O atendimento na saúde e a voz para pessoas trans e travestis

José Modenesi

Para que o atendimento à comunidade trans possa ser feito com dignidade e com respeito, atendendo, dessa forma, as necessidades desse grupo, é importante que os profissionais da área da saúde estejam preparados para receber as pessoas trans e travestis e para saber lidar com as demandas que serão apresentadas.

A psicóloga, gerente de saúde mental da prefeitura de Guarapari e mulher trans, Júlia Pires, afirma que existe uma precariedade na capacitação de atendimento específico para as pessoas trans e travestis. Ela explica que com a capacitação continuada dos profissionais da área, a comunidade trans passará a ser melhor acolhida quando procurar os serviços de saúde. Com isso, o atendimento será feito com dignidade, aumentando as chances da comunidade voltar a buscar esse serviço.


Confira os outros textos que fazem parte reportagem “Vivência trans e travesti”. No primeiro texto da série especial, o leitor conheceu um pouco sobre os desafios e o acolhimento no ambiente escolarESTUDAR E SER TRANS: DO DESAFIO AO ACOLHIMENTO. O segundo texto, evidencia que o sistema educacional brasileiro precisa se preparar para receber as pessoas trans e travestis no ambiente escolar: MELHOR FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS E AMBIENTE ACOLHEDOR SÃO FUNDAMENTAIS PARA UMA BOA RECEPTIVIDADE DAS PESSOAS TRANS E TRAVESTIS NA ESCOLA. Já o terceiro texto, traz os desafios de pessoas trans e travestis no acesso à saúde: CORPOS TRANS E TRAVESTIS NA SAÚDE .


A atriz, fonoaudióloga e travesti Julie Vigano (Foto: Arquivo Pessoal)

A atriz, fonoaudióloga e travesti Julie Vigano, hoje, atua atendendo a demanda de voz trans, relata que muitos pacientes a procuram com o objetivo de adequar a própria voz à identidade de gênero com a qual eles se identificam.

Na sociedade, existem marcadores de gênero, ou seja, fatores que podem ser determinantes para estabelecer a forma que as pessoas serão tratadas. A voz é um marcador de gênero por que é interpretada como masculina ou como feminina e isso pode definir a forma de tratamento para com a pessoa que fala.

Julie explica que as pessoas trans e travestis buscam a adequação procurando um conforto com a própria voz e, principalmente, procurando evitar situações de transfobia. Essa violência de gênero também pode acontecer por conta da voz, que na sociedade é um marcador de gênero.

A fonoaudióloga relata ainda que por ser uma profissional travesti atendendo outras pessoas da própria comunidade, consegue proporcionar aos pacientes um maior entendimento das demandas que apresentam. Esse espaço de conversa e de compreensão, criado por meio da fonoterapia, gera um lugar de escuta que proporciona ao paciente a possibilidade de melhorar a qualidade de vida.

Benjamin Felkl, homem trans e UX Designer (Foto: Arquivo Pessoal)

Homem trans e UX Designer Benjamin Felkl explica que, para ele, a voz representa quem ele é. Por meio dela, Benjamin conta que consegue expressar o que sente, além de expressar o próprio gênero. Ele relata que buscou a fonoterapia após passar por um episódio desagradável no trabalho em que, ao se apresentar, foi questionado sobre como gostaria de ser chamado e, quando respondeu, o colega de trabalho riu e afirmou que a voz dele parecia com uma voz “de menina”.

Benjamin explica ainda que, no início da transição de gênero, as pessoas o enxergavam enquanto uma figura fisicamente masculina, mas quando o ouviam passavam a interpretar aquela voz como feminina e isso definia a forma que ele era tratado. Pelo fato de a voz ser um marcador de gênero, as pessoas passavam a se referir a ele nos pronomes femininos e o tratavam de um jeito que não condizia com o homem que ele é.

Atualmente, após fazer fonoterapia com a Julie, Benjamin conta que foi uma experiência excelente e que, hoje, depois do acompanhamento, o sentimento é de vitória e de felicidade. Ele complementa ainda dizendo que, por conta da fonoterapia, passou a se sentir bem com a própria voz e que foi uma ótima experiência.

Deborah Sabara na Audiência Pública “Dia Mundial contra a homofobia” 
na câmara de Vitória (Foto: Arquivo Pessoal)

A coordenadora de ações e projetos da Associação Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade (GOLD) e mulher travesti, Deborah Sabara, explica que o acesso à saúde para as pessoas trans e travestis é importante para que, naquele ambiente, a comunidade trans seja bem recebida. Ela finaliza dizendo que, quando o acesso no âmbito da saúde acontece de forma digna, essas pessoas podem passar a compreender que outros serviços disponíveis na sociedade também são serviços que a comunidade pode e tem o direito de acessar.

Edição: Karol Costa
Imagem do Destaque: Núcleo de Publicidade do Lacos/Gabriel Bom Pastor

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