaço nas produções midiáticas para as discussões feministas e raciais, principalmente nas plataformas de ‘streamings’. Ela ressalta ser preciso utilizar cada vez mais a voz da indústria cultural para entrar nos lares das famílias brasileiras. A publicitária também relata cenas marcantes sobre a temática em um episódio da série “Orange Is the New Black”: Poussey, uma presidiária preta, morta covardemente por um guarda branco. A cena se assemelha muito com o caso de George Floyd e outros tantos jovens negros mortos.

Aline também cita um trecho do episódio da série brasileira “Coisa mais linda” que pontua como os privilégios e o racismo implicam nas relações e nas lutas diárias de cada indivíduo. “Quando Adélia expõe para Maria Luiza os privilégios brancos que ela tem, mostra que elas não são tão iguais como a amiga imaginava. E eu pude me ver ali”. A indústria cultural tem grande capacidade de representar a sociedade brasileira por meio de suas produções e trabalhar a representatividade negra é uma necessidade intrínseca.

Confira abaixo o trailer da série brasileira “Coisa mais linda” citada por Aline:

O sociólogo Jairo Araldi (Foto: Arquivo pessoal)

O sociólogo Jairo Araldi explica que o poder do audiovisual para a formação do imaginário social e coletivo de cada pessoa não deve ser subestimado. Para ele, pensar os modos de endereçamento que o cinema gera é primordial quando se tem um mercado cinematográfico pensado, em sua maioria, por homens brancos e que coloca homens negros em papéis ligados a marginalidade.

Assim, colocar em debate os engendramentos do cinema possibilita refletir sobre o posicionamento do indivíduo no mundo e a representá-lo. “A quem interessa esse cinema? Como eu me vejo e me identifico nos filmes?”.

A mulher negra no audiovisual

A falta de oportunidades no setor de audiovisual, principalmente para as mulheres negras, é pauta de debates constantes na sociedade. Papéis que remetem à figura da mulher negra em posições socioeconomicamente inferiores, como empregada doméstica, criminosas e até mesmo amantes, são frequentemente vistos e normalizados nas produções culturais.

A atriz Viola Davis no seu discurso ao receber um Emmy, em 2015, emocionou o público e deixou uma reflexão pertinente aos telespectadores. “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra é a oportunidade”, destacou. Viola foi a primeira mulher negra a ganhar o prêmio na categoria de Melhor Atriz em drama por seu trabalho na série “How to Get Away with Murder”.

Carolina Gomes (Foto: Arquivo pessoal)

Para a radialista Carolina Gomes, o papel da indústria cultural é colocar as mulheres negras em espaços que ainda são poucos explorados na sociedade. “Ter mulheres negras em posições de poder, em locais de destaque, traz representatividade. Ver mulheres negras bem-sucedidas seja em novelas, filmes ou em séries inspira a quem assiste e mostra para as pretas que é possível conseguir algo grandioso”.

Segundo a coordenadora do Cineclube Afoxé, Bárbara Maia, a invenção dos irmãos Lumière não é tão generosa com todas as pessoas. “O cinema hegemônico é produzido majoritariamente pelos grandes estúdios norte-americanos, por homens brancos e carrega, portanto, as ideias, os valores e o modo de vida da sociedade branca americana”.

Livro escrito por Bárbara Maia sobre as mulheres negras no cinema (Foto: arquivo pessoal)

Os cineclubes, para Bárbara, são ferramentas essenciais para a discussão e a construção das narrativas das mulheres negras. Por meio do diálogo proposto ao término de casa sessão, é possível questionar como as representações no cinema afetam o cotidiano dessas mulheres.

O produtor cultural e cineclubista Luciano Guimarães conta que observa a grande indústria de ‘streaming’ e fica atento às possibilidades de representação positiva que uma produção pode trazer para a sociedade. A construção de uma imagem positiva dos papéis por meio de histórias de mulheres negras em papéis de relevância e superioridade ajudam na formação da autoestima e pode contribuir no desenvolvimento de negros e negras. Guimarães relembra que o audiovisual é um espaço de representação e pode contribuir para um futuro com mais igualdade racial e entre gêneros na sociedade.

Edição: Daiane Obolari

Imagem destaque: atriz Viola Davis (Reprodução/ Instagram)

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