Centenário da Semana de Arte de 22

Daiane Obolari

Em fevereiro de 1922, aconteceu, no teatro municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna. O evento reuniu artistas modernistas influenciados pela vanguarda europeia que acompanharam diversas exposições. Um dos maiores movimentos artísticos brasileiros veio para inovar a estética das artes no Brasil, romper os padrões europeus e valorizar o País. Apesar de polêmico e conter algumas questões problemáticas, o evento ajudou a impulsionar a arte brasileira estagnada no tempo.

O catálogo (esquerda) e o cartaz (direita) foram produzidos por Di Cavalcanti para a divulgação do evento

O historiador do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) Luiz Armando Bagolin conta que demorou pelo menos duas décadas, após a Semana, para as propostas estéticas em torno do modernismo serem aceitas pela sociedade brasileira. No momento em que aconteceu, apenas algumas pessoas ligadas às elites no Brasil compreenderam o que foi apresentado. Os próprios integrantes do movimento não tinham clareza sobre o que queriam. Muitas das obras expostas foram improvisadas de última hora e eram mais modernas nas intenções do que plasticamente.

Luiz Bagolin explica ainda que a repercussão se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro e que a maioria dos jornais caracterizava o evento como um show de esquisitices e caprichos dos “futuristas paulistas”. Entretanto, segundo o poeta Mário de Andrade, em carta enviada, seriam justamente as críticas que perpetuariam a ação e a faria ser jamais esquecida.

Na “Conferência Modernista”, em 1942, Mário disse que a grande contribuição daqueles que participaram do evento, para o Brasil, foi o direito à liberdade de se expressar em qualquer meio e em qualquer lugar. Julgo que realmente temos isso até hoje 

Luiz Bagolin
Mário de Andrade iniciou a poesia brasileira moderna ao publicar “Pauliceia Desvairada” em 1922 (Foto: Reprodução/Estudo Prático)

Luiz Bagolin acrescenta que a Semana de Arte também ajudou na estabilização de uma consciência nacional, pois o País não deve ter vergonha das referências locais, das tradições e do povo. Além disso, destaca que a arte brasileira não deve se servir de referências estrangeiras para construir a própria cultura. Ele ressalta também que é importante conhecê-las, mas que o Brasil tem condições de comparecer ao “concerto das nações cultas” dotado de identidade própria.

Professor Emilio Aceti (Foto: Daiane Obolari)

O artista e professor dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da FAESA Centro Universitário Emílio Aceti diz que produzir reflexões na sala de aula sobre a Semana de 22 é interessante para os alunos verem como o preconceito e uma visão ultrapassada podem frear o progresso, além de mostrar a evolução da arte no Brasil. Ele afirma ainda que o evento conseguiu mudar a visão da arte naquela época. O professor encoraja os estudantes a mudarem uma situação se eles não estão satisfeitos com aquilo que existe. “Tarsila, Portinari e Di Cavalcanti são os principais precursores da arte moderna pós semana de 22. Considerando que Di Cavalcanti foi um dos idealizadores e participante da semana”, complementa Emílio.

Artista Ione Reis (Foto: Thaís Gobbo)

A artista plástica Ione Reis contrapõe que a Semana tenha sido um marco para o movimento artístico mais elitista. Ela concorda que foi, sim, um grande auxiliar no impacto da arte na sociedade brasileira, mas que hoje é preciso realizar alguns questionamentos. “Quem eram essas pessoas? Quais classes sociais ocupavam? Em quais territórios eles promoviam a arte?”, ela pergunta. Dessa forma, segundo a artista, é possível começar a refletir em quais verdadeiros impactos a Semana de Arte Moderna gerou e para quem ela gerou.

Edição: Daiane Obolari

Imagem de destaque: Fotomontagem e arte (Ana Júlia Maciel/Jornal da USP)

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