TBT CAPIXABA – Insurreição do Queimado

Karol Costa

O principal movimento contra a escravidão no Espírito Santo teve início em 19 de março de 1849, na região do atual distrito de Queimado, no município de Serra. A Insurreição do Queimado foi resultado de um processo político de conquistas e é considerado um marco na história negra capixaba.

A igreja de São José do Queimado completou 172 anos em 2021 (Foto: Reprodução/Arquivo Público do Estado do Espírito Santo)

A revolta nasceu de uma promessa não cumprida de liberdade. Na época, o frei italiano Gregório José Maria de Bene tinha interesse em construir uma igreja na região. Ele prometeu aos escravos da então localidade de São José do Queimado que faria uma negociação de alforria com os donos das fazendas em troca da construção do templo.

Os escravos e o frei entraram em um acordo e a igreja fora entregue antes do Dia de São José, conforme o combinado. Na missa de inauguração do templo, os líderes dos escravos pretendiam, com o apoio do missionário, exigir a prometida alforria. Para isso, o grupo adentrou na igreja, o que levou o frei a abandonar o altar. Aproveitando a comoção, os escravos percorreram as casas de seus senhores e os obrigaram a assinar a liberdade.

O então presidente da província, Antônio José Siqueira, relatou o ocorrido em carta enviada ao Ministro de Estado dos Negócios do Império, dizendo: “Ontem, pelas três horas, soube que um grupo armado de trinta e tantos escravos perpetrara o crime de insurreição no distrito de Queimado, três a quatro léguas distante desta capital, invadindo a matriz, na ocasião em que se celebrava a missa conventual e levantando gritos de ‘viva a liberdade’, queremos ‘carta de alforria’”.

Ao tomar conhecimento da rebelião, o presidente da província, para conter a insurreição, enviou imediatamente o chefe de polícia e algumas tropas, que continham homens vindos até mesmo do Rio de Janeiro, devido a enorme força do movimento. A contenção foi extremamente violenta e durou cerca de cinco dias, até a prisão do principal líder dos escravos, Elizário Rangel. A maioria das pessoas que participou do movimento, mais de 300 homens, mulheres e crianças, foram brutalmente assassinados e os corpos jogados na hoje chamada Lagoa das Almas.

As ruínas da igreja de Queimados tornou-se um museu a céu aberto (Foto: Valdinei Oliveira)

Alguns sobreviventes fugiram para o município de Cariacica, onde fundaram o Quilombo de Roda D’Água. Já outros foram presos e julgados, cinco deles condenados à morte. Os também líderes Chico Prego e João da Viúva foram enforcados, mas Elizário Rangel conseguiu escapar em uma lendária fuga.

Em um momento de “descuido”, o carcereiro deixou a porta da cela de Elizário Rangel aberta e ele fugiu. Os escravos consideraram esse ato um milagre de Nossa Senhora da Penha. O carcereiro, no entanto, confessou ter facilitado a fuga de Elizário, pois não concordava com os maus tratos impostos aos negros. O líder da revolta nunca mais foi recapturado.

Elizário se tornou uma lenda para todos os escravos que sonhavam com a liberdade e foi nomeado como o Zumbi de Serra, em alusão ao herói do Quilombo dos Palmares. Já Chico Prego, que foi capturado e enforcado em 11 de janeiro de 1850, nomeia hoje a Lei de Incentivo a Cultura do Município de Serra.

Edição: Karol Costa

Imagem Destaque: Bruna Firmes/Núcleo de Publicidade do Lacos

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