Crônica – Por livres acessos

Gabriel Taveira

“Acesso negado” é uma triste frase de se ver. Seja quando passamos o cartão em um restaurante, em uma loja e até mesmo na catraca da academia. E quando essa mensagem aparece após passar o ticket do ônibus? Pior ainda. Tentamos sempre achar uma desculpa: “fulano deixou meu celular cair e tive que gastar uma grana a mais pra trocar de tela” ou, então, “alguém sumiu com esse boleto, tenho certeza!”. A verdade é que, em geral, nós somos os responsáveis por esses pequenos vacilos que pouco afetam o nosso futuro, apesar de adicionarem uma dose de estresse ao presente.

No entanto, um dos “acessos negados” que tive gerou uma reflexão muito maior. Em meio a uma grande luta entre mim, o aplicativo de chamada de vídeos e a internet, fui covardemente impedido de assistir uma aula da faculdade. Após os nervos se acalmarem, mandei um áudio para a professora explicando a situação. Foi aí que tudo aconteceu. No meio da gravação da mensagem de voz me lembrei de um pequeno detalhe: a professora tem deficiência auditiva. Não é completamente surda, mas a leitura labial é fundamental para o entendimento dela. Bom, bateu um mix de sentimentos e comecei a pensar nas dificuldades de pessoas não só com deficiência auditiva, mas visual, física e intelectual no ensino remoto.

(Imagem: Pixabay)

A educação em nosso país já não é acessível, imagine, então, para quem necessita de cuidados especiais. Em 2017, o tema da redação do ENEM foi sobre os desafios para a formação educacional dos surdos no Brasil, mas parece que esse tema, para muitos, ficou no passado. Na verdade, não há nada mais presente do que a potencialização desses desafios em um contexto de pandemia. Como fazer a leitura labial de alguém que está de máscara? Ou, então, de alguém que tem uma webcam de baixa qualidade ou que sequer liga a câmera?

Sem falar nos problemas básicos para se ter uma aula online, como o acesso a uma internet razoável e um local de estudos minimamente adequado. É muito complicado, para não dizer impossível, uma família de baixa renda proporcionar, sozinha, condições de aprendizado satisfatórias para pessoas com necessidades especiais.

E há quem fale em meritocracia nesse país. Mas não pretendo gastar mais de duas linhas desse texto rebatendo esse tipo de posicionamento.

Se a simples tarefa (na teoria) de se conectar à aula já é complicado para muitos, imagine então o passo seguinte. O suporte para os alunos com deficiência que conseguem ter acesso às aulas vem sendo falho. Os professores, assim como todos, foram pegos de surpresa por essa situação pandêmica, portanto, necessitavam que as instituições dessem orientações e treinamentos para os educadores lidarem com essa questão.

A última Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo IBGE, indicou que quase 70% das pessoas com deficiência no Brasil não concluíram o Ensino Fundamental e 5% concluíram a faculdade. É um dado estarrecedor. Mas tem quem defenda uma posição contrária ao “inclusivismo”. E para piorar, são essas pessoas que deveriam ser responsáveis por proporcionar acessibilidade no ensino para todos.

O primeiro passo dessa caminhada por uma educação acessível deve começar por nós, estudantes. A luta também é nossa! Os estudantes devem ser ativos nessa luta por inclusão e acessibilidade na educação. Para ser inclusiva pra valer, a educação tem de contemplar a diversidade de situações vividas em um país tão desigual quanto o nosso.

Vamos lutar para que, daqui para frente, todos possam ter livres acessos para esse direito irrevogável que é a educação. E os acessos negados, que se limitem àqueles que não valorizam a inclusão.

Imagem do destaque: Pixabay

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