PRECONCEITO CONTRA SOROPOSITIVOS AINDA É PRESENTE NA SOCIEDADE

Ana Carolina Effgem e Fernanda Sant’Anna

Esta é a segunda matéria da série de reportagem sobre HIV e Aids. Confira também a primeira matéria da série: Retrato da epidemia de aids nos anos 80 no Brasil

Quando a Aids surgiu era denominada pela imprensa de “câncer gay”. Um termo preconceituoso e que reforçava o tabu de que somente pessoas homossexuais eram contaminadas pelo vírus HIV, o que é de conhecimento geral de que não é verdade. Além disso, outro tabu frequentemente relacionado ao HIV é o de que mulheres soropositivas não podem engravidar ou ter um parto seguro. 

Imagem: (Divulgação/Feliz Melhor Idade)

A enfermeira Maryanni Camargo esclarece como uma mãe soropositiva pode ter um parto seguro para não contaminar o bebê.  Ela explica que pode haver a infecção de mãe para filho durante o parto. A gestante soropositiva deve ser acompanhada para que o nascimento do bebê seja por meio de uma cesárea para que assim não haja risco de contaminação da criança. A profissional informa que a mãe não transmite o vírus via placenta, por isso, se houver uma cesárea, os médicos conseguem prevenir essa infecção. 

Emanuelle Araújo, 30, descobriu que é soropositiva aos 20 anos de idade, o que a fez pensar na época que não poderia mais engravidar. Ela conta que poder construir a família sem pôr ninguém em risco a ajudou a aceitar a sorologia. Quando soube da gestação, procurou um médico para tirar dúvidas e fazer exames. Emanuelle diz que a única diferença entre uma gravidez de uma mãe não soropositiva e a gravidez de uma mãe soropositiva é que a segunda não pode amamentar. Contudo, ela afirma que isso não a fez menos mãe.

Tive uma gestação saudável e normal como de outra pessoa qualquer  

Emanuelle Araújo

O doutor Elmo de Tarso, que viveu durante o período do auge da epidemia de Aids no Brasil, relata que o preconceito da sociedade para com os pacientes que viviam com a doença era muito grande, principalmente quando começavam a apresentar os sintomas que indicavam que estavam vivendo com o HIV e Aids. Nesses momentos, a pessoa vivia praticamente isolada, já que todos tinham medo de se aproximar e correr o risco de se contaminar. Isso acontecia também dentro da comunidade científica, pois muitos médicos deixavam todo o trabalho para os enfermeiros.

Foto: (Freepik)

A página do Instagram “Posithividades” promove o evento “Junho Indetectável” que publica depoimentos anônimos de pessoas que vivem com HIV e gostariam de compartilhar as experiências. Os posts na mídia social funcionam como uma rede de apoio para quem também convive com o resultado positivo e, assim, enxergarem que não estão sozinhos. Um dos depoimentos é de Maria, nome fictício, que vive com o HIV há 10 anos e poucas pessoas têm conhecimento da sorologia. Ela diz que o principal motivo de não abrir o resultado é o medo do preconceito da família e o julgamento das pessoas da cidade em que mora, pois há apenas 13 mil habitantes.  

Muitos indivíduos ainda se referem a pessoas vivendo com HIV como “aidéticos”. Esse termo foi utilizado com frequência no surgimento da doença. Contudo, ganhou um sentido pejorativo e é bastante ofensivo para quem o escuta. Vale ressaltar que, atualmente, pessoas convivendo com o HIV não desenvolvem a Aids se realizarem o tratamento corretamente. Em depoimento no Instagram “Posithividades”, um usuário relatou que essa é a palavra que mais machuca uma pessoa vivendo com HIV, pois apresenta uma carga negativa devido ao preconceito arraigado na sociedade. 

Foto: (Divulgação/UNAIDS)

De acordo com dados do estudo realizado entre abril e agosto de 2019 pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids-BR), 81,8% das pessoas soropositivas da comunidade LGBTQIA+ entrevistadas concordaram que é difícil contar às pessoas sobre serem soropositivas para o HIV. Visando trazer o tema em discussão, o tema da 25ª Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo nesse ano foi “HIV/Aids: Ame + Cuide + Viva +”. A edição aconteceu no dia 6 de junho em formato virtual e o tema foi escolhido com objetivo de combater o estigma e preconceitos que rondam o HIV e a Aids na comunidade LGBTQIA+.  

O psicólogo e professor Nielson Vicentini diz que preconceitos e tabus afetam diretamente as pessoas que vivem com o HIV, mas, também, a sociedade em geral. Segundo ele, a ausência de informações técnicas, análise crítica e entendimento sobre o tema fazem com que a população não procure tomar as medidas necessárias para evitar a contaminação. Nielson afirma ainda que os impactos sofridos pelas pessoas soropositivas estão para além das questões fisiológicas associadas em caso de agravamento da doença, mas relacionados também ao medo, a vergonha, a culpabilização, a angústia, ao desespero e a desesperança em decorrência das reações negativas por parte de setores da sociedade sobre o soropositivo.

Em relação ao acolhimento às pessoas soropositivas, o psicólogo relata que o acolhimento humanizado é a principal ferramenta de cuidado. Nielson relata que a pessoa soropositiva quando percebe que estará recebendo por parte da família, dos amigos, da comunidade em geral e dos profissionais de saúde o devido respeito, compreensão e afetos direcionados a melhor qualidade de vida, independente do quadro patológico, sem dúvida, irão favorecer as reações imunológicas e emocionais para o autocuidado e recondução de vida diante das possíveis intempéries que poderão surgir. 

Edição: Fernanda Sant’Anna

Imagem de Destaque: Fernanda Sant’Anna

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