Estudar e ser trans: do desafio ao acolhimento

José Modenesi

As pessoas trans e travestis são aquelas que não se identificam com o gênero que foi designado a elas no nascimento. Por não suprirem as expectativas de gênero que a sociedade impõe, essas pessoas acabam passando por inúmeras situações de transfobia – violência direcionada à pessoas que vivem a transgeneridade ou a travestilidade – e precisam ir à luta pelos próprios direitos.

Ao longo da série da reportagem “Vivência trans e travesti”, dividida em quatro matérias jornalísticas, vamos conhecer um pouco mais da realidade da comunidade trans para conseguir acessar os direitos básicos da sociedade, como o acesso ao estudo e à saúde. A matéria jornalística “Estudar e ser trans: do desafio ao acolhimento” abre a série trazendo relatos de pessoas trans e travestis no ambiente escolar.

escola é um ambiente de formação e de acolhimento e, para não abandonar os estudos, o aluno precisa sentir que pertence aquele lugar. No acesso à escola, a comunidade trans passa por conflitos para permanecer no ambiente escolar. Apesar da educação ser um direito básico, no Brasil o índice de evasão escolar entre pessoas trans e travestis é de 82%, dado que expõe a realidade da comunidade no País.

Hellen Brizzart, bacharel em direito, 
mulher trans e ativista das causas LGBTQIAP+ (Foto: Arquivo Pessoal) 

Bacharel em direito, mulher trans e ativista das causas LGBTQIAP+ e dos Direitos Humanos Hellen Brizzart explica que a Constituição Federal do Brasil determina que ninguém deve ser submetido a tratamento desumano ou degradante. Nesse caso, o trecho da Constituição abrange uma garantia dos direitos básicos de pessoas trans e travestis dentro das escolas.

Hellen ressalta, também, que as pessoas trans e travestis que sofrerem violações de direito podem buscar ajuda por meio do Ministério Público, da defensoria pública, da delegacia ou até mesmo procurar esse auxilio em ONGs de apoio às causas LGBTQIAP+.

Homem trans e vendedor Jonnas Sousa teve que lidar com a realidade da evasão escolar que o afastou da escola por 4 anos. Dentre os relatos em relação à transfobia que ele sofreu na escola estão o questionamento excessivo da vida pessoal, a importunação sexual e o impedimento do uso do nome social. Além disso, ele também relata ter sido impedido de utilizar o banheiro masculino – bem como o feminino – sendo direcionado para o banheiro dos professores.

Jonnas tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e relembra que a violência era justificada com o próprio rendimento escolar que, por vezes, era abaixo da média. Segundo os relatos dele, os professores diziam que Jonnas não sabia fazer nada e por isso não fazia sentido que pedisse por respeito.

Jonnas Sousa em 2022, ano em que retomou os estudos (Foto: Arquivo Pessoal)

Todas essas situações de violência relatadas por Jonnas resultaram em uma realidade: a evasão escolar. Na época, Jonnas tinha 15 anos e recebeu o apoio familiar para tomar a decisão de interromper os estudos. No ano de 2022, decidiu retomar à vida estudantil por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Atualmente, a realidade de Jonnas no ambiente estudantil é de mais respeito, o que gera nele um sentimento de paz, diferente do que vivia antes. Hoje, os problemas relacionados ao respeito pelo nome e ao uso do banheiro adequado, direitos básicos das pessoas trans e travestis, para ele, não existem mais.

Na escola, a realidade que o adolescente trans de 12 anos Thales encontrou foi de um ambiente de paz e de acolhimento. Embora Thales tenha sido a primeira pessoa trans a passar pela transição dentro da escola em que estuda, assim que Laura, mulher cis e mãe de Thales, informou à instituição sobre a transição do filho, iniciou-se na escola uma movimentação para que o processo fosse de respeito e de naturalidade.

Thales e a mãe Laura em uma das idas ao Hospital das Clínicas, em São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

Com a equipe escolar foi feita uma reunião para que os funcionários da escola soubessem da transição do Thales com o objetivo de evitar que erros e constrangimentos acontecessem. Uma vez que Thales já se apresentava com um apelido e com uma identidade masculina para os alunos, o processo foi natural dentre os colegas de turma.

Laura conta que viu o filho desabrochar e sentiu que o processo da transição de gênero foi um processo de libertação. Ela afirma ainda que, antes da transição, o filho era uma criança fechada, tímida, insegura e que não tinha muitos amigos, diferente da realidade que vive agora. Nas palavras do Thales, ele não era sociável e, atualmente, ele é.

Thales conta também que antes de transicionar chegava na escola querendo ir embora e que, hoje, o sentimento é de esperança. Ele tem vontade de ir à escola, de encontrar os amigos e de estudar. Além disso, após a transição, o Thales se descreve como um adolescente mais livre e diz que o apoio da escola o ajudou nesse processo.

Edição: Karol Costa
Imagem do Destaque: Núcleo de Publicidade do Lacos/Gabriel Bom Pastor

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