‘Diversidade: do preconceito ao consumo’

“Diversidade: do preconceito ao consumo” é um grupo de iniciação científica da FAESA Centro Universitário voltado a pesquisar como a comunidade LGBTQIA+ tem sido representada nos conteúdos midiáticos. O grupo, formado por alunos dos cursos de Psicologia e Publicidade e Propaganda, é coordenado pelo professor Felipe Dall”Orto e tem na equipe os seguintes universitários: Ana Carolina Ruy Bragatto, Andriel Passamani Tolentino, Joaquim Maria Ferreira Mello, Luca Misse Moreno Silva e Nirvana Dulce Teixeira Nunes. A proposta do Projeto é produzir artigos e conteúdos multimídia.

Conheça no vídeo abaixo um pouco mais sobre o Projeto

O professor Felipe Dall’Orto e os alunos explicando o projeto “Diversidade: do preconceito ao consumo” (NCM/FAESA)

Confira abaixo o primeiro conteúdo produzido pelo grupo. O artigo produz reflexões sobre tolerância e construções simbólicas relacionadas à comunidade LGBTQIA+

E SE FOSSE VOCÊ?

Você sai de casa com sua família, entra no carro e quando sua mãe vai dar ignição, um casal encosta no carro e se beija, ela grita: “Que nojo”. Os demais ocupantes (familiares) comentam, riem e fazem comentários ofensivos.

Imagina agora que é um casal de homens e você é gay. Coração acelera, família patriarcal, cristã, ‘tradicional’. Mas, hoje, por algum motivo, você não se cala e solta: “E SE FOSSE EU?” Silêncio… constrangedor e libertador.

O Brasil possui uma sociedade híbrida desde sua formação, resultado de uma mistura de elementos advindos da cultura indígena, portuguesa e africana (FREYRE, 1981; HOLANDA, 1995), que também resulta de um processo de violências, miscigenações, de desconstrução de singularidades culturais e de imposições de comportamentos cotidianos e religiosos em que a diversidade sexual não é garantida e nem respeitada. Quando muito é tolerada.

No século XX, os meios de comunicação, além de uma forma de lazer, assumiram um papel que ultrapassa a condição de meros veículos das mensagens e conteúdo, uma vez em que eles são responsáveis pela produção de sentidos que circulam na sociedade e tornaram-se instrumentos fundamentais de coerção social, já que lidam com a disseminação, fabricação e reprodução de representações sociais, ou seja, a mídia atua na construção do imaginário coletivo ao produzir imagens simbólicas e intermediar a relação entre os que estão expostos a ela e a realidade, construindo sua identidade, incorporando sentidos e representações presentes no cotidiano, sintetizando, a mídia influencia profundamente vários aspectos da vida diária dos sujeitos.

Além disso, por meio da mídia construímos o imaginário coletivo, impregnado de visões conservadoras, tanto do homem quanto da mulher, que, desde pequenos, ouvem um discurso proveniente da divisão sexual e/ou da diferença de gêneros que atribuem aos homens a virilidade e às mulheres a feminilidade, excluindo assim, grupos minoritários.

A tolerância se dá nos programas de entretenimento, nas novelas, a partir de manifestações fantasiosas e estereotipadas, em que se destacam os trejeitos e a erotização da comunidade LGBTI+, ou de forma exótica durante as festas de carnaval, para divertir a população e vender um imagem sensualizada do brasileiro no exterior, mas “quando as fantasias do carnaval são despidas e a vida retoma seu curso normal, surge um quadro um tanto diferente de tolerância em relação aos homossexuais no Brasil” (GREEN, 2000, p. 23-24).

Quando saímos da fantasia e dos carnavais e lidamos com o mundo real, nos deparamos com uma definição rígida do que é ser homem e do que ser mulher, da masculinidade e da feminilidade, que na contemporaneidade está sendo colocada em xeque.

Na conjuntura atual, as questões sobre a orientação sexual e identidade de gênero estão além do binarismo (homem/mulher ou homossexual/heterossexual), estamos vivendo em um mundo da fluidez e que desafia a consciência das sociedades e da simbologia enraizada em alguns indivíduos.

É por meio do símbolo que nós seres humanos nos comunicamos. A palavra “símbolo” vem do grego, que significa “juntar, lançar junto”, remete à unidade, à coerência, à verdade, ou seja, o símbolo reúne o que está fragmentado e seu antônimo é “diabólico”, cuja etimologia grega remete à divisão, à incoerência e ao engano. Para o filósofo existencialista, Kierkegaard, o simbólico confere sentido de ordem à existência, fazendo com que o indivíduo se sinta plenamente realizado, mesmo com suas limitações.

Por outro lado, o diabólico relaciona-se com um fechamento para essa possibilidade, ou seja, o indivíduo decide não ser ele mesmo. Ocorre uma rejeição do próprio ser, existe uma fuga de ser quem é, consequentemente, é insuportável viver para o próprio indivíduo.

A Igreja determinou durante anos, o que era certo e errado (e em algumas culturas continua determinando). Com a medicina tomando lugar da religião, o homossexual passou de pecador para ‘doente’, passando assim, a ter uma imagem carregada de preconceitos, como aquele que é portador de doenças sexualmente transmissíveis, além de ser aquele que possui falhas biológicas e psíquicas que colocam em risco a espécie humana.

Portanto, até a década de 80, o homossexual era considerado como alguém que deveria ser marginalizado da sociedade, portanto, não possui uma liberdade de ser quem ele é, ignorando sua própria existência. A partir do surgimento das paradas e do movimento LGBTQI+, em conjunto com a origem das bandeiras da comunidade, cria-se uma identidade, reúne o que está disperso, formando um símbolo, visto que, a comunidade se torna uma unidade de força, ou seja, reúne o que estava fragmentado.

Mas… ah, esse mas… apesar dessa força, ainda assim existe muita intolerância e preconceito em alguns indivíduos guiados por meio dos estereótipos reproduzidos pela mídia, utilizando, por exemplo, o gay afeminado para se fazer piadas, sendo retratado de forma caricata ou a travesti, sendo vista de forma depreciativa.

Para Torres e Neiva et al (2011), o estereótipo é algo natural do sujeito, é um processo natural que previne contra uma sobrecarga cognitiva, por meio da redução de grandes quantidades de informação para um número maneável de categorias.

Quando pensamos na palavra estereótipo sempre associamos a algo negativo, mas o estereótipo só se torna problemático quando leva ao preconceito e à discriminação, ou seja, quando os traços atribuídos a um grupo são predominantemente negativos, quando a pessoa que está estereotipando é dogmática e não acomoda suas crenças a novas informações, ou quando o estereótipo gera uma profecia autorrealizadora

Os estereótipos podem ser mantidos por vários processos, incluindo a correlação ilusória, que é uma tendência a perceber uma forte relação entre duas variáveis distintas. Por exemplo, muitos sujeitos acreditam que o HIV é uma doença gay. E isso contribui para a generalização negativa de todos que fazem parte da comunidade LGBTQI+.

Então, o que você faz para mudar esse estereótipo negativo enraizado dentro de si? Você propaga piadinhas no grupo de WhatsApp? Como é seu meio social? Há algum LGBTI+ na sua família? Você ri dele ou com ele?

A diversidade é necessária para a construção de um mundo que possibilita enxergar várias visões e várias semióticas distintas para um mesmo fenômeno. O respeito e a vontade de aprender devem andar juntos, do nosso lado, no nosso dia a dia, para que possamos desconstruir esses estereótipos negativos estabelecidos há muito tempo, ou reforçar aqueles que são positivos e necessários para mostra um mundo mais diverso.

Portanto, quando você diz “E SE FOSSE EU?”, você se permite ser quem você é, para si e não para os outros, tornando-se autêntico, conferindo uma ordem de existência que o símbolo traz e assim se sentir realizado, desconstruindo não só sua própria visão de mundo, mas também a do outro, que está carregado de preconceitos muitas vezes são propagados pela mídia e reforçados por cada um de nós!

Foto do destaque: Matheus Moraes

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