a busca por uma imagem perfeita interfere na saúde física e mental das pessoas

Ana Paula Brito e Isabela Wilvock

A mídia já implantava, por meio, principalmente, das capas de revistas, um padrão de beleza na sociedade. Com o passar do tempo, as redes sociais passaram a ocupar esse espaço. Corpos perfeitos são exaltados e despertam nas pessoas o desejo de se encaixar em um padrão imposto e irreal. E os impactos causados devido a influência das redes sociais na maneira de ser, falar, se vestir e, principalmente, se enxergar são cada vez mais preocupantes.

A fixação por uma beleza computadorizada é prejudicial tanto psicologicamente quanto fisicamente, considerando que nem sempre os procedimentos chegarão aos resultados exibidos pelo filtro. As cirurgias plásticas são cada vez mais sonhadas e normalizadas. E o resultado disso pode-se ver no estudo conduzido pela Academia Americana de Cirurgia Facial, Plástica e Reconstrutiva: 55% de cirurgiões plásticos faciais atenderam, em 2017, pacientes que queriam passar por cirurgias para parecerem melhor em selfies. Esse fato ganhou nome: Dismorfia Instagram.

A beleza computadorizada traz riscos psicológicos e físicos para as pessoas (Foto: Divulgação)

Estando atento a esses acontecimentos, o Instagram anunciou em 2019 que iria remover os filtros com aspecto de cirurgia plástica e parou de aprovar o lançamento de novos filtros desse tipo. E foi lançada uma atualização que possibilita a denúncia de filtros e efeitos que podem ser uma violação às políticas de uso da rede social. Mas essa ação não foi 100% efetiva, já que ainda existem muitos filtros que modificam o rosto do usuário.

Como resposta, foi lançada uma campanha incentivando as pessoas a abrirem mão do filtro chamada hashtag filterdrop (em tradução livre “deixe o filtro”) com o intuito de ter mais rostos reais na rede. A estudante de arquitetura Nathália Haddad é adepta à causa e por mais que se sinta insegura, lembra que essa é quem ela é. “Sem maquiagem, sem filtro, sem nada, somente eu. Não gosto muito de usar porque não é real”, declara a estudante. Nathália explica que os filtros cobrem a beleza natural e que prefere não forçar uma imagem irreal sobre si mesma.

Mulheres postam fotos com filtro e de “cara limpa” por aceitação (Foto: Reprodução)

Os filtros seguem os padrões de beleza que estão circulando no momento, deixando todos com a mesma aparência. A psicóloga Hadassa Lohaynne esclarece que o advento da globalização propicia que isso aconteça. “As indústrias se aproveitam disso e fazem com que as pessoas que consomem esses padrões rejeitem os próprios aspectos físicos, a beleza real e partam para uma remodelagem nos corpos buscando aproximar desse padrão ideal”, informa a psicóloga.

Isabelle Ribeiro compartilha a transição capilar que passa por meio do Instagram (Foto: Arquivo pessoal)

Se livrar do paradigma de perfeição nas redes sociais pode trazer liberdade e, assim, melhorar a saúde mental. A influencer digital e criadora de conteúdo Isabelle Ribeiro abandonou essa ideia. Ela usa a rede social para compartilhar a jornada na transição capilar e decidiu que iria parar de tentar ser perfeita. “Em minha antiga conta no Instagram, eu era sem defeitos, mas isso acabou me desgastando”, confessa Isabelle. Ela explica que a partir do momento que parou, se sentiu mais leve e sem medo de ser ela mesma.

As redes sociais são palco de muitas manifestações. O exagero e o excesso exige dos consumidores mais capacidade de escolha e atenção. De acordo com a professora Carine Cardoso, a autonomia e o protagonismo que as mídias entregam requer um autoconhecimento. “Hoje, o debate foge desse padrão imposto. Ele lança uma luz em uma nova forma de enxergar as pessoas”, explica Carine.

Libertação dos corpos

Os padrões de beleza são impostos às mulheres há muito tempo. Eles são disseminados a partir da mídia e das redes sociais, escravizando mulheres desde o início da vida. Para lutar contra esses padrões foi criado o movimento Body Posivity que nasceu nos Estados Unidos, em 1967. No Brasil, ele surgiu como movimento Corpo Livre. A principal ideia é lançar um olhar positivo ao próprio corpo, seja ele como for.

O movimento Corpo Livre “luta” pela diversidade corporal e pelo amor próprio (Imagem/ ATL Girls)

As cobranças que as mulheres sofrem para atingirem o padrão imposto pela mídia prejudicam a saúde. Diante de tudo isso vem o estresse, a não aceitação do corpo, as dietas malucas, distúrbios alimentares e mais tarde doenças como bulimia e anorexia nervosa. E essas exigências aumentaram com a chegada do Instagram e das influencers.

A psicóloga Hadassa Lohaynne explica que na contemporaneidade, o ideal de beleza soa com a capacidade de controlar a vida das pessoas. “Essa vigilância não é apenas um fenômeno contemporâneo, ela atravessa a humanidade desde os primórdios como já foi apontado diversas vezes em obras sócio-históricas”, informa Hadassa. Em cada época, vigorou um padrão diferente. O advento da globalização e as redes sociais deram mais vozes a esse controle.

Segundo a instituição de saúde pública do Reino Unido, Royal Society For Public Health, o Instagram é a rede social mais prejudicial à saúde mental dos usuários. O ambiente da rede se tornou tóxico e prejudicial para muitas pessoas. A estudante de direito Raquel Eid revela como fez o ambiente se tornar mais acolhedor para ela. “Desde que fui inserida no meio tecnológico, busquei seguir pessoas que se parecessem ao máximo comigo para que eu pudesse ter coragem e liberdade”, diz a estudante.

Carol Bartolozzi é advogada e modelo plus size (Foto: Arquivo pessoal)

O Movimento Corpo Livre atua principalmente na plataforma do Instagram. Atualmente, com 444 mil seguidores, o movimento compartilha fotos de diferentes tipos de corpos em mulheres e homens celebrando a diversidade corporal e amor próprio. A modelo plus size Carol Bartolozzi começou a compartilhar mensagens de autoestima a partir do encontro com o Movimento. “Meu maior incentivo em espalhar essa mensagem, é conseguir fazer com que várias outras mulheres passem pela libertação que eu passo até os dias de hoje”, afirma Carol.

As conquistas são constantes e as quebras de tabus são diárias. Em meio a todas as conquistas, vem a cobrança para se sentir bonita e atraente, sexy, bem-vista e aceita pela sociedade, transformando os corpos em motivo de audiência e abrindo para debate um assunto que deveria ser somente a respeito de si mesmo. Carol acredita que as redes sociais podem se tornar uma aliada na luta contra padrões de beleza, pois, assim como a desconstrução dela veio do Instagram, o de outras pessoas também pode acontecer.

Perfil do movimento Corpo Livre (Foto: Reprodução/ Instagram)

Edição: Daiane Obolari

Imagem de destaque: Reprodução/ Revista ABM

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