Rubem Braga: o inventor da crônica moderna

Eric Zanotelli

Considerada um gênero literário versátil, a crônica, atemporal e mais brasileira do que nunca, encontrou em Rubem Braga o seu porto seguro. O cronista, considerado o pai do gênero, deu vida e apresentou à luz do dia uma das mais prazerosas formas que um escritor tem de se expressar para o seu leitor. Mas, antes de abordar a vida do cronista, é necessário voltar no tempo. Neste primeiro texto da série especial “Rubem Braga”, você irá conhecer um pouco sobre a história de vida do escritor, os caminhos que seguiu no jornalismo e as andanças do jovem que deixou a cidade de Cachoeiro do Itapemirim, interior do Espírito Santo, para ganhar o Brasil e o mundo.

Tudo começa em 1913, o ano do nascimento de Rubem Braga. A família do autor adquiriu um novo imóvel e se mudou para a casa que hoje é o atual centro histórico dos Braga. Seus pais, Francisco Carvalho Braga (primeiro prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Espírito Santo) e Rachel Coelho Braga, certamente não imaginaram que seu filho mais novo se tornaria o inventor da crônica moderna. Em entrevistas, quando questionado sobre a infância e o modo de viver, o autor dizia:

Eu tive uma infância normal. Depois que o tempo passa que a gente vê que foi uma infância feliz, uma infância boa

Rubem Braga

Parte desse depoimento pode ser entendido ao observar o modo de viver. Rubem passou uma parte da infância brincando às margens do rio Itapemirim, caçando passarinhos e tomava banho de mar em Marataízes, cidade litorânea da região sul do Espírito Santo, além de dividir os bons momentos da vida com os irmãos Jerônimo, Newton, Carmozina, Armando, Yedda e Anna Graça. Em seu terceiro ano do ginásio, em 1926, Rubem Braga ensaiou para o que viria a ser o destino: ganhou o concurso de redação, editado no jornal O Itapemirim, do grêmio do colégio Pedro Palácios. Foi o primeiro texto de sua autoria publicado.

Em 1928, Rubem e o irmão Newton, a companhia mais constante, começaram a trabalhar juntos no jornal da família, o Correio do Sul, fundado pelos irmãos Armando e Jerônimo. Dessa forma, iniciou sua atuação profissional no jornalismo aos 15 anos de idade. As produções no jornal eram baseadas em textos de assuntos variados. No mesmo ano, após um desentendimento com um professor de matemática que o chamou de “burro”, Rubem se mudou para Niterói, no Rio de Janeiro, e concluiu os estudos em terras fluminenses. A transferência de estado foi um marco determinante para o autor. A partir desse ponto iniciou-se a formação do cronista do futuro.

Logo após, o autor ingressou no ensino superior cursando o bacharelado em Direito. Contudo, jamais deixou de escrever para o jornal da família em terras capixabas. Em 1931, após dois anos morando no Rio de Janeiro, o cronista trocou de estado novamente. Dessa vez o destino foi Belo Horizonte, onde trabalhou pra o Diário da Tarde e Estado de Minas, pertencente aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Alguns anos depois, concluiu a graduação em Direito, mas nunca exerceu a profissão.

O Rio de Janeiro se tornou residência fixa somente após quase 30 anos, mas, até chegar lá, Rubem Braga viajou ao redor do Brasil e do mundo em aventuras inusitadas. Entre 1933 e 1934, ele se mudou para São Paulo, onde passou a escrever para o Diário de S. Paulo, e posteriormente retornou para o Rio de Janeiro com o objetivo de ser repórter de O Jornal e cronista do Diário da Noite. Um ano mais tarde se transferiu para o Recife. Na capital pernambucana, Rubem passou a dirigir a página policial do Diário de Pernambuco, dos Diários Associados, e que também publicava suas crônicas. Em 1936, após ser preso por suas posições políticas e retornado mais uma vez para o Rio de Janeiro, decidiu voltar para Belo Horizonte. De volta a Minas Gerais passou a escrever para a Folha de Minas e casou-se com Zora.

Rubem e Zora. (Foto: Arquivo Rubem Braga/Fundação Casa de Rui Barbosa)

Rubem e o filho Roberto (Foto: Arquivo Rubem Braga/Fundação Casa de Rui Barbosa)

Em 1937 ele voltou para São Paulo e editou a revista mensal Problemas, sobre cultura e política, ao lado de Oswald de Andrade e outros. Neste mesmo ano foi presenteado com o nascimento de seu único filho, Roberto Seljan Braga.

Ainda muito visado pela polícia, por suspeita de ser comunista, decidiu se mudar para Porto Alegre, em 1939, mas permaneceu na capital gaúcha por poucos meses até ser preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), um órgão público responsável por promover a censura imposta pelo regime militar. Logo após, foi despachado para o Rio de Janeiro, mudou a rota e seguiu para Natal, no Rio Grande do Norte. Posteriormente, em 1940, retornou a São Paulo para trabalhar no jornal O Estado de S. Paulo, onde conviveu com Clóvis Graciano, Sérgio Milliet e Tarsila do Amaral.

Em 1944, embarcou para a Itália como correspondente de guerra do Diário Carioca e acompanhou a ação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial.

Rubem e companheiros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) (Foto: Arquivo Rubem Braga/Fundação Casa de Rui Barbosa)

Dois anos depois, em 1946, viajou para a Argentina com o intuito de cobrir a eleição que levou Juan Domingo Perón (1895–1974) à presidência e permaneceu dois meses em Buenos Aires. No ano seguinte visitou Paris, atuando como corresponde de O Globo, jornal em que escrevia crônicas diariamente. Em 1955, assumiu o posto diplomático na capital chilena chefiando o Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil e divulgando a literatura brasileira na localidade.

O início da década de 1960 proporcionou um salto ainda maior na internacionalização da vida de Rubem Braga. Viajou para Havana, em Cuba, acompanhando o candidato à presidência do Brasil, Jânio Quadros. Posteriormente assumiu o posto de embaixador na capital do Marrocos, Rabat, a convite de José Aparecido de Oliveira, secretário particular do então presidente eleito, Jânio Quadros. Em 1963, foi desligado do serviço de diplomacia. Encerraram-se aqui as aventuras do cronista no vaivém entre residências, estados e países.

O BOM FILHO A CASA TORNA

Jardim da cobertura de Ipanema, 2010, Rio de Janeiro (Foto: Edu Simões/Cadernos de Literatura/Acervo Instituto Moreira Salles)

Em seu retorno ao Brasil, comprou uma cobertura em Ipanema, no Rio de Janeiro. O novo endereço se tornou fixo por todo o resto de sua vida, sem mais mudanças, e marcou época entre as personalidades literárias. O último andar do edifício Barão de Gravatá abrigou o jardim da cobertura do autor. No local, ele criou pássaros, plantou árvores frutíferas, recebeu diversas visitas ao longo dos anos e aproveitou a paisagem noturna que o endereço proporcionava.

Confira o vídeo sobre a “Fazenda no ar” de Rubem Braga:


EMPREENDEDORISMO E A MORTE DO CRONISTA

Buscando um espaço para que ele e seus amigos pudessem publicar seus trabalhos com liberdade, fundou, em 1967, a Editora Sabiá, com o amigo Fernando Sabino, mas, após 4 anos, encerrou as atividades e vendeu o empreendimento devido ao desinteresse em gerenciar o negócio. Em 1979, Rubem Braga viveu a última experiência internacional profissionalmente: viajou à Inglaterra e à Escócia como jornalista da TV Globo a convite de uma marca de uísque.

No início da década de 1990, o “Sabiá da Crônica”, como era conhecido pelos amigos, descobriu que tinha um câncer de laringe. Rubem rejeitou todas as possibilidades de tratamento. Foi internado no dia 18 de dezembro no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, mas morreu no dia seguinte, aos 77 anos. O corpo foi encaminhado para São Paulo e cremado. As cinzas seguiram para a cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim, e foram depositadas no rio Itabira, como era a vontade do cronista. Ao longo da vida foram dedicados 62 anos de jornalismo e mais de 15 mil crônicas escritas e reunidas em livros.

Quando alguém pedia para ele definir o gênero, sempre encerrava o assunto com bom humor dizendo:

“Se não é aguda, é crônica”.

Rubem Braga
Vídeo “Rubem Braga completaria 100 anos neste sábado” — Repórter Brasil, 12 de janeiro de 2013

Edição: Eric Zanotelli

Imagem destaque: Rubem Braga na Avenida Beira Rio, em Cachoeiro de Itapemirim. Ao fundo, é possível ver o Pico do Itabira, uma formação rochosa famosa na região sul do Espírito Santo (Foto: Divulgação)

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