Ótica feminina na luta contra o machismo

Bruno Laurindo e Kebim Tamanini

O número de mulheres profissionais de segurança cresce a cada dia no Brasil. Elas conquistaram a independência financeira e estão investindo na profissão. É o caso de Fabiana Nobre que trabalha há 18 anos na área de segurança de eventos públicos e privados.

Diariamente, Fabiana luta pelo empoderamento feminino nessa profissão que sofre com o machismo e a desigualdade financeira. Com o passar dos anos, ela, então, decidiu montar a própria empresa para desmontar esse preconceito da mulher na área protetiva. Na segurança privada, espaço dominado por 70% dos homens, as mulheres concorrem às vagas nos cargos de vigilante, fiscal, controlador de acesso, líder de equipe e supervisor.

O machismo dentro dessas funções ainda existe, mas a luta por igualdade persiste. A psicóloga Fernanda Freitas salienta que o preconceito não só acontece nas empresas, mas na sociedade também.

Todos nós somos formados por um machismo estrutural. Isso significa que nós estamos atravessados pelo pensamento do machismo sem percebermos

Fernanda Freitas
A Professora Fernanda Freitas afirma que a mulher tem um longo caminho para conquistar a igualdade (Foto: Bruno Laurindo)

A psicóloga ressalta ainda que gradualmente as barreiras são superadas, pois é um processo longo, difícil e lento como todo processo de mudança social. Apesar dos avanços e compromissos assumidos pelas mulheres, a perspectiva de que elas ocupem a mesma posição masculina tem um grande caminho a percorrer na conquista da igualdade.

As mulheres, então, precisam superar o preconceito num ambiente característico dos homens, pois são julgadas por escolherem uma profissão perigosa e machista. O supervisor de segurança privada Felipe Lima lembra que ainda existe uma parte com receio de ver uma mulher trabalhando na condição de profissional de segurança privada. “Acredito que a “velha-guarda” ainda não aceita ver uma mulher inserida no contexto da área de segurança. Sou supervisor de segurança e trabalho justamente para derrubar essas barreiras”.

(arte: Kebim Tamanini)

Para o supervisor, a mulher, na relação interpessoal, consegue ser mais profissional que o homem. Dentro dessa ótica, a mulher se sobressai pelo fato de ser mais observadora e atenta a qualquer tipo de ocorrido. Os homens e as mulheres são moldados para a liderança no mercado de trabalho, sendo treinados para desempenhar qualquer função na área da segurança.

O site da Allia Segurança mostra que no ano de 2019 houve um aumento de 30% no número de mulheres trabalhando como profissional de segurança privada. Parte desse aumento se deve ao interesse e a preocupação das empresas na hora das abordagens em locais que possuam portas giratórias ou portarias. O número de mulheres na segurança privada é aproximadamente de 30 mil, cerca de 17% do total de profissionais.

(Arte: Kebim Tamanini)

O empresário que vive em busca de excelência e uma abordagem mais suave no contato direto com os clientes optam pelas mulheres na segurança. O empresário Caique Alvarenga, que atua no mercado cambial, nota essa diferença. “Ter na frente de loja uma vigilante acaba sendo a recepção da empresa. Isso acontece porque o gênero feminino é harmonioso na hora de abordar os clientes”.

Cada vez mais presentes no segmento de segurança privada e pública, a mulher, além de exercer a função de vigilante patrimonial, transporte de valores, segurança pessoal e escolta armada, atua também nos cargos de fiscal de pátio, controladora de acesso e gerente executiva. Mas o que realmente leva essas mulheres a trabalharem na segurança privada?

Laisa Queiroz (Foto: Bruno Laurindo)

A vigilante patrimonial Laisa Queiroz de Moraes escolheu a profissão para ter mais tempo com os filhos. “Escolhi devido à flexibilidade de horário. Me interessei pela escala 12horas de trabalho por 36 horas de descanso, pois, assim, poderia acompanhar o crescimento do meu filho caçula, já que não tive essa oportunidade com a minha primeira filha”.

Já fiscal de pátio empresarial Michele Silva revela que entrou para a profissão graças a uma vaga que apareceu. “Surgiu a oportunidade de trabalhar em uma área que nunca tinha trabalhado. Com isso tenho aprendido muito a cada dia. É um desafio cuidar da segurança das pessoas, pois temos que estar de olhos bem abertos”.

No Brasil é grande a participação masculina na área da segurança, pois antigamente para ser um profissional exigia uma estatura avantajada, músculos e força. Atualmente, essas características já não sobrevivem sem o devido desenvolvimento intelectual e cultural. A presença da mulher nessa categoria de ambiente assume uma grande importância para a contribuição na mudança de comportamento entre o profissional e o interpessoal.

(arte: Kebim Tamanini)

Ao perceber as mudanças no cenário da segurança no Brasil, verifica-se a necessidade e a importância da presença de mulheres atuando também em órgãos públicos militares como as forças armadas — Marinha, Exército e Aeronáutica. Há participação também de mulheres no efetivo da polícia federal, na força nacional de segurança e nas forças auxiliares: polícia militar, polícia civil, bombeiros e guarda municipal.

Maria Clara (Foto: Bruno Laurindo)

Maria Clara dos Anjos é militar e trabalha há mais de oito anos na segurança pública. Ela levanta de manhã, se arruma, se inspira e vai trabalhar. O profissionalismo e o empoderamento feminino sempre estiveram juntos no cotidiano dela, mas relata que não é fácil ter autonomia nesse mundo em que a mulher é vista como inferior.

Maquiadas, perfumadas e armadas, as mulheres da segurança pública ganham espaço e reconhecimento social. Nos setores da segurança pública e privada, elas têm o objetivo de fazerem a diferença. Mas poucas são as que chegam ocupar posições de comando.

A psicóloga Fernanda Freitas explica que, ao assumir essas posições, a mulher enfrenta inúmeras resistências de pessoas, tanto homens quanto as próprias mulheres, que na maior parte são subordinadas. “O que muitas vezes acontece é que elas encontram dificuldades de assumirem esse espaço de liderança, seja pelo machismo da sociedade ou por não terem esse espaço”.

Mulheres militares enfrentam desafios diários para conquistar o espaço profissional (foto: Kebim Tamanini)

A visão feminina é ampla e sensível. Às vezes, o momento requer sutileza e precisão para ser resolvido certas situações. É necessário aumentar a participação e reconhecer o excelente trabalho desempenhado pelas mulheres na segurança pública, assim como em todos os outros segmentos profissionais.

A mulher está sempre ocupando o papel secundário ao longo dos tempos em razão do gênero. Para o sociólogo Aloysio Fritzen, a mulher, da mesma maneira que o homem, pode assumir qualquer cargo em qualquer função na sociedade independente do sexo. “Existem muitas mulheres que são líderes ou que podem ser preparadas para serem líderes. Mulher não é para ser apenas unicamente como filha, futura esposa e mãe dedicada”.

Para ser um profissional de segurança é preciso contar com inteligência emocional para lidar com situações diárias da profissão. A atuação técnica, a conduta moral, ética e preventiva, somada ao conhecimento da legislação aplicada, são atributos indispensáveis para a atuação segura e responsável de uma profissional. O cenário atual aponta para um mercado em ascensão e que exige mudança de cultura no próprio ambiente de trabalho e mais respeito às mulheres dentro e fora das organizações.

Edição: Daiane Obolari

Imagem do Destaque: arte/Kebim Tamanini

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